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Fazia um sol lindo de se ver nesta época do ano. Estava ainda muito frio para o gosto de Luciano, ainda mais pra pleno janeiro, mas comparado com o frio que faria no inverno, ele tinha aprendido a dar valor aos dias ensolarados. O verde das parreiras brilhava nesses dias, por quilometros e quilometros a perder-se de vista, em algum ponto entre ele e as montanhas dos Andes que insistiam em dominar o horizonte com seus picos cobertos de neve. Quando via essas montanhas, Luciano se lembrava do quão longe estava de casa.
— Nesta área parece estar tudo normal, mas por via das dúvidas é melhor ficar de olho. — seu chefe anunciou, examinando alguns gráficos no laptop que tinha aberto e apoiado em um braço. — Você vê isso aqui? Se aumentar muito-
— Vai dar um problemão na hora da colheita. — Luciano complementou, assentindo.
— Ainda mais com esse novo gerente, não podemos bobear.
Era difícil acreditar que algo poderia dar errado naquele campo tão lindo e vivo, mas quando se tratava de um vinhedo dessa qualidade nas vésperas dos meses da colheita, todo cuidado era pouco.
Luciano era formado em agronomia, e foi por coincidência do destino que tinha acabado estudando uvas para vinho. Queria era trabalhar com plantação para suco de uva, nas parreiras das terras ensolaradas perto de casa. Foi por sorte que ele passou na prova de espanhol sem ter estudado, acaso que mandou o currículo para uma vinícola a cinco mil quilômetros de sua casa, porque achava que não ia conseguir mesmo, e porque achava que perto de casa iria. No final foi ao contrário, então foi realmente por puro azar que ele acabou parando ali.
Mas não era de todo ruim, o intercâmbio ia ficar bonito no currículo. Tinha aprendido a falar espanhol de verdade e aprendido até a tomar vinho igualzinho à gente fresca. Havia lá suas vantagens.
— Bom dia! Espero que essas caras não sejam de notícia ruim. — um rapaz caminhou até eles acenando, e parou na distância certa para que o chefe de Luciano educadamente lhe mostrasse o que estava vendo na tela do laptop.
Apesar de ter a mesmíssima idade do Luciano, o jovem era apenas o chefe do chefe do chefe do chefe do seu chefe, tão acima na hierarquia que qualquer distância entre eles chegava a desaparecer. O novo gerente, o enólogo que andava por cada canto da vinícola com olhos de águia bisbilhotando o trabalho alheio, tinha mais sangue que experiência. Quando se tratava de escolher cargos tão grandes de chefia, o sangue era o que falava mais alto, ainda que indiretamente. Martín Hernández era enteado da dona legítima de todo aquele lugar, e era só por isso que ele podia chegar para um funcionário muito mais velho e capacitado do que ele e começar a fazer mil perguntas sobre por que tal coisa estava sendo feita assim, assim, assado.
— Quero elas doces e bonitas para colher o quanto antes possível, não quero um grão de açúcar fora do lugar. — ele explicou, com os olhos longe nas parreiras de Sauvignon Blanc. — Senão basta uma chuva pra elas não prestarem pra mais nada.
— Os indicadores do solo estão bons. — Luciano se meteu onde não era chamado. — E estamos de olho, não vamos deixar cair. Nenhum grão de açúcar fora do lugar, senhor.
Martín estreitou os olhos, mas abriu um sorriso diplomático.
— Bom, muito bom. Gosto de ver um estagiário tão comprometido. Se ficar bom mesmo, no fim da colheita eu te faço um brinde.
E saiu, com dois tapinhas de despedida no ombro de Luciano antes de ir importunar outra pessoa.
— Ele é dedicado, isso ninguém pode criticar. — seu chefe tentou amenizar o clima.
— Ele vai é acabar de cabelo branco assim… — Luciano resmungou, sorrindo. — ‘Nem um açúcar fora do lugar’, que besteira é essa?
Seu chefe deu de ombros e voltou para o trabalho, jogando algumas tarefas para Luciano fazer e poderem ir logo almoçar.
Apesar de enxerido, ninguém achava Martín má pessoa. Ele era interessado, atencioso, e não faltava com respeito com nenhum funcionário, apesar da fama de cabeça quente que os funcionários mais antigos da bodega atribuíam a ele. Estava sempre sorrindo um sorriso charmoso, tentando agradar todo mundo ao mesmo tempo em que exercia autoridade. Se ele fosse uns dez ou vinte anos mais velho, a falta de credibilidade que ele exalava já não pareceria mais um problema, e ele poderia até tornar-se um chefe querido.
Bem, ele ia herdar aquele negócio todo, então tinha tempo para envelhecer.
Luciano trabalhava na parte da manutenção da qualidade do solo nas plantações, e conhecia bem pouco da estrutura para onde a uva ia quando era tirada do pé. Sabia que era um processo complexo, cheio de máquinas enormes e que cada vinho tinha suas especificações, mas raramente ele chegava a andar por essa parte da vinícola. No porão então, onde se armazenavam em barricas de carvalho francês os vinhos mais caros da bodega, Luciano nunca tinha posto os pés.
Mas Martín queria bater um papo com seu estagiário tão comprometido, e tinha escolhido lá como seu ponto de encontro.
Ele não podia só chamar Luciano para um café.
— Os vinhos ficam guardados aqui por cerca de um ano há um ano e meio, dependendo do tipo. Assim eles pegam o gosto da madeira ao longo do tempo. — ele explicou, conforme desciam as escadas para o espaço no subsolo. Já estava de noite, o expediente já tinha acabado, e era para Luciano estar indo para casa. — É um processo muito caro, por isso daqui só saem os melhores vinhos. O preço da madeira não ajuda, temos que importar tudo da Europa.
Luciano riu de canto.
— Se começassem a procurar melhor, aposto que achavam uma madeira sul-americana para subsistir. — desafiou, passando a palma da mão por um dos barris. — Poderia deixar os vinhos totalmente únicos
— No Brasil já tem gente procurando por um substituto para o carvalho, no Chile também. — ele abriu outro sorriso diplomático e trancou a porta do porão por dentro. — Quem sabe você possa ajudar nessa busca um dia.
— Lá o que não falta é madeira. — Luciano sorriu de volta.
A caverna nada mais era que uma sala larga de tijolos a vista, cheia de barris, a meia luz. Martín caminhou até um pequeno armário em um canto e retirou de lá duas taças de cristal e um tubo longo de vidro que parecia uma pipeta gigante.
— Ah, então você secretamente é um serial killer. — Luciano brincou.
Martín riu junto e acenou negativamente.
— Não, por enquanto não. Isso aqui se chama viena.
Luciano levantou os ombros, ainda no escuro. Martín lhe entregou as duas taças e se aproximou de um dos barris, e por um buraco que ficava em cima, inseriu a tal viena. Quando retirou, ela estava até cerca de um terço cheia de vinho, o suficiente para Martín servir as duas taças antes de deixar o instrumento de lado.
— Malbec, de duas colheitas atrás. — explicou, pegando uma das taças da mão de Luciano para si. — Daqui a pouco já está pronto para engarrafar. Mas esse brinde é por conta da casa.
Sempre cheio de charme. Luciano sorriu com o canto da boca.
— Achei que meu brinde era só depois da colheita.
Martín estava girando a taça na mão, analisando casualmente a cor do vinho.
— Então considere este apenas uma amostra do que vem depois.
— E a que estamos brindando?
Martín deu de ombros.
— Aos bons indicadores do solo. A mais um dia de trabalho. Às estrelas. Ao que você quiser.
Brindaram. O vinho estava realmente muito bom, amadeirado e cheio de corpo, do jeito que Martín gostava. Era o tipo de luxo que Luciano sabia que não poderia se acostumar.
— Você gostou do lugar? — Martín perguntou depois de um momento.
Luciano olhou em volta, caminhou um pouco ultrapassando Martín.
— É bem bonito, para um armazém.
— Eu acho… íntimo. — Martín o alcançou. — É mais frio que lá em cima, faz a gente querer se esquentar.
Disse isso com as costas da mão descendo pela mandíbula de Luciano, um charme, um convite, que parou quando ele segurou-o pelo queixo e puxou seu rosto para um beijo lento.
Luciano deixou, porque ele nunca foi de resistir. Deixou Martín beijá-lo um pouco, sem pressa, pra ver quando ia durar. Mordeu seu lábio inferior quando ele tentou se afastar, porque era isso que Martín queria mesmo, atiçá-lo, começar as coisas e depois parar, criar uma distância entre eles para Luciano ter que ir atrás. Quando ele dava um passo para trás como quem se fazia de difícil, era porque queria que Luciano deixasse sua taça de lado em algum lugar e o agarrasse pela gola da camisa fina e o empurrasse de costas contra a parede de tijolos.
Dali Luciano o fez beijá-lo de novo, puxou sua blusa, mordeu a orelha, que era a única parte em que não ia marcar. Apertou sua boca na sua, fez uma bagunça, e Martín também sempre deixava, no máximo o convidava a fazer mais ainda do que estivesse. Por isso Luciano estranhou quando ele riu contra o beijo e virou o rosto.
— Calma, calma, pra que a pressa? — virou-se de novo para deixar um beijo na ponta do seu nariz, mas fugiu do beijo que Luciano tentou roubar. — Me namora um pouquinho primeiro…
Luciano se afastou um pouco, com uma risadinha pela maneira que Martín falava, outra pelo que estava pedindo.
— Você não é de querer esperar. — levantou uma sobrancelha.
— E que que tem? — deu de ombros, com um sorriso dos mais convidativos. Soltou as mãos de Luciano de sua camiseta e guiou para sua cintura, antes de enrolar-se com os dois braços ao redor dos seus ombros para sentir seu cheiro. — Agora eu quero.
Luciano suspirou, derrotado, mas intrigado.
— Seu pedido é uma ordem.
Essa vontade repentina era novidade, mas Martín era tão cheio de manias que não chegava nem mais a surpreendê-lo. O namorinho geralmente vinha depois, porque Martín também era exigente, e já reclamava se Luciano vestia as roupas antes de dar-lhe o suficiente de dengo. Seus encontros já tinham se tornado um costume, e eram sempre bastante parecidos nesses quesitos. Martín o chamava para conversar em algum canto da vinícola quando já não tinha mais ninguém, e sempre em algum canto diferente (ele dizia que era porque queria mostrar tudo para Luciano. Luciano desconfiava que era só para diminuir os riscos de serem pegos), e daí pra frente ele fazia tudo que Martín queria, porque ele era charmoso como ninguém e sabia pedir. E ele gostava de tudo que Luciano fazia, se desmanchava fácil com qualquer toque gentil ou palavra bonita, e havia charme nisso também, em alguém tão fácil que fazia o mundo todo parecer descomplicado. Como o calor mole que se sente depois de um pouquinho de vinho demais, Martín o entorpecia, o deixava burro e alegre. Se não fosse assim, Luciano jamais teria colocado seu intercâmbio em risco pelo rostinho bonito de um riquinho mimado.
Valia o risco. E além disso, Martín era discreto. Não faria bem para sua autoridade que ficassem sabendo desse namorico com um estagiário, e sua autoridade era seu maior tesouro. Passavam dias sem se ver, e estava acordado implicitamente que Luciano deveria sempre esperar Martín chamá-lo, nunca o contrário. Pequenos inconvenientes de ter um caso com o chefe.
