Chapter 1: Prelúdio
Summary:
primeira tradução no a03 e é jayvik KKKKKK. socorro.
obrigado @mylevelance pela obra e pela permissão!
boa leitura :)
Chapter Text
A História é um rio se enroscando. O tempo passa através do leito, tropeçando e contorcendo-se em si mesmo.
Às vezes é necessário um deslizamento para mudar seu curso. Pode-se precisar o esforço concentrado de anos e anos de erosão, ou mil grãos de areia. Pode-se precisar de um desastre natural para inundar as planícies e mudar o caminho da história.
Mas às vezes precisa-se de menos. Às vezes, é uma árvore caindo, uma pedra rolando, que desencadeia uma série de eventos que permeiam por terras desconhecidas.
Essas árvores caindo, e essas pedras rolando, são chamadas de catalisadores.
Alguns têm nomes que ecoam pelos séculos. Eles mudam o fluxo como vastas pontes de pedra, venerados e amados. Outros nomes não se podem pronunciar, atos ruins levando a resultados ruins. Maldade não significa irrelevância; portanto, mesmo aqueles que buscam danificar o mundo são catalisadores de mudança.
Alguns são lembrados apenas por ato. Quem inventou o transistor que iniciou a era digital. Quem descobriu a fusão nuclear para fazer a bomba atômica. Quem escreveu pela primeira vez na Suméria.
Alguns não são uma só pessoa, mas duas. O casal que descobriu o polônio e o rádio. Os casamentos que mudaram leis, de novo e de novo. O arquiduque que morreu para iniciar uma guerra e o atirador que o assassinou.
Cada um nasceu com a runa da catalização posta em seu peito. Uma marca de grandeza. Para o bem ou mal.
Ser um catalisador é ser marcado para o impacto. Seja o impacto um assentamento suave no leito do rio, seja ele uma colisão violenta, é inevitável.
Não importa o quanto tentem resistir.
Chapter Text
Três minutos sobrando.
Jayce aceita os parabéns e boa-sortes de alguns professores. Ele arruma o cabelo no reflexo do vidro expositor. Tá bonito. A Caitlyn disse. O motor também, atráves do vidro. Cobrir o titânio em cromo reluzente foi uma ótima ideia. Dá a impressão de ser mais polido e poderoso do que é de verdade. Esse é o projeto que todos estão esperando desde que ele começou a experimentar na oficina de engenharia em seu primeiro ano. Ele está indo para o último, agora.
É hora de terminar isso.
O locutor chama seu nome. Organizadores deslocam seu motor até o palco. Jayce ajusta a camisa para mostrar sua runa catalisadora e adentra o tablado exterior.
Ele sempre usa camisetas mais largas ou desabotoadas no colarinho. Tanta gente pede para ver a marca de catalisador que ele acha mais fácil tê-la à vista. Posicionada logo abaixo da clavícula, a runa é um grupo prata de círculos interligados, que lembram um planeta anelado ou as órbitas de um elétron. É permanente.
Não que ele gostaria de se livrar dela. Claro que o coloca no centro das atenções o tempo todo, mas não é tão ruim assim. É um bom impulso de confiança saber que um dia ele mudará o curso da história da humanidade.
E esse dia é hoje.
“Boa tarde a todos, e obrigado por virem à Exposição de Ciência Universitária de Piltover. Meu nome é Jayce Talis e hoje, eu darei as estrelas pra vocês.”
A multidão é composta de talvez uns cem entusiastas e acadêmicos. Mesmo assim, ele tem que esperar os aplausos diminuírem para continuar. No fundo, Jayce vê um relance de ouro. Mel encontra seu olhar e acena com a cabeça com um meio-sorriso esperto. Ela é um dos poucos catalisadores estudando na universidade. Têm quatro deles, mas todos falam só dos dois. É neles que você deve prestar atenção. Pelo menos de acordo com o jornal da escola.
Ele espera que Mel não esteja muito chateada por estragar seus sapatos no campo de treino. A única demonstração com base nuclear é a dele, mas os organizadores disseram que poderiam realocar de acordo com a necessidade. E ele não é convencido o bastante para testar mecanismos nucleares em lugar fechado.
Impulsionado pela afirmação de Mel, Jayce continua, “Esse motor de fissão nuclear vai ser o primeiro acelerador desperdício-zero com força o bastante para sair da atmosfera. Viagem espacial sem os danos ambientais. Jornadas interplanetárias com quilometragens praticamente infinitas. Começa bem aqui.”
Ele aperta o grande botão vermelho na lateral da cápsula. O motor engata com um zumbido elétrico. A multidão aplaude. As luzes led que ele posicionou nos lados brilham azuis.
O motor levanta da mesa móvel conforme a programação. O povo arqueja. Jayce sente seu coração inchando. Ele conseguiu. Ele orgulhou todo mundo. Todo o trabalho dele até agora está compensando.
“Isso é só o come-”
Um barulho agudo esperneia no sistema de alerta do motor.
Seu coração despenca no estômago.
Não.
Não, não, não, não!
É o alarme que ele colocou no caso de derretimento nuclear. Tem só uma lasca de urânio, mas também um labirinto de fios e sistemas refrigeradores. As luzes led piscam vermelhas. O que significa que vai explodir.
Ele bate na lateral da cápsula. Talvez seja um glitch. Um erro no sistema de alarme.
Com cada murro, o apito fica cada vez mais alto.
Jayce pega o microfone, “Desculpa gente, parece que teve uma falha. Precisamos evacuar o campo. A distância segura é um quilômetro!”
O povo encara, alguns em choque, outros confusão. Mel já começou a se afastar. Sempre foi mais esperta que os outros.
“Bora, gente, corram!” Jayce grita para a multidão.
Parecem finalmente entender. Acadêmicos que estiverem agarrados a suas mesas pelos últimos trinta anos se esforçam na ação. Jayce arranca a cápsula de exposição. Ela se despedaça pelo palco. Ele devia ter trazido as ferramentas. Devia ter imaginado que teria algum problema.
Uma mão enrosca-se em seu pulso. É sua amiga Caitlyn. Ela não liga muito pra engenharia já que estuda ciências forenses, mas ele se emociona com a presença dela pra apoiá-lo. Ou, se emocionaria, se seu reator de fissão nuclear não estivesse prestes a explodir num campo de futebol.
“Larga, Jayce!” Caitlyn grita, “Vamos!”
Ela praticamente arrasta ele para longe do motor apitando. A vibração elétrica se transforma num grito agora. Eles viram e correm, os últimos a saírem.
Eles não conseguem se afastar bem o bastante.
Uma parede de ar quente os derruba no chão.
Por um momento, tudo fica escuro. Inerte, silencioso escuro. É meio relaxante.
Vagamente, Jayce ouve um zumbido. Tem terra em sua boca.
E de repente Caitlyn, vasculhando seu rosto em pânico.
“…tá bem?” ela pergunta frenética. Uma mancha de grama escurece sua camisa azul claro.
Sua audição retorna, mas o zumbido não some. Está dentro de seu cérebro, rodando e rodando. Em seus ossos. Caitlyn ajuda-o a se levantar. Repentinamente, ele não quer mais ficar em frente a uma multidão.
O aglomerado de acadêmicos está estressado, mas sãos e salvos. Professores murmuram sobre o campo ter que ser isolado para prevenir contaminação radioativa. Ninguém mais quer parabenizar ele. Ninguém quer falar com ele. Ninguém quer olhar para ele. Caitlyn diz que sente muito com uma expressão sincera. Jayce acena com a cabeça, mal tendo escutado.
No fundo do campo se vê uma pequena cratera. Terra queimada se estica por ela como dedos ardentes. Jayce vai vomitar. Ele vai vomitar agora mesmo.
Ele se vê murmurando uma desculpa fraca no ouvido da amiga e disparando em uma caminhada-quase-corrida. O banheiro mais próximo é no centro de atletismo, mas se ele for pra lá, pessoas vão ter perguntas. Se as pessoas pararem pra fazer perguntas, ele vai vomitar nos sapatos delas e desmaiar e provavelmente começar a chorar. Sem ordem específica.
Suor se espalha por suas sobrancelhas conforme entra aos tropeços no prédio de astronomia. É sempre uma cidade fantasma por ali. Jayce chega ao banheiro bem a tempo. Ele joga as entranhas no lixo do lado da pia porque não consegue chegar ao vaso.
Lágrimas rolam por seu rosto. Ele se sente nojento. Ele está com nojo. Quando finalmente levanta os olhos, ele vê a casca arruinada de um homem com a pele úmida e olhos vermelhos. Seu cérebro não o reconhece de primeira. É a runa catalisadora que identifica a aparição como sua pessoa. Ele nunca tinha odiado ela tanto como agora.
Ele joga água em seu rosto, mas o único efeito é molhar seu colarinho. Terra e grama mancham o lado de sua camisa onde a explosão o derrubara. Logicamente, ele sabe a maioria foi por causa do envolto da célula de combustível nuclear, já que não tinha urânio o bastante para explodir daquele jeito, mas ainda se sente afetado pela sensação do ar aquecido o arremessando. Nenhuma quantia de água da torneira vai retirá-la.
Em um torpor exausto, Jayce perambula além do banheiro.
O peso é de um céu inteiro caindo sobre ele. Seu pescoço endurece, seu peito queima. Ele fez isso. Estragou o campo pra todo mundo. Pra sempre. Vai precisar de centenas de milhares para remediar o lugar, centenas de milhares de anos para curar o solo sob seu maquinário. Ele falhou tão catastroficamente que nunca vai se recuperar. Toda essa gente torcendo por ele, decepcionadas em um único instante horrendo. Um erro estúpido. É culpa dele. Ele não merece a estima deles. Não merece as condolências. Ele não merece a runa catalisadora em sua pele.
O pensamento gruda em sua cabeça. Gira e gira e gira como uma roleta. Ele não merece a marca. Ele nunca vai mudar nada pra melhor. Ele vai piorar tudo. Ele vai fazer uma merda tão grande um dia que vai acabar com o mundo.
Um catalisador vale isso tudo?
O mesmo pensamento leva ele a subir as escadas do edifício de astronomia. Ele nunca veio aqui antes. Mas ele sabe que é o único prédio com acesso ao teto por causa do observatório. Tem um porquê de não deixarem estudantes de faculdade subirem em telhados.
Ele encontra seu caminho pra cima, cima, cima.
E o peso de sua culpa o puxa pra baixo, baixo, baixo.
Logo, ele está abrindo a porta do observatório.
O domo melancólico reflete azul pelos monitores do telescópio, que brilha prateado no meio. O único jeito de sair é pela entrada do telescópio pela parede. Jayce se aproxima do retângulo aberto e dá uma olhada.
O observatório fica empoleirado no canto do edifício. Uma queda alinhada de onze andares até a passarela de pedra. Um pequeno conforto é que só as vans de manutenção e estudantes perdidos passam por aqui. Ele provavelmente não vai traumatizar ninguém com o espetáculo. Só quem achar ele. Isso vai dar vergonha. Nada mais vergonhoso do que ele já fez.
Ele pega as anotações da apresentação de seu bolso. Seus motivos vão ser óbvios pra qualquer um, mas ter seus próprios designs como nota em seu cadáver é meio narcisista. Não tem como controlar o que vão falar dele quando se for. Bem, a Mel provavelmente vai tentar.
Feito isso, Jayce se eleva até a beira. A brisa outonal bate em suas roupas. É uma longa queda. Boa. É isso o necessário. Ele não vai piorar o mundo, não importa o que a marca idiota em seu peito diga. A história escolheu errado.
A sola de seu sapato desliza devagar pela borda. Ele só precisa—
“Tô atrapalhando?”
Jayce xinga e cai para trás da beira, aterrisando de lado numa mesa rolável. Ela vira e acaba em cima dele.
Ele fica deitado em transe por um momento, desorientado. E provavelmente com um galo.
Isso dá bem mais vergonha que o plano original, com certeza. Jayce solta uma risada incrédula. Soa meio perdida. Ele está perdido.
A mesa é retirada de cima dele. O ar enche seus pulmões. Um rosto surge em sua visão, magro e pálido. Por um segundo ele acha que morreu. Mas ele balança a cabeça e vê que é só uma pessoa. Uma pessoa com olhos grandes castanho-claro. Uma pessoa com cabelo ondulado caindo suave ao redor de um maxilar definido.
Uma pessoa que não parece nem um pouquinho surpresa com ele.
“Ai,” Jayce geme.
O indivíduo utiliza uma bengala para impulsionar a mesa derrubada para cima. Um suporte grosso e escuro apoia sua perna direita. Está usando roupas antiquadas, botão e tweed. Jayce encontra seus olhos subindo até seu rosto de novo.
“Da próxima vez, olha antes de pular. Não literalmente, claro,” a pessoa diz com uma faísca travessa. O sotaque é vagamente do leste europeu. Sua boca pisa com propósito nas consoantes. Tem uma qualidade lírica em sua voz também, como se tudo fosse uma grande piada. Jayce perde a vontade de rir subitamente.
Humilhado, Jayce não tem escolha além de se levantar.
Ele se endireita e veste seu melhor sorriso a contragosto, “Desculpa por isso…?”
“Viktor” diz a pessoa. A pessoa Viktor.
Jayce coça a própria nuca desconfortável. Sem dúvida Viktor sabia o que ele estava tentando fazer. Ele esperava que o outro cara pirasse um pouquinho, talvez até chamasse a polícia do campus. Ao invés disso, Viktor estreita os olhos para um papel em suas mãos. Jayce troca o peso em seus pés durante o momento de silêncio prolongado.
“Sua letra é horrorosa,” Viktor diz como quem espera uma conversa.
“Qu—quê?” Jayce balança a cabeça. Ele não morreu de verdade, né? Porque o limbo é bem estranho se ele morreu mesmo.
Viktor entrega o papel para ele. Ah. São as anotações da apresentação. Jayce sente sua cabeça inteira esquentar. Ele captura o papel e enfia ele dentro de seu bolso.
“Sua letra,” Viktor esclarece, “como você entende?”
“Eu tenho outras prioridades,” Jayce diz defensivo.
A sobrancelha esquerda de Viktor sobe. O estômago de Jayce dá cambalhota. Ele vai vomitar de novo? Meu deus, por favor, no desconhecido gostoso não. O cerébro de Jayce freia rápido. Ele se corrige, por favor, não em seu colega estudante.
“Dá pra ver pelo jeito que você tá tentando testar as teorias do Newton que você tá com as prioridades corretas,” Viktor arrasta sarcástico, inclinando a cabeça na direção do retângulo do qual Jayce tentara pular, “Eu diria que a caligrafia precisa ser valorizada. Tá realmente lamentável. Você escreveu necessário com dois c’s e três s’s.”
Jayce pisca. O cara tá zoando ele mesmo, agora, nesse momento? Que dia fodido.
“Essa palavra é difícil!” ele protesta, “Eu tava com pressa!”
Um sorriso torto sobe no canto da boca de Viktor. Jayce não consegue tirar os olhos do rosto desse cara. Tem alguma coisa ali que faz ele querer chegar mais perto pra ver melhor. Eles já estão bem perto. Em sua defesa, é um espaço bem pequeno.
“Posso te dar um conselho, Jayce?”
“Como você sabe meu nome?” Ele pergunta curiosamente. Talvez estejam em alguma aula ou laboratório juntos. Talvez ele possa procurá-lo na próxima.
“Você assinou as próprias anotações. Um pouquinho egocêntrico, na minha opinião.”
Jayce cruza os braços, juntando as sobrancelhas, “Por que a pergunta? Você já tá oferecendo bastante de graça.”
“Porque eu quero que você ouça,” Viktor diz de forma leve.
Irracionalmente, Jayce pensa que gostaria de escutar qualquer coisa que ele diga desde que continue ali falando com ele. É como se tudo que o estava pressionando tivesse sido levantado de si junto com aquela mesa. Pode ser que ele já se humilhou além do limite na frente desse desconhecido então não tem como piorar. Pode ser que ele precise de um conselho. De qualquer jeito, ele está concentradíssimo no que Viktor vai falar.
“Manda.”
Ele começa a andar até a porta. Jayce segue.
“Se você tem energia o bastante pra discutir comigo sobre sua letra tenebrosa, você tem energia o bastante pra continuar vivo. Nunca vai melhorar se você não der tempo pra isso,” Viktor segura a porta para Jayce e adiciona, “A caligrafia, no caso.”
“Ei—“
A porta do observatório fecha entre eles com um baque firme.
O clique da chave prossegue logo depois.
Jayce, repentinamente só no corredor, encara a porta por um momento. Ele não consegue acreditar. O cara trancou ele pra fora do observatório mesmo.
Pensando bem, ele percebe que tava tentando se jogar do buraco do telescópio.
Então.
Justo.
Com uma sensação no estômago que pode ser resto de enjoo, ou uma coisa totalmente diferente, Jayce inicia a descida longa até o solo.
Dessa vez, pelas escadas.
Notes:
Viktor: *humilhando o jayce até arrancar o couro*
Jayce (médium): eu tô com a sensação que ele ta tentando me zoar
Chapter 3: Vermelho Iodo
Notes:
oi gente! blocão de avisos aqui, pra tirar umas coisas do caminho:
essa fic é linda! ela é comprida mas os capítulos são curtinhos—e é um amor, muito bem escrita.
talvez tenham percebido, mas tento manter muito das minhas traduções naturais—dificilmente vou colocar algo num diálogo que não consigo enxergar alguém falando. também tô levando a caracterização dos personagens em consideração, claro. enfim, não estranhem nenhum “tô” nem “pro,” seja no diálogo interno ou externo das personagens. aliás, autobetado (ou seja: não betado).
quanto ao ritmo das postagens, tô traduzindo umas cinco coisas ao mesmo tempo (socorro) mas tentando priorizar essa daqui. super apoio marcar pra mais tarde e ler quando tiver mais capítulos pra vocês.
obrigado pelos kudos e pelo carinho! adoraria ler o que vocês estão achando <3 e deixem kudos na história original também, linkada aqui na fic!
dito isso, boa leitura :)
—
notas autorais:
O título original dessa obra era “Cubra-me em disprósio, pinte-me azul cromo.” Eu fui pelo caminho anticapitalista porque faz mais sentido, mas o original ainda tem um lugarzinho no meu coração.
(See the end of the chapter for more notes.)
Chapter Text
O lugar favorito de Viktor na universidade inteira é o observatório.
E não é pela tecnologia inovadora de Heimerdinger ou pela vista do topo. É porque é totalmente esquecido. Seu cantinho na borda do céu que ninguém conhece, tirando os alunos de Física, que sempre estão ocupados demais encarando provas matemáticas pra se aventurar.
Com o dia que ele teve, ele precisa de um tempo pra si mesmo. A aula de física de Heimerdinger que ele ajuda de manhã é cheia de crianças burras. O professor cospe besteiras sobre a ingenuidade esperançosa dos jovens enquanto Viktor assiste, consternado, a um menino de 19 anos no fundão tirar meleca do nariz com o sextante expositivo. Oito da manhã é muito cedo pra ele perder a esperança na humanidade.
Depois disso ele tem que se apressar até o sétimo andar pra chegar à própria aula. Não seria tão irritante se tivesse um elevador no edifício e se sua perna tivesse a boa vontade de aguentar seu peso; mas não tem nenhum dos dois, e é bem irritante.
Ele se atrasa pra aula todo santo dia. Professor Singed encara-o gravemente conforme ele manca até o único assento vago, bem no meio da primeira fila. Uma das meninas na frente move sua mochila para criar espaço e sorri esperançosamente. Viktor geralmente só acena com a cabeça. Ele se pergunta se as coisas seriam melhores se ele tentasse ser mais positivo—ele provavelmente faria mais amigos. Mas nunca foi uma prioridade, para Viktor, que gostassem dele. Tem muitas outras coisas, tipo ter comida pra se alimentar e continuar respirando, que acabam roubando sua energia pra agradar os outros.
Depois dessa injúria diária, ele volta ao laboratório. O espaço é só um escritório minúsculo compartilhado com outros dois assistentes de astronomia. Tem algumas peças de equipamento científico, de uns vinte anos atrás, da última vez que o setor ganhou verba. Os béqueres no canto são de segunda mão do departamento de química e estão manchados de solução de iodo. Ele nem se dá ao trabalho de usá-los. Só fica sentado na mesa, corrigindo atividades e bebendo o ácido de bateria que ele chama de café. Quando a conversa dos outros assistentes sobre alguma megaexposição no campus irrita ele, ele se arrasta até o observatório pra considerar algum estudo de verdade.
Faz um bom tempo que Viktor não faz uma pesquisa de verdade. Ele redige revisões acadêmicas para Heimerdinger, o chefe de Astronomia, mas não tem nada de inovador neles. Em sua maioria, são compilados das últimas descobertas do campo e críticas de cientistas mais esperançosos do que deveriam. Heimerdinger tinha encorajado ele a participar da próxima competição de ciências para promover colaboração interdisciplinar, mas Viktor não quer se submeter aos interesses de outra pessoa. É uma pena que ele não tenha tido vontade de completar sua pesquisa sozinho. Faria o tempo passar mais rápido. Um ano se passou desde o início de seu mestrado e ele ainda não começou.
Se for pra ser honesto, ele tem medo de tentar.
Uma coisa é ser bom em ciências e conseguir sobreviver a uma faculdade de astrofísica. Outra coisa, totalmente diferente, é ser bom em ciências e um catalisador.
A runa descansa prateada acima dos ossos saltados de seu torso. Quase parece uma gota de chuva invertida, se gotas tivessem dentes. O círculo no topo tem sete nódulos pontudos direcionados para fora. Em baixo, ao invés de arredondar, ela afia íngreme em forma de V. Seus pais devem ter achado muita graça em chamar ele de Viktor.
Vinte e quatro anos depois, ele só começa a ver graça agora. De uma maneira amargamente irônica.
O problema em ser um catalisador não é, necessariamente, o fato que ele está destinado a mudar o mundo um dia. O problema é que ele é da Cidade Baixa—uma região complicada abaixo do rio e da planta de metalurgia industrial de Piltover. Viktor cresceu respirando fumaça e desviando de perigo. Todo mundo raspando pra sobreviver, todo mundo forçando a sorte pra conseguir mais do que perde. Não tem nada que grita má sorte como um catalisador.
Pra quem é bem alimentado e abrigado, a chance de mudar o mundo é uma bela oportunidade. Pra quem não conhece nada além de miséria e opressão, a chance de mudar o mundo é uma chance de vingança. Não importa o que Viktor queira fazer com sua aptidão em física, a marca em seu peito, junta com o lugar de sua criação, já grita por ele o que todos precisam saber. Um dia ele vai queimar tudo. Ninguém gosta de uma bomba-relógio.
Ele aprendeu essa lição muito antes de Heimerdinger oferecer a vaga pra ele no melhor internato para alunos excepcionais. No primeiro dia, ele chegou com a runa coberta e roupas limpas. Ele nunca ia se misturar com o povo de Piltover—sua propensão à solidão e cérebro impaciente já dificultavam seu caso, sem contar com a bengala e a órtese—mas poderia pelo menos tentar evitar ser excluído por algo tão irrelevante como a runa.
Ele até esquece que tem ela na maioria dos dias. Sempre escondida. E não busca ela no espelho.
Não é até o cara de ombros largos e camisa desabotoada invadir seu observatório que ele se lembra do que ele deveria ser.
O homem não parece percebê-lo—o lugar é pequeno, mas as luzes estão apagadas. Pela expressão devastada em seu rosto, ele mal deve estar olhando ao seu redor.
Que rosto bonito.
Viktor reconhece a pele bronzeada e a mandíbula esculpida depois de um instante encarando. Não é ninguém mais que o garoto de ouro de Engenharia, Jayce Talis. Tem uma propaganda na cantina que mostra ele heroicamente soldando pedaços de metal, que roda em todas as televisões a cada meia hora, pelo menos. É impossível não saber quem ele é. É impossível adivinhar o que ele tá fazendo aqui.
Sua camisa está manchada de grama, e seus olhos, vidrados. Talvez ele esteja tendo um dia de cabelo ruim. Viktor deixa ele em sua contemplação, já que obviamente não tá aqui pra conversa. Então, ele pega o papelzinho que Jayce deixou na mesa e dá uma lida. Ele obviamente não vai ligar pra um pouquinho de interesse acadêmico, sendo tão descuidado com suas coisas.
A letra é quase ilegível. Viktor cerra os olhos na penumbra, virando o papel para um lado, e para o outro.
Tudo vem muito rápido. As peças clicam em seus lugares, ou melhor, fora deles. Só no discurso de apresentação, Viktor enxerga o problema com o reator nuclear que alimenta o motor. Precisa de mais células de combustível, não menos. Se o reator fizesse ciclos, daria tempo para cada célula esfriar e não sobrecarregar o sistema. Ele se lembra vagamente de uma exposição de ciências, de Heimerdinger sugerindo que ele participasse, de não ter algo original para mostrar. Ninguém quer ouvir teorias astrofísicas e não poder enxergá-las. Ele ouviu um barulho alto antes—ele achou que algum dos assistentes tinha deixado algo cair ou algo do tipo. Jayce deve ter tentado ligar o motor na exposição, e deve ter feito uma sujeira. Urânio sempre faz.
Viktor está tão fundo em seu escrutínio das anotações, que quase não percebe Jayce Talis tentando se jogar da fenda do telescópio.
Que dramático.
De todas as pessoas no campus, Viktor é a última que deveria lidar com isso. Ele decide que assistir a Jayce se matar só vai criar mais problema pra ele. Ele preferiria ficar fora do jornal da universidade. Provavelmente diriam que Viktor empurrou ele.
Ele suspira e pigarreia, “Tô atrapalhando?”
Depois de trancar Jayce pra fora com sucesso, ele retorna à postura ponderadora. Mas não é astrofísica em sua mente dessa vez.
Jayce não tem nada a ver com o que ele esperava. O homem nos vídeos é poderoso e seguro de si. O que estava em sua frente estava derrotado e destruído. Talvez ele seja tão egocêntrico quanto Viktor pensava, mas de um jeito charmoso, alcançável. Ele claramente se importa demais consigo mesmo só porque liga tanto pro seu projeto que deixaria ele matá-lo. É uma qualidade intrigante, sobrepondo-se com a curva idealista de suas anotações.
Em outra vida, Viktor poderia ter tentado seguir Jayce além da porta.
Nessa vida, a solução para o reator pulsa em sua cabeça. Ele não queria piorar o estado de Jayce, então não tocou no assunto do motor ou da explosão, que claramente tinham algo a ver com o estado das roupas dele. Mas talvez…
Viktor não sabe o quê. Jayce é o tipo de pessoa que ganha o mundo com um sorriso. O tipo que veste sua runa com orgulho porque ninguém duvidaria de suas intenções. O que ele viu foi um momento pessoal, vulnerável. Jayce provavelmente não vai querer ter nada a ver com ele depois disso.
Mas o coitado do reator. Não teve chance de alcançar seu potencial. O design é esperto, só não exatamente certo. Tipo um certo assistente de astronomia. Viktor não consegue acreditar que tá se identificando com uma peça de maquinário. O dia de hoje finalmente o arrastou até o limite da sensatez.
Melhor aproveitar e já pular dele.
Antes de perder a coragem, ele abre seu notebook, navega até o formulário da competição de ciências, e coloca seu nome ao lado do de Jayce. A proposta é vaga. Eles podem resolver os detalhes depois.
Ele aperta Enviar. E começa a fazer o rascunho da nova fórmula.
—
“Estamos muito empolgados com sua participação no Projeto Colaborativo de Piltover. Você sempre dá um show, Sr. Talis.”
“Hã, obrigado?”
Presidenta Kiramman se afasta então, seus saltos estalando nos pisos de mármore no corredor do salão. Jayce encara além dela, estupefato. É óbvio que ela ainda está brava que sua filha quase foi eliminada pelo motor dele. Ele sente por isso muitíssimo, até agora. Mas não é isso que está incomodando ele.
Sua participação no Projeto Colaborativo de Piltover? Quando que ele fez isso?
“Legal,” diz Caitlyn, “É bom que você esteja voltando à ativa. Eu e a Vi estamos pensando em entrar também.”
Ela cora levemente. Jayce acha fofinho que a inabalável Caitlyn fica toda boba por causa da Vi. Ou acharia. Se fizesse alguma ideia do que desgraça tá acontecendo.
“É alguma coisa de pontuação extra?” ele se pergunta, “Algum dos meus professores deve ter me cadastrado.”
Ela balança a cabeça, “Não, é voluntário. Você tem que ter uma proposta, então é meio obrigatório que você se inscreva.”
Jayce franze o cenho. “Mas eu não escrevi proposta nenhuma…”
“Dá uma olhada no site, talvez? Daí você olha a lista. Talvez seja erro de digitação.”
Jayce está com a página aberta no celular antes que ela termine a frase. Leva alguns cliques até a lista de propostas.
Ali, em letra escura, está seu nome. Ao lado do de Viktor. E outro reator nuclear. Jayce grunhe e cobre o rosto com a mão.
“Que foi? Te colocaram com a Jinx? Aposto que ela virou fã sua, depois da semana passada,” Caitlyn brinca. Ainda dói um pouquinho. Ele tenta deixar a vergonha sufocante passar por ele e voar bem longe.
“Tenho que ir,” Jayce diz, começando a ir até a porta.
“Quê? A gente ia almoçar junto!”
“Desculpa, Cait. Eu compenso, juro. Eu tenho que encontrar um estudante de astronomia, aparentemente.”
Sem esperar por sua resposta, com certeza composta de um interrogatório que ele não está pronto para responder, Jayce marcha até o setor de astronomia.
Ele acaba num grupo de escritóriozinhos desgastados com vista para as calçadas depois de perguntar a algumas pessoas onde Viktor está. A maioria olha meio estranho pra ele, mas apontam para o terceiro andar. Não mentiram. Aqui ele está.
Viktor está sentado em silêncio em sua mesa, cabeça inclinada para a tela de seu notebook. O sol morno da tarde ilumina seu cabelo com castanho-avermelhado. Seu perfil parece retirado de algum texto religioso, refinado e resoluto. Devastador. Mesmo com sua camisa e gravata amassadas. Mesmo nesse escritório feio.
Jayce não consegue recuperar o fôlego. Deve ser das escadas.
Eventualmente, ele se lembra por que veio.
“Você me inscreveu no projeto de colaboração?” Jayce diz da soleira da porta.
Viktor olha para ele, nem um pouco surpreso por encontrá-lo ali.
“Inscrevi.”
“Hã, por quê? Você não me conhece. E eu não tenho tempo pra outro projeto, muito menos outro desastre nuclear!”
Viktor balança um ombro. “Eu sei como consertar seu reator. É uma boa ideia, só precisava de uns ajustes.”
“Desde quando você sabe alguma coisa do meu motor?” Jayce adentra o escritório e fecha a porta atrás dele. Ele não gostaria de atrapalhar o trabalho dos outros por estar sendo atormentado por um dos assistentes.
“Na verdade não sei, ainda não. Mas quando você me der os detalhes do design eu posso te mostrar como rodar o reator sem obliterar a cidade.”
Jayce tá um pouquinho ofendido. Não, ele tá ofendido com o negócio inteiro.
“Por que eu te daria detalhes? Eu não te conheço, nem sei o que você faz. Você pode usar pra fazer sei lá o quê!”
Com um sorrisinho de esguelha, Viktor se levanta. Ele se apoia na mesa, de início, e depois vai diretamente até Jayce. Ele é esguio e uma cabeça menor, mas não está intimidado por Jayce. Jayce não sabe se está tentando ser intimidador. Ele só tá tentando descobrir que porra tá acontecendo.
“Permita-me esclarecer a situação atual,” Viktor começa. Suas palavras são leves, concisas, e cortantes.
“Por favor,” Jayce gesticula para que ele prossiga.
“Você acabou de ter um acidente bastante público com seu reator. Eu sei como consertar ele e fazer funcionar como deve. Que significa que tudo que você disse no seu discurso ainda é verdade. Viagem espacial, interplanetária, você ainda pode entregar. Tem dez meses até a competição. Bastante tempo pra cuidar dos detalhes até lá.”
Jayce abre a boca, mas o outro continua, “Talvez você esteja pensando, ‘por que você só não rouba meu trabalho, Viktor? Por que você não experimenta física nuclear se tá tão confiante assim?’ Primeiro, não sou engenheiro,” Viktor fala com as mãos, apontando para Jayce, para si mesmo e o notebook. Está aberto em um artigo sobre aplicações da energia nuclear. “Você já tem as coisas pra fabricação, e a habilidade técnica pra fazer o que eu tô sugerindo. É perda de tempo roubar seu trabalho pra achar outro engenheiro, que só vai errar em coisas que você já resolveu há tempo.”
“E segundo?” Jayce pergunta desconfiado.
Viktor dá de ombros, autodepreciativo, “Você é popular. Ninguém quer ouvir o que eu tenho pra falar fora desse departamento. A gente tem uma chance de impulsionar o progresso científico de verdade se bastante gente olhar, e já que funciona–vai funcionar–esse ainda é seu projeto, eu só queria ajudar.”
“Legal isso e tudo mais, mas ainda bem estranho. Você podia ter perguntado.”
Viktor gargalha, só uma vez, “Você quer que eu seja normal, ou quer que eu seja um cientista? É melhor desse jeito. A gente pode pular o papo todo de fazer ou não fazer. Se a gente pedisse permissão pra fazer tudo, ia se afogar em burocracia e nada ia ser feito. Agora dá uma olhada aqui.”
Algo é infeccioso na atitude de Viktor. Ele é a pessoa mais desenvolta que Jayce já viu. Ele não está acostumado a ter tão pouca cerimônia com suas ideias. A explosão de seu motor semana passada foi a pior coisa que já aconteceu com ele—não tem chance dele chegar perto de física nuclear outra vez. Parece meio errado continuar dando corda pro Viktor com essa conversa. Ele se encontra indo para a frente para olhar o que tem nos papéis jogados ao lado do laptop mesmo assim.
E então está agarrando as folhas e sentando rápido na cadeira.
É incrível.
Os grupos de cálculos de Viktor são ordenados, metódicos, e brilhantes. Jayce folheia-os. Outra vez. Sua mente acelera.
O resto do mundo despenca bem longe.
Ele quase consegue ver em sua frente; os ajustes na célula de combustível, a estrutura reforçada para aguentar o fluxo aumentado. Ele consegue sentir o calor enquanto forja. Mas ele não se sente só nessa concepção. Viktor foi bem maior e mais ousado que Jayce teria arriscado ser— haveria força o bastante para sair da atmosfera. Jayce teve a inspiração, mas Viktor fará se tornar realidade.
“Essas são, claro, estimativas. Eu nunca cheguei a ver seu reator,” ele explica.
“Não, não, isso é inacreditável, Viktor. Eu nunca teria pensado… mas você… e depois, tipo… não dá pra acreditar mesmo.” Ele arranca os olhos das fórmulas para encontrar Viktor encarando-o atentamente como se esperasse por algo. Verdade. Jayce veio pra fazer uma coisa. Agora ele vai fazer o contrário. “Eu topo. Faço o projeto com você. Vou ter que trancar uma matéria, mas se isso funcionar, foda-se eu me formar ou não. É isso aqui. Isso foi o meu objetivo desde o começo.”
Ele se levanta e estende uma mão.
Viktor ergue uma sobrancelha, “Tem certeza disso? É uma ideia perigosa. Nós dois vamos nos meter em confusão.”
“Não me deixa no vácuo aqui, cara,” ele implora.
Viktor aperta sua mão. Uma vez, sobe e desce. Os olhos dele pulam para o seu lado direito antes de soltar. Um pulso elétrico viaja de sua mão até seu peito. Faz que ele se sinta acordado como não esteve a semana toda. Ele está de volta. E não sozinho dessa vez.
Eles soltam o aperto de mão. Há um momento breve de silêncio.
A risada aliviada de Jayce o quebra, “Então, acho que a gente pode começar. Vou sair da minha aula à noite pra ficar livre depois das quatro da tarde todo dia. Eu tenho um laboratório pessoal por causa da bolsa honorária de catalisador. A gente pode se encontrar lá. Funciona pra você?”
A maneira que Viktor olha pra ele, com sua atenção completa, faz suas bochechas esquentarem um pouco. Ele está acostumado com os olhares dos outros. Mas não o de Viktor. O dele é tão presente, tão focado, que parece que ele está olhando diretamente o cérebro dele. Faz sua garganta apertar. E seu coração acelerar. E suas mãos começam a suar um pouquinho.
Viktor acena com a cabeça.
“O horário tá bom. Te vejo amanhã. Parceiro.”
Nenhuma palavra soou tão certa assim na história.
Notes:
notas autorais:
Quando duas ideias diferentes se amam muito, elas colocam uma vírgula ao invés de um ponto gramaticalmente correto e fazem uma oração errada. Quem sou eu pra me meter no amor delas?
Chapter 4: Cinza Platina
Notes:
notas autorais:
Super curto, mas aqui alguns personagens!
Nessa fic, a Powder já é a Jinx. Vou deixar a exploração detalhada do trauma e distúrbio mental dela pra uma fic com um pouco mais de espaço.
Vambora!
Chapter Text
“Então você só vai participar, mesmo?”
“É, basicamente. Os cálculos dele são tão bons, Cait. Tipo, bem melhores que os meus. Parece que ele viu exatamente o que eu tava tentando fazer e me mostrou como.”
Caitlyn olha ceticista para ele, mas diz, “Então tá. Te vejo na linha de chegada.”
Eles estão sentados na mesa habitual no saguão de engenharia. É um cômodo largo com vista para o chafariz central do campus. Estudantes correm abaixo deles. O edifício de engenharia é composto de vidro pós-moderno e cimento—essa sala, de sofás quadrados baixos e cadeiras ergonômicas.
Vi está à esquerda de Caitlyn, puxando e mexendo o trabalho de biomecânica delas. As duas estão um pouco mais próximas do que estritamente necessário, considerando o metro vazio de sofá em ambos os lados. Jayce não vai comentar.
Jinx estava com eles antes, mas acabou reparando num Ekko pegando um café no lado oposto do saguão e foi perguntar a ele se um googolplex é um número de verdade ou não. Ela nem cursa Matemática. Mas isso não a impede de discutir teorias que alguém com um PhD teria dificuldade em entender enquanto, simultaneamente, tenta roubar o queijo-quente de Ekko.
A única que falta é a Mel. Ela está numa conferência modelo das Nações Unidas hoje. Ela já tentou explicar pra ele o que eles fazem nelas, mas entra por um ouvido e sai pelo outro. Parece bastante falação. Ele fica até meio agradecido por ela não estar—Jayce está meio nervoso com a opinião dela sobre seu plano de tentar refazer o motor nuclear. É provável que ela ache estúpido. Ele odeia deixá-la decepcionada.
“O que vocês duas vão fazer?” ele pergunta, mudando de assunto.
O rosto de Caitlyn se ilumina, “Um algoritmo de análise forense com inteligência artificial.”
“Detetive robô,” Vi esclarece.
“Que massa,” Jayce diz, porque é.
Caitlyn sorri, “A gente não sabe exatamente como vamos treinar ele, mas tem bastante tempo até lá.”
“Quer que eu faça uma cena de crime?” Indaga Jinx, praticamente se materializando atrás do sofá. Caitlyn se retrai.
“Obrigada por oferecer, Powder,” diz Vi com sinceridade, a única que pode usar seu nome real, “A gente te avisa.”
“Como quiser,” ela dá de ombros. E logo está galopando de volta até a máquina de café. Se tem uma pessoa que definitivamente não precisa de mais cafeína, é ela. Jayce também não comenta. Ele não quer bombas de gambá escondidas na ventilação de seu quarto de novo.
Mesmo que goste bastante de seu grupinho, eles não são amigos por coincidência.
Mel, Vi, e Jinx são as únicas outras catalisadoras na universidade. É um número simultâneo histórico, até pra Piltover. Eles foram jogados em tantos jantares comemorativos e cerimônias honorárias que acabaram se aproximando. Sua amiga de infância, Caitlyn, se deu bem com a Mel por suas sensibilidades de classe-alta, e com a Vi por seus crushes imediatos uma na outra. Jinx ainda está se acostumando com ela. Mesmo que três anos geralmente bastem pra se acostumar.
Às vezes eles são um equilíbrio difícil de alcançar.
Vi e Jinx são irmãs catalisadoras. Isso pode ter acontecido talvez uma outra vez no curso da história da humanidade. Elas não foram descobertas até poucos anos atrás, já que seu pai adotivo estava tentando escondê-las na Cidade Baixa. Aí, a Jinx se meteu em uns fogos de artifício, e causou um deslizamento de terra que fechou a fábrica de metalurgia de Piltover por três meses. Não tinha muito o que esconder depois disso.
Não é fácil pra elas. Tem muito ressentimento e conflito que vem com crescer nos holofotes. A Vi é agradável e simpática o bastante para as duas delas, porque ela tem que ser. Jayce sabe que ela está tão estressada quanto ele, só com um pouco mais de resiliência e de estratégias pra lidar. Ela tem mais prática com cair e achar um jeito de continuar—enquanto ele tenta se jogar de um prédio assim que uma coisa não acontece como ele queria. Vi faz de se reerguer praticamente uma arte. Sempre que Jinx bate um carro ou pega suspensão, ela está lá pra buscá-la. Ela está lá pra convencer as pessoas que não é nada demais; e é bem difícil convencer alguém que qualquer coisa que um catalisador faz não é nada demais. Vi tenta de qualquer jeito.
Mel deixa as coisas mais fáceis para eles. Ela sempre está defendendo o melhor interesse do corpo estudantil, ou fazendo mais horas voluntárias que qualquer humanitário que tem respeito por si mesmo faria. Ajuda um pouco que ela é um prodígio em ciências políticas; ela é a conselheira municipal mais jovem na história de Piltover. Todo mundo sabe que ela vai pro Senado, mesmo só tendo vinte e dois anos.
Tudo que ela faz é para o benefício dos catalisadores. Jayce entende isso. É parte do motivo deles permanecerem juntos. Ele também simplesmente gosta dela, mesmo. Eles tem um código de ética parecido, e uma visão similar. Ela pensa, assim como ele, que é responsabilidade deles ser melhor do que todo mundo em tudo que fazem. Se eles não forem perfeitos, estão arriscando o destino da humanidade.
A única diferença é que ela faz isso bem.
A runa dela é um meio círculo seguindo a curva de sua clavícula. Ouro maciço. Ela a realça com joias douradas em suas orelhas, nariz, e pescoço. Ela brilha tanto que faz o resto deles brilharem dourado também.
Em contraste, a runa da Vi parece uma engrenagem mecânica, em preto carbono esguio. Jayce pensava que faria sentido que ela e a Jinx combinassem, considerando que são irmãs. Não combinam.
A runa da Jinx é uma série de feixes cinza-platina que se contorcem, quase lembrando uma nuvem de tempestade. É a runa mais complicada de todos eles—Jayce jura que consegue vê-la mudando todo dia. Ele gosta da Vi e gosta que a Caitlyn gosta da Vi, mas a Jinx deixa ele meio inquieto. Ela parece mais confortável em seu pior comportamento. Ele tem dificuldade em ver como ela seria uma catalisadora de algo bom, quando ela se diverte tanto dando jumpscares em grupos de visitantes na universidade, e derrubando esculturas de gelo em eventos formais. Ele não tem direito de julgar; ele cometeu alguns erros também. Talvez ela surpreenda a todos.
“Você tem certeza que tá preparado pra voltar pro motor?” Caitlyn pergunta, puxando-o de volta ao presente, “Você não tava super bem semana passada. Só quero garantir que você não tá fazendo algo que vai te machucar mais.”
Jayce suspira, “Não. Não vou estar preparado pra tentar de novo nunca. Mas acho que vai ser melhor com o Viktor. Ele é um pouco mais realista—tem ideias muito boas. Você pode conhecer ele se quiser.”
“Eu adoraria,” Caitlyn checa as horas, “mas hoje não. Preciso ir pro treinamento.”
Como condição de ir à faculdade sob a insistência de sua mãe, Caitlyn tem treinado com a polícia do campus. Se fosse do seu jeito, ela iria direto pro alistamento. Se fosse do jeito da Presidenta Kiramman, ela iria direto pra faculdade de Direito.
Mas, isso lembra ele.
“Porra, preciso ir também. Até amanhã?”
Vi acena com a cabeça, Caitlyn dá tchau com a mão, e Jayce pega suas coisas e chega atrasado no próprio laboratório.
Viktor já está esperando do lado de fora quando ele fecha a distância. O cara só está corcunda contra a parede lendo um caderno, e Jayce de repente sente que precisa de assistência médica. Jesus, ele precisa fazer mais cardio na academia mesmo.
“Desculpa,” Jayce arfa enquanto desacelera.
“Não corre por minha causa,” Viktor abaixa uma mão, “preciso do meu mecânico ileso.”
Jayce sorri, agradecido. “Há, verdade. Mecânico se apresentando para o serviço.”
Ele gira a chave na porta e os dois entram.
Seu laboratório não é tudo isso. Ele tem alguns computadores com monitores duplos. Daí a impressora 3D e o conjunto de solda. Tem um espaço de teste revestido de chumbo para prevenir contaminação radioativa, algumas coisas pra fabricação. Sinceramente, a melhor parte são as janelas enormes do outro lado do espaço. Do chão até o teto, dá uma bela vista para o pátio de Engenharia. Quase dá a sensação que ele está ao ar livre.
“Isso tudo é seu?” Viktor diz incrédulo. Seus olhos pulam pela sala; nessa iluminação, parecem âmbar morno. Jayce fica tão preso neles que quase esquece a pergunta.
“Ah, hã, não. Faz parte do honorário de catalisador. Foi tipo, doado pra mim, mas quando eu terminar eles pegam de volta,” ele explica.
“Basicamente é seu, então.”
“Beleza, se você diz. Mas não é tudo de graça. Quando meu evento acontecer, Piltover pega os créditos pela minha educação. Tipo pré-propaganda. Por isso eles ficam passando aqueles vídeos chatos meus toda hora.”
“Que horrível pra você,” Viktor diz sarcástico.
Jayce afaga a nuca, “Assim, eu sempre posso criar a próxima super-arma sem querer, e fazer tão radioativa que eles não vão querer saber de mim. Sem brincadeira.”
Viktor encontra seus olhos e sorri, “Você tem uma boa ideia aí. Vamos deixar isso como plano B.”
Jayce adora o som de ‘vamos.’ Viktor podia estar dizendo ‘vamos cometer homicídio veicular’ e ele estaria lá abrindo a porta do carro pra ele entrar. É só tão bom não estar mais sozinho no seu trabalho.
Verdade. Trabalho.
Voltando.
“Deixa eu te mandar meus rascunhos e os detalhes até agora,” ele desliza sua jaqueta e os olhos de Viktor se demoram em seu braço. Ele checa discretamente a própria axila, mas não vê mancha. Talvez Viktor só esteja distraído. “Vai demorar um pouco até eu poder fabricar de novo, já que a maioria do material, né, explodiu.”
Viktor acena, “Tudo bem. De qualquer forma, temos que confirmar que as dimensões estão perfeitas antes de começar a elaborar. É literalmente ciência aeroespacial.”
Ele se inclina acima do ombro de Jayce para ver a tela. Ele tem cheiro de papel morno e chá medicinal. Jayce tem que se impedir, conscientemente, de respirar mais forte que nem um pirado. Ele se sente escorregar em território desconhecido a cada segundo que Viktor passa em seu espaço.
Ele manda as especificações. O celular de Viktor vibra em seu bolso passado um instante.
“Então…” Jayce diz, “Onde a gente começa?”
A título de resposta, Viktor caminha até a lousa na lateral da sala. Mesmo que tenha parecido surpreso com a quantidade de equipamento no laboratório, ele parece afrouxar em outro modo, com foco confortável na ciência. Ele escreve um número familiar. É a distância que Jayce escolhera, arbitrariamente, para calcular a aceleração necessária para uma viagem da Terra ao espaço.
A distância até a lua e de volta.
Viktor finaliza a medida com um floreio.
“Vamos começar do começo.”
Chapter 5: Onda Oxigenada
Chapter Text
Dois meses se passam como folhas num rio.
Viktor encontra o tempo voando como não tinha desde que era pequeno. Tem tanta coisa pra fazer e pouco tempo pra tudo. Ele começa o dia com as irritações habituais. Seus alunos são, em sua maioria, imbecis; seus colegas, ineptos; e sua perna dói no percurso entre as aulas.
E então entardece.
Ele e Jayce tombam no laboratório com os dias corridos, instalando-se juntos como sementes encontrando solo. Discutem as complexidades de aceleração gravitacional enquanto comem delivery. Resolvem fórmulas confusas na lousa, costurando braço sobre braço como uma coreografia decorada. Esboçam modelos numéricos nos muitos computadores, inclinando-se sobre os ombros um do outro como uma criatura de duas cabeças.
Viktor ainda não consegue acreditar na abundância do laboratório dele. Jayce parece ficar com mais vergonha a cada vez que Viktor menciona isso. A parte favorita dele é quando Jayce dá a desculpinha de pobre catalisador dele, pra justificar ter milhões em equipamento no laboratório particular. É alta sátira escutar Jayce esculpido-em-mármore reclamando sobre quão difícil é ser catalisador. Viktor ainda tenta tranquilizá-lo, mas na maior parte do tempo não consegue parar de rir. Jayce não parece levar pro pessoal. Ele é gracioso assim de verdade.
Eles passam todo fim de tarde abaixados em rascunhos e rascunhos. O céu fica alaranjado cada dia mais cedo, até que já esteja escuro quando eles chegam. Eles atravessam a noite processando números com teimosia e jogando papel fora no lixo do outro lado da sala. Jayce sempre acerta de primeira.
Existem relances da incerteza de Jayce de vez em quando. Às vezes ele pensa duas vezes e rasga uma comprovação totalmente funcional. Às vezes ele sai correndo pra uma caminhada, uma hora da manhã, pra limpar a cabeça. Viktor percebe que tem muitas outras vozes ali dentro. Mas ele sempre volta. Ele volta, e sorri, e diz a Viktor que tá muito animado pra se aposentar aos noventa. Em resposta, ele geralmente diz que deveriam se aposentar já e começar a carreira de agiota.
O dia de hoje tá mais ou menos assim.
Jayce desaba de volta na cadeira, bochechas vermelhas de frio.
“Tô muito animado pra me aposentar com noventa anos. Vou colocar flamingos na frente de casa. Combina, sabe?”
Eles estavam dando uma olhada no problema da radiação hoje. Com mais células de combustível, mais radiação sairá do reator, então o revestimento do motor terá que ser mais pesado, o que reduz a força resultante. Eles já tiveram que reconfigurar os ímãs duas vezes. Tem sido uma noite, no mínimo, estressante.
Viktor engole o resto de seu chá verde. No laboratório do Jayce, tem uma dessas máquinas de café de cápsula. Ele fantasia roubá-la em nome do departamento de astronomia, que bebe café em máquinas quase tão velhas quanto o prédio. Fica um gostinho de amianto se você usa elas. A máquina de Jayce tem gosto de precisão. Ou sei lá. Viktor tá bem cansado.
“A gente podia se aposentar já,” Viktor oferece, “parece que contar cartas tá muito em alta hoje em dia. Você só tem que me ajudar a fugir dos seguranças do cassino.”
Jayce grunhe, “Análise de dados, versão ilegal? Só me leva pra trás do balcão de química e me dá um tiro, valeu.”
“Você não teria que compilar o orçamento de urânio pra Presidenta Kiramman se eu te neutralizasse,” Viktor contempla. “Talvez seja a solução que a gente tava buscando. Sobra mais pro resto.”
A cabeça de Jayce dispara pra cima, “Quê?”
“Perdão. Foi uma piada. Não é muito sensível da minha parte já que–”
“Não, não, eu entendi, mas o que você disse?”
“Sobra mais pro resto?”
Jayce pula de pé, caminhando na frente da lousa com os cálculos rabiscados. Ele pega um canetão e começa a desenhar no canto. No início, é só um monte de linhas–e daí começa a tomar a forma da seção cruzada do reator.
“A gente tá vendo isso do jeito errado,” Jayce diz, “não é quão grossa é a proteção, é como a gente arruma ela. A gente cobriu cada uma individualmente. Mas se a gente cobrir várias de uma vez–”
“É menos área na superfície,” Viktor conclui.
“Exatamente! Parece que a gente teria que aumentar a camada protetora,” Jayce começa a escrever os cálculos bem no topo da lousa, acima da cursiva redonda de Viktor, “mas na verdade seria menos centímetros cúbicos de cobertura.”
“Como que a gente preveniria fusão?”
“Grupos de três. A gente já tava planejando fazer o ciclo assim mesmo. É a combinação perfeita.”
Quando Jayce termina de escrever, Viktor tem que admitir que é realmente perfeito. O equilíbrio entre peso e proteção é ótimo.
“A gente começa a ajustar agora, ou–”
Jayce balança a cabeça. “Nah, vamos fechar bem, por hoje. O trabalho vai estar aqui amanhã. Já tá tarde.”
Viktor olha a hora no computador. Três e quarenta e cinco da manhã. A aula de física dele às nove vai ser insuportável. Ele se pergunta quanto tempo duraria, caso se demitisse como assistente. Heimerdinger provavelmente entenderia se fosse pela busca de descobertas científicas. O setor financeiro, provavelmente não.
“Quer ir comer alguma coisa?” pergunta Jayce, “Acho que a gente tem que celebrar isso. A gente não tem um avanço desses faz tipo, duas semanas.”
Ele roda e roda em sua cadeira. É óbvio que está exausto. Seus movimentos são frouxos, os olhos vidrados. A coisa inteligente a se fazer é se separar, cada um ir pro seu canto e tentar dormir.
Mas aí hoje acabaria.
Jayce pertence ao resto do mundo amanhã.
Então Viktor diz, “No que você tava pensando?”
É assim que eles acabam num buffet 24 horas perto do campus. Um edifício grande, é cheio de mesas vazias e decoração eclética de todo e qualquer restaurante temático que já existiu. Tem uma estátua de cera de cowboy iluminada por um grupo de lanternas vermelhas de papel; uma tapeçaria, costurada ricamente com dourado e roxo, pendurada ao lado de um sombrero.
A comida é similarmente eclética. Viktor não se importa exatamente. Ele enche o prato com algumas coisas que ele confia que não dariam dor de barriga e senta em uma das mesas com Jayce. Os dois pratos do outro estão empilhados com um pouco de tudo. É impossível que sorvete de chocolate combine com empanadas, com certeza. Jayce devora contentemente mesmo assim.
Eles se dão bem em silêncio. Viktor sente a necessidade de preenchê-lo mesmo assim. É isso que as pessoas fazem no jantar, não é?
“Tem planos pro fim de semana?”
É uma piada interna dos dois. Eles também passam o fim de semana todo no laboratório. O tempo só é interrompido pelas visitas de Jayce à academia e as de Viktor à cafeteria do primeiro andar por um sanduíche amanhecido pra espantar a fome. Eles nunca tem planos.
Jayce sorri ao morder um cachorro-quente mal feito, “Vou passear de iate na praia no sábado, vou pra balada de noite, e fazer snowboarding no domingo. Talvez vou num show se tiver a fim. E você?”
Viktor sorri de volta, “Ah, sei lá. Vou pra nova exposição na galeria de arte e ver uma ópera, com certeza. Talvez eu vá dançar salsa de noite.”
Jayce solta uma gargalhada.
“Eu pagaria dinheiro de verdade pra ver isso.”
“Esses quadris aqui não mentem.”
Viktor faz uma dancinha com os ombros, seriamente, pra encravar o ponto. Jayce ri mais ainda, batendo um punho na mesa. Tudo parece lento e distante pra Viktor. Ele tá tão cansado. Ele tá totalmente acordado.
“Você pensa nisso?” Jayce se pergunta, “Como seria a nossa vida se não fosse a busca pela ciência e etcetera e tal?”
O clima abafa imediatamente para Viktor. Ele tenta não descer por esse beco escuro na mente dele. Jayce não precisa saber disso.
“Não muito legal,” ele diz no lugar, “imagino que envolveria improvisar canivete com escova de dente.”
Jayce abana uma mão, “Pffft, até parece que você ia ser preso. Você tomaria cuidado demais. Aposto que você seria um gênio malvado mafioso ou sei lá.”
Viktor sabe que é brincadeira, ele sabe. Ainda chega muito perto e encrava muito fundo. Se não fosse por Heimerdinger encontrando-o, ele provavelmente seria sugado pra produção de drogas em algum porão na Cidade Baixa. Ele sempre soube que conseguiria se tivesse. Ele fez tudo que pôde pra não ter que fazer. Em algum ponto, ele teria que escolher entre ética e sobrevivência.
Sobrevivência sempre ganha.
Jayce não sabe nada disso.
““E você? Sem universidade, sem runa catalisadora. O que você seria?”
“Puts, sem runa?” Ele passa uma mão pelo topo do peito. O metal brilha prateado entre os botões abertos de sua camisa branca. “Aposto que eu seria um vendedor de carro baita ruim ou sei lá. A pior comissão do mundo.”
“Você seria um ótimo vendedor de carro, você é muito bonito pra não conseguir.”
Jayce olha estranho pra ele, quase tímido, “Você me acha bonito?”
Viktor revira os olhos pra disfarçar, “Óbvio. É um fato científico. O céu é azul, Jayce Talis é atraente. Não teve um artigo no jornal da escola sobre os top 10 solteiros no campus? Creio que me lembro do seu rosto estampando a capa daquela edição.”
“Que vexame foi aquilo,” Jayce grunhe, “juro que a Vi me chamou de Sr. Solteirão o terceiro semestre todinho.”
“Você tem mesmo um certo ar de ex-BBB infeliz quando faz aqueles anúncios.”
“Ô!” Jayce protesta, “Nada a ver! Gente gostosa também tem problemas.”
“Você tá dizendo que eu não entenderia problemas de gente gostosa?” Viktor brinca, “Só pra você saber, esse look de aluno anêmico desgrenhado levou anos pra aperfeiçoar.”
Os olhos de Jayce arregalam, “Não! Não foi isso que eu quis dizer! Não é–você é, tipo–”
Viktor tira ele de sua miséria. “Não infarta, Sr. Solteirão. Na minha opinião, você teria sido um personal trainer com uma clientela de mulheres de sessenta anos que usam batom na academia.”
Jayce dá de ombros, “Parece ser melhor que vender carro. Aposto que você seria daqueles que leem livros no elíptico.”
Viktor não aponta o fato que ele nem consegue usar um elíptico. Isso tá tão legal.
A caminhada de volta para a residência estudantil do campus é curta, mas tem uma certa sensação, como se de um sonho. As estrelas desvanecem aos poucos no amanhecer lilás acima. A respiração dos dois faz vapor no ar. Viktor não tem certeza do que eles estão falando; ele só sabe que Jayce está acompanhando o ritmo dele sem traço de impaciência, e falando alguma coisa sobre poluição luminosa. As mãos dele estão em seus bolsos da jaqueta cotelê. Ele não cobre a ruta catalisadora, mesmo no frio.
Viktor não sabe se é coragem ou só burrice.
Algo na frente deles rouba a atenção de Jayce quando estão quase chegando. Ele aperta os olhos, e acena. Viktor segue seu fitar até uma mulher. Ela está correndo na direção deles, vestida em roupas de academia brancas, delineadas de ouro refletivo.
“Mel! E aí?” Jayce diz conforme ela os alcança.
Tirando os fones, ela sorri belamente, “Tudo certo, começando o dia com uma corrida matinal. O que você tá fazendo a essa hora da manhã?” Ela parece perceber Viktor e estende uma mão, “Prazer em conhecer. Mel Medarda.”
Claro. Ele deveria ter adivinhado pela runa dourada contrastando com sua pele de mogno. Ela é tão linda pessoalmente quanto nos pôsteres do conselho estudantil, talvez mais ainda, já que ela é real. Mas que irritante.
“Viktor,” ele diz, e aperta a mão dela educadamente.
“Pois é, vocês não se conheciam ainda. Loucura que vocês nunca se esbarraram e eu passo um tempão com vocês dois,” Jayce tagarela, “Tava só voltando do laboratório. Baita descoberta! A gente tá bem feliz.”
O ‘a gente’ faz os espinhos de Viktor abaixarem um pouco. Isso mesmo. Não importa com quanta fome Mel observe Jayce agora, não é com ela que ele passou a noite. Mesmo que configurar a saída de meia-vida de radiação provavelmente não seja o que ela gostaria de fazer com ele.
“Que boa notícia.” Mel tem uma maneira distinta com que escolhe as palavras. Irrita um pouco as orelhas de Viktor, por motivo nenhum, tirando o fato de que ele foi criado pra desconfiar de políticos.
“Pois é, vai ser demais,” Jayce diz animadamente, “Mas não deixa a gente interromper sua corrida. Preciso devolver esse pirado aqui antes que ele descubra os mistérios do universo.”
Jayce desliza um braço rapidamente em volta dos ombros de Viktor enquanto fala. Viktor faz uma saudação, sarcasticamente. Ele mesmo. Totalmente pirado.
Mel aperta os olhos, só por uma fração de segundo. Uma sensação estranha de gratificação passa por Viktor, ao notar que o comportamento amigável de Jayce com ele incomoda tanto quanto seu olhar possessivo incomoda Viktor.
“Claro que não,” ela dá alguns passos, e daí coloca a mão sobre o ombro de Jayce como se lembrasse então de algo, “Nosso almoço hoje tá confirmado? Você deve estar muito ocupado com a descoberta e tal.”
“Aham, confirmado,” diz Jayce em concordância.
“Beleza. Até depois. Viktor, prazer em conhecer.”
“Igualmente.”
E então ela coloca seus fones e se vai na luz do amanhecer.
“Ela não é incrível?” suspira Jayce.”
“Fenomenal.”
Jayce está ou muito cansado pra ouvir o sarcasmo ou é muito gentil pra fazer perguntas. O pior de tudo é que, objetivamente, a Mel é incrível. Pelo que Viktor sabe da presidente do grêmio estudantil, ela se articula bem e é generosa. Ela claramente apoia os outros e é, sem dúvidas, uma ótima amiga. Ele não tem motivo pra não gostar dela.
Mas.
O jeito que ela olha pra Jayce, mesmo naquela curta interação, é o mesmo jeito que Jayce tava olhando pras empanadas com sorvete antes. Ela só tá temperando ele, do gosto dela, pra devorá-lo depois. Se Viktor não conhecesse Jayce, ele não ligaria. Bom pra eles. Que prole perfeitamente fabricada que eles teriam.
Mas.
O braço de Jayce ainda está ao redor de seus ombros. Ele está tentando ao máximo lembrar qual é o prédio de Viktor, mordiscando o lábio inferior adoravelmente. Jayce está com o nascer-do-sol em seus olhos e o brilho das estrelas em sua runa.
Jayce parece, a cada dia, ser mais da conta dele.
Viktor franze o cenho para si. Não tem como isso acabar bem pra ele. Ele sempre se deu melhor sozinho.
Eventualmente, ele diz para Jayce qual é o edifício. Eles se despedem do lado de fora. Jayce retira seu braço dos ombros de Viktor com uma risada envergonhada. Viktor não se permite observá-lo indo embora.
Ele tateia suas chaves com as mãos trêmulas. Diz a si mesmo que vai se importar menos quando dormir um pouco.
Ele sabe que não é verdade.
