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here comes santa claus

Summary:

Onde Fit, após um pedido desesperado de Tubbo, decide se candidatar para ser o Papai Noel de um evento de Natal da ilha, sem esperar que seus sentimentos em relação a um dos responsáveis pela decoração viriam à tona, e ainda mais fortes do que antes.

Notes:

olá comunidade hideduo :D

acho que eu to meio sem palavras porque esse plot fez aniversário de um ano no mês passado, bem perto do dia que eu terminei completamente o primeiro capítulo. um ano !!! e eu sei que a quantidade de capítulos não é nem muita, mas eu to muito orgulhosa, e ao mesmo tempo muito surpresa pq vai ser a minha primeira. eu repito PRIMEIRA !!! longfic terminada, e é hideduo. e, ao mesmo tempo, provavelmente vai ser a minha penúltima fanfic sobre hideduo (porque eu ainda vou postar mais uma surpresinha no final desse ano ♡)

maaas eu ainda tenho outros plots com eles que são ideias que eu amo demais e tenho muito apego, só não tenho certeza se vou realmente terminar. sabem como é, nunca vai ser um adeus, sempre é um até logo

e, por fim, gostaria de agradecer a todos que me apoiaram enquanto eu tava me matando pra terminar e traduzir 🥹 obrigada luna, nils, bonnie, mandy, lua, vitoria, charlie, vocês todos são muito importantes pra mim e eu quero agradecer demais o apoio que vocês me deram amo vcs de paixão

enfim, boa leitura, e espero que esses 1 ano tenham valido alguma coisa!

Chapter 1: right down santa claus lane!

Chapter Text

Flocos de neve caíam preguiçosos no quintal, acumulando-se nas calçadas cinzentas de concreto, nas bordas do telhado e nos galhos secos das árvores que balançavam sob o peso da neve, conforme os pequenos cristais se acumulavam aos montes. Os pequenos cristais de neve faziam com que todo o cenário ficasse coberto pela neve espessa, branca e gelada, e parecia deslumbrante, como aqueles cenários que se vêem nos cartões postais.

 

No interior da casa, a luz quente das lâmpadas contrastava com o brilho azul gélido e álgido do lado de fora, refletindo nos enfeites metálicos. Alguns eram prateados, outros verdes e vermelhos, mas todos se encontravam espalhados pelas prateleiras e paredes. Uma música natalina suave tocava baixinho ao fundo em um rádio antigo, a melodia interrompida ocasionalmente pelo som do vento uivando do lado de fora.

 

Fit estava de pé sobre um pequeno banco de madeira, ajustando as luzes que serpenteavam ao redor de um pinheiro artificial no canto da sala. Seus dedos firmes mexiam nos fios com cuidado, franzindo o cenho sempre que uma das pequenas luzes parecia estar fora do lugar. O cheiro de pinho — artificial, mas ainda reconfortante — misturava-se ao aroma do chocolate quente que ele havia esquecido na mesa de centro.

 

Ele logo desceu e deu um passo para trás, cruzando os braços enquanto avaliava o resultado. Estava quase perfeito, mas ainda faltava algo. Talvez uma estrela maior no topo.

 

Ramón teria opiniões sobre isso, com toda certeza, mas Fit queria que toda a decoração fosse uma surpresa. Era por esse motivo que o garoto estava na casa de Tubbo naquela tarde — a essa altura, muito provavelmente debaixo de cobertores quentes, assistindo àquele filme de Natal da Barbie que a Sunny tanto gosta.

 

 

Distraído observando a decoração do pinheiro, Fit se encontrou analisando minuciosamente se qualquer luz ou enfeite estava fora do lugar, até que o ruído do seu celular vibrando no bolso do casaco pendurado na cadeira próxima interrompeu seus pensamentos.

 

Ele então suspirou, limpando as mãos nas calças antes de pegar o aparelho, já esperando que não fosse uma urgência com as crianças. Quando a tela se iluminou, o contato de Tubbo — com um emoji de coração verde, mas não foi Fit quem colocou isso ali — apareceu na tela. Ele hesitou por um segundo antes de atender, colocando o telefone em cima da mesa e no viva-voz, para continuar mexendo na decoração.

 

“Tubbo?”, Fit chamou, puxando um laço vermelho com cuidado para não desfiá-lo enquanto o prendia acima da última lâmpada de uma fileira piscante no alto da árvore.

 

“Fit! Ainda bem que você atendeu.”, Depois de alguns segundos, a voz metálica de Tubbo surgiu do outro lado da linha, seu nervosismo transbordando através de suas palavras de uma maneira que fez Fit ficar preocupado. “Preciso que você me faça algo urgente.”

 

Fit então arqueou uma sobrancelha, a mão parando no meio do caminho, o laço suspenso entre os dedos. Ele ajeitou a postura, apoiando o peso em um pé enquanto inclinava levemente a cabeça para o lado. “Precisa que eu faça o quê? Aconteceu alguma coisa?”

 

O silêncio que se seguiu foi suficiente para que Fit franzisse o cenho, e ele precisou checar para ver se a ligação não havia caído, olhando por cima do ombro para ver se seu celular ainda estava ligado. “É… sobre o papai Noel do parque.”, Tubbo enfim prosseguiu, ainda hesitante.

 

A menção ao Papai Noel do parque fez Fit comprimir os lábios, um misto de ceticismo e curiosidade decorando as feições de seu rosto. Ele desceu do banco com cuidado, colocando a fita ao lado de seu chocolate quente há muito tempo esquecido, provavelmente já frio a essa altura.

 

Ele não sabia muito além do pouco que havia escutado de Philza e do próprio Tubbo. Algo como todos os anos o parque central da ilha faz atrações insanas de Natal, que são tão bonitas e brilhantes que fazem qualquer um ficar boquiaberto — cortesia de Foolish, é claro, o principal construtor da cidade —, e como as decorações, igualmente deslumbrantes, são feitas por uma dupla de brasileiros.

 

Ah, ele também sabia que Pol — um fotógrafo conhecido, mas bem distante de Fit, com quem ele nunca conversou muito —, se voluntariava para ser o Papai Noel sempre, todos os anos. Não eram coisas que realmente lhe traziam interesse, porém, com uma cidade tão pequena, era difícil não saber.

 

“Certo”, Fit respondeu, enquanto puxava o banquinho para sentar-se, apoiando o cotovelo na mesa. “E o que houve? Você tá enrolando demais, não tô gostando disso.”

 

Mais silêncio. Fit tamborilava os dedos contra a madeira gasta da mesa — um hábito antigo que sempre vinha à tona quando o nervosismo se acumulava em seus pensamentos. Ele ainda podia ouvir a respiração de Tubbo do outro lado da linha, um pouco mais tensa que o normal, parecendo estar reunindo as palavras com cautela. Fit já sabia que o que vinha a seguir não era uma boa notícia.

 

“... O Pol não vai poder mais”, Tubbo finalmente explicou. “Philza me contou hoje de manhã. Ele teve um problema de última hora e… não tem mais ninguém.”

 

“Então…”, Fit começou. “O que você precisa que eu faça?”

 

“Você precisa ser o papai Noel.”

 

Fit precisou de alguns instantes para assimilar a frase em seu cérebro, permanecendo em silêncio por um momento enquanto olhava para as decorações do pinheiro, com uma expressão que transbordava descrença em seu rosto. “Você tá brincando, né?”

 

“Não tô!”, Tubbo protestou, e Fit pôde ouvir o ruído baixo de uma movimentação ao fundo, como se ele estivesse andando de um lado para o outro. “Sunny tem falado sobre o quanto ela quer conhecer o Papai Noel todo santo dia. Tipo- todos os dias mesmo. Ela tá muito animada pra isso, e eu não queria deixá-la triste, então prometi que ela o veria no dia do Natal.”

 

Fit soltou um longo suspiro, passando a mão pelo rosto enquanto se inclinava um pouco mais no banquinho. A ideia soava, no mínimo, improvável. Ele não conseguia sequer imaginar — ele nunca se considerou bom com crianças, muito menos para fingir ser alguém como o Papai Noel.

 

“Não é algo como a fada do dente, que eu posso só colocar dinheiro embaixo do travesseiro dela. E tipo- eu literalmente não posso me vestir de papai Noel. Ela saberia que sou eu! Isso é papel pra alguém velho como você, sem ofensas, mas, você sabe o que eu quero dizer.”, Tubbo continuou, o ruído de seus passos em círculos parecendo aumentar ao fundo da chamada.

 

“Tubbo.”, a voz de Fit veio firme logo em seguida, ainda um pouco hesitante, mas ele precisava interrompê-lo antes que Tubbo começasse a divagar mais, “Eu não sei... Eu não sou exatamente o tipo de cara que… é bom com crianças.”, prosseguiu, passando a mão no rosto.

 

“Mas Ramón te adora!”

 

Fit franziu as sobrancelhas. “Ainda bem? Ele é o meu filho. Eu não sei se ele conta.”

 

“Mas você é perfeito pra esse papel!”, Tubbo insistiu. “Você é sério, mas, tipo, de um jeito… convincente. Tipo, a Sunny vai olhar pra você e pensar, uau, esse cara definitivamente é o Papai Noel e não um cara velho qualquer!”

 

Fit não conseguiu evitar uma risada seca, negando com a cabeça. “Isso não é um elogio, Tubbo.”

 

“Por favor, Fit.”, ele respondeu, respirando fundo. “Eu sei, não é do seu conforto fazer isso, mas você é a única pessoa que pode fazer isso por ela. Eu até faria, já disse, mas ela me reconheceria.”

 

Fit desviou o olhar para os enfeites espalhados pela mesa, os dedos inconscientemente brincando com a fita vermelha que havia deixado de lado mais cedo. Ele sabia que Tubbo tinha razão. E essa era a pior parte — o fato de que ele não podia simplesmente ignorar. Ele não seria capaz disso. Se ele não o fizesse, Sunny ficaria arrasada, até mesmo Tubbo também, e todas as outras crianças... A ideia de decepcioná-los, ainda que isso significasse ter que se vestir de papai Noel, o incomodava mais do que ele estava disposto a admitir, até para si mesmo.

 

Fit então suspirou, não acreditando no que estava prestes a dizer, “Tá.”, enfim, concordou, passando a mão no rosto. “Mas não prometo nada. Quando eu for buscar o Ramón, a gente conversa.”

 

Tubbo permaneceu em silêncio por alguns instantes — nem mesmo o ruído de seus passos podia ser escutado. “Eu odeio dizer isso, mas obrigado, Fit. Por pelo menos considerar”, agradeceu, soando verdadeiramente genuíno. “Até mais.”

 

Fit também se despediu, desligando a ligação para respirar por um momento. Até mesmo o silêncio parecia incômodo, já que seus pensamentos se embrulhavam em um ruído cacofônico e confuso. Há menos de trinta minutos, ele estava apenas decorando sua casa para o seu filho, e agora aqui estava ele, considerando ser o próximo Papai Noel. Ele apenas esperava não acabar se arrependendo disso mais tarde.

 

*

 

Fit passa as últimas horas que lhe restaram fazendo pequenos ajustes nas decorações e, eventualmente, desligando o rádio, já que as mesmas canções natalinas estavam lhe dando dor de cabeça. Depois que a casa toda está decorada, não há mais nada a fazer além de consertar algumas poucas coisinhas que estavam fora do lugar e limpar toda a bagunça de caixas vazias.

 

Quando ele termina, já é fim da tarde. O sol está prestes a se pôr atrás das nuvens nebulosas do inverno — os flocos já pararam de cair e é hora de buscar Ramón na casa de Tubbo. E talvez ter uma conversa sobre toda a situação do Papai Noel, mesmo que, no fundo, ele saiba que está prestes a concordar com a ideia, por mais maluca que pareça.

 

Fit pegou seu casaco pendurado na cadeira e deu uma boa última olhada pela sala. Tudo estava no lugar, árvore pronta no canto da sala, guirlandas sobre os batentes das portas, forro com estampa natalina empoleirado na mesa de jantar; enfim, tudo do jeito que ele queria. Ramón ficará orgulhoso quando chegar. Ou, pelo menos, ele espera muito que sim.

 

 

No carro, ele ajusta o aquecedor antes de manobrar pelas ruas tranquilas do bairro. Apesar do clima frio e do tanto que nevou pela tarde, não havia muita neve nas estradas, o que era um alívio, visto o quão insuportável pode ser dirigir enquanto a pista está escorregadia.

 

A casa de Tubbo ficava a poucas quadras dali, então, em poucos minutos, ele já conseguia avistá-la — uma casa comum de dois andares, com luzes de Natal que piscavam de maneira descompassada nas janelas. Havia uma guirlanda pendurada na porta e um boneco de neve meio torto no jardim da frente. Tubbo não era exatamente o melhor detalhista quando se tratava de decorações, mas o esforço estava lá. O próprio Fit não era um dos melhores também, então ele não poderia julgar.

 

Estacionando um pouco afastado da entrada, Fit desceu do carro, sentindo o ar gélido do inverno atingir seu rosto. Por sorte, ele havia pegado um casaco quente o suficiente antes de sair — com ele, o frio parecia um pouco mais suportável. Não muito, mas ainda era melhor do que nada.

 

Com as mãos nos bolsos, Fit caminhou até a porta e tocou a campainha, o som familiar ecoando do outro lado. E, antes que pudesse reagir, foi surpreendido por dois pequenos raios que dispararam pela porta aberta, agarrando-se às suas pernas.

 

“Fit!”, as crianças exclamaram em uníssono, e Fit riu, abaixando-se para bagunçar o cabelo dos dois pequenos.

 

“Ei! Como estão? Se divertiram?”, Fit perguntou, sorrindo ao ver ambos concordarem com a cabeça com tanta rapidez.

 

“A gente viu o Natal perfeito da Barbie!”, Ramón disse, seu tom mal escondendo o quão animado estava. Bingo, Fit pensou consigo mesmo.

 

Quando a energia das crianças se dissipou um pouco, Fit entrou na casa. E, já imediatamente, o cheirinho doce de canela e gengibre vindo de doces recém-assados na cozinha o atingiu. E, caramba, se der tempo, ele precisa provar um pouco do que quer que Tubbo esteja assando, porque parece estar ótimo.

 

O aquecedor da casa traz consigo um calor pelo qual Fit agradece mentalmente, deixando seu casaco no cabideiro para ficar mais confortável. Na televisão da sala, está passando um desenho bastante colorido, o qual Fit não conhece, mas parece exatamente o tipo de coisa que Sunny gosta de assistir. Há diversos cobertores e almofadas espalhadas pelo sofá, ao lado de canecas vazias em cima da mesa de centro. Fit meio que se sente grato por Tubbo, por sempre acolher Ramón tão bem.

 

 

Fit olhou para baixo após sentir um puxão leve em uma de suas mãos. “Tio Fit, você vai falar com o Papai Noel também?”, perguntou Sunny, olhando-o com grandes olhos curiosos e cheios de expectativa.

 

Ele então piscou, surpreso. Tubbo realmente estava falando sério quando disse que Sunny estava animada. “É... eu acho que sim,” respondeu ele, encolhendo os ombros. “Mas acho que vou receber carvão, sabe? Melhor deixar ele falar com quem se comportou e merece presentes este ano.”

 

Em resposta, a garota riu e afirmou com a cabeça, parecendo realmente concordar com suas palavras.

 

Não demorou muito para que Tubbo saísse da cozinha, um pano de prato nas mãos. Ele estava usando um daqueles suéteres de Natal vermelho com renas bordadas, que parecia exatamente algo que ele vestiria apenas para agradar Sunny. E em sua expressão, ele parecia tão preocupado quanto Fit imaginou que estava, a expressão carregada enquanto secava as mãos com o pano.

 

“Ei, Fit.”

 

“Tubbo,”, Fit o cumprimentou de volta.

 

“Poppet, Ramón, podem brincar na sala por um tempinho?”, Tubbo pediu, virando-se para as crianças. “Eu e o Fit precisamos conversar.”

 

Sunny e Ramón se entreolharam com rostinhos curiosos, mas não questionaram nada antes de ir correndo em direção à pilha bagunçada de cobertores e almofadas quentes que estavam na sala.

 

 

E, num instante, eles estão na cozinha. A porta está fechada para garantir que as crianças não bisbilhotem por curiosidade. O cheiro doce e agradável está ainda mais forte, parecendo vir diretamente do forno. Fit não pôde evitar dar uma olhada ao redor, notando a pequena bagunça que se acumulava sobre as bancadas. Uma camada fina de farinha cobria quase tudo, e confeitos coloridos estavam espalhados de forma aleatória.

 

“E aí? Decidiu mesmo?”, Tubbo perguntou com cautela. Fit teve que reprimir uma risada leve, já que ele estava dando os mesmos olhares de expectativa que Sunny estava há poucos minutos atrás. Ele deveria ter presumido que Sunny aprendeu isso dele.

 

Fit então se encostou na geladeira, cruzando os braços. “Você tem certeza de que ninguém mais planeja se candidatar?”

 

“Certeza total. Tipo, total mesmo.”, ele respondeu enquanto gesticulava exageradamente, com firmeza o suficiente para ser capaz de convencer Fit. “Ninguém esperava que Pol fosse ter uma urgência faltando tão pouco tempo. Ele faz isso todos os anos, então nunca houve um reserva.”

 

Fit suspirou fundo, “Está bem. Vou ver o que posso fazer.”, ele pausou por um instante, sentindo a indecisão ainda borbulhando em seu peito. “Preciso olhar minha agenda primeiro, garantir que vou estar livre no dia.”

 

“Obrigado, Fit. Sério.”

 

Fit deu de ombros. “Não agradeça a mim ainda. Não prometo que vou fazer um trabalho perfeito.”

 

“Ah, não se preocupe com isso.”, Tubbo respondeu, despreocupado. “Mas tem algumas coisas que você precisa fazer antes.”

 

Fit arqueou uma sobrancelha. “Como o quê?”

 

“Bom...”, Tubbo limpou a garganta. “Você vai precisar conversar com a administração do parque. Eu vou avisar o Philza pra ele te recomendar, então eles vão te passar as instruções, a roupa, essas coisas. Ah, e eles têm um pequeno treinamento. Nada demais, só para garantir que você saiba como interagir com as crianças e manter o espírito natalino, ou algo assim. Coisas desse tipo.”

 

Fit deixou um suspiro pesado escapar de seus pulmões. “A cada vez que eu penso mais nessa ideia, eu sinto mais arrependimento de ter concordado.”

 

“Tarde demais, rei.”, Tubbo brincou em resposta, mas sua expressão transbordava o quão aliviado ele estava. Sunny merecia isso, um Natal bom pelo qual ela poderia se recordar, e Tubbo também. Ele não pôde deixar de se compadecer, já que ambos são pais solteiros lidando com crianças e suas expectativas. Além disso, no fundo, Fit sabia que, de algum jeito, Tubbo faria qualquer coisa por Ramón, assim como ele faria qualquer coisa pela Sunny.

 

“Então, eu espero que eu ao menos possa experimentar um pedaço do que quer que seja a coisa que você está assando aí.”, Fit comentou, suavizando o tom. “Pra poder recompensar o meu esforço, quem sabe?”

 

E Tubbo sorriu, genuíno e animado. “É pra já”, respondeu, enquanto começava a ajustar os utensílios de cozinha, pegando as luvas para que pudesse abrir o forno com segurança.

 

 

Ao voltar para a sala, Fit encontrou Ramón sentado no sofá ao lado de Sunny, ambos mergulhados em uma conversa animada sobre o que pareciam ser os filmes favoritos dela, a garota enfatizando o quão importante era que eles assistissem a todos antes que o Natal chegasse.

 

Fit acabou parando por um momento perto da porta da cozinha, de braços cruzados, enquanto observava a interação, um sorriso discreto ocupando seus lábios. Ver Ramón interagindo tão tranquilamente com outras crianças sempre trazia um calor suave em seu coração — e ainda mais com Sunny, que gosta tanto de compartilhar sobre as coisas que aprecia e ouvir sobre o que os outros gostam também.

 

 

Eventualmente, para a tristeza dos pequenos, Fit teve que interromper a conversa deles antes que ficasse mais tarde do que já estava. As crianças concordaram, embora ainda tristes, então Fit lhes prometeu que não demoraria muito até se verem novamente.

 

Tubbo saiu da cozinha para que ele e Sunny pudessem se despedir e os acompanhar até a porta. Tubbo se despediu brevemente, ainda com um sorriso pequeno, enquanto Sunny acenava freneticamente até que eles estivessem quase fora de vista.

 

O caminho de volta para casa não foi muito extenso, uma vez que as ruas já estavam praticamente vazias, com as pessoas todas contidas em suas próprias casas pelo frio.

 

O sol já havia se posto, deixando para trás um céu em tons profundos de azul e preto, com pequenos pontilhados de estrelas espalhados em torno da lua minguante. A neve nas ruas já começava a derreter lentamente, e as luzes de algumas das casas vizinhas já começavam a brilhar, piscando em feixes coloridos.

 

Ramón estava com sono, quase adormecendo no banco de trás. Ele não tinha a melhor das baterias sociais, mesmo que tivesse interagido com pouca gente, mas esporadicamente utilizava seus últimos resquícios de energia para mencionar algumas das coisas que havia feito com Tubbo e Sunny. Fit prestou atenção em cada palavra que o pequeno dizia, dando pequenos murmúrios de aprovação sempre que Ramón contava o quanto o dia havia sido legal em sua voz sonolenta. Mas, no fundo, Fit estava organizando seus próprios pensamentos, procurando uma maneira de conversar sobre a situação com Ramón.

 

A ‘situação’ em si não era nada demais — porém, Fit queria garantir que seu filho soubesse de tudo antes de prosseguir. Ele, por fim, deliberou consigo mesmo que não daria sequer um passo à frente sem que Ramón soubesse a partir de agora.

 

 

Quando eles chegaram à garagem de casa, Fit estacionou e desligou o carro, o ruído do motor lentamente diminuindo. Ele então virou-se para Ramón, observando seu garoto que, apesar do evidente cansaço, ainda estava curioso o bastante para prestar atenção.

 

“Ramón.”, Fit começou, a voz calma, no entanto mais séria do que o habitual, o suficiente para fazer Ramón despertar um pouco. “Preciso conversar com você sobre algo.”

 

Ramón olhou para ele, já curioso. “O que foi?”

 

Fit respirou fundo, “Bem, Tubbo me convenceu a me candidatar para o… Papai Noel do parque.”, quanto mais ele dizia em voz alta, mais surreal parecia ele ter aceitado isso.

 

“Papai Noel?”, Ramón repetiu, arqueando uma sobrancelha.

 

Fit afirmou com a cabeça. “É- tipo, apenas por um dia. E antes de aceitar, eu queria saber como você se sente sobre isso. Pode ser que eu precise ficar fora algumas tardes, e não quero mentir pra você sobre onde vou estar.”

 

Ele sabia que Ramón não acreditava mais no Papai Noel. Havia sido algo que ele já havia percebido há um tempo, e nem sabia ao certo o porquê. 

 

Ramón pode ser bastante fechado quando quer, e Fit aprendeu a respeitar isso, apenas deixando espaço o suficiente para que ele pudesse se abrir e dizer o que está errado quando se sentisse à vontade para tal.

 

A verdade é que Fit sempre foi o pior quando o assunto é lidar com seus próprios sentimentos e emoções, nunca foi fácil para ele expressar o que sentia, então muitas vezes ele não sabe o que dizer, como agir. Seu apoio ao seu filho é silencioso, ele dá o tempo que Ramón precisa para assimilar as coisas, oferece um sorriso suave, mas muitas vezes só isso não basta. Ele sabe que Ramón precisa ouvir as palavras que Fit tinha dificuldade em dizer — precisava de reafirmação, de saber que seu pai estava disposto a escutá-lo, a apoiá-lo, independente de qualquer coisa. Fit quer impedir que seu bebê cresça tão fechado quanto ele, mas ele ainda não sabe o que fazer.

 

E, mesmo que o garoto não acreditasse mais, parecia necessário abordar o assunto diretamente com ele antes de tomar qualquer decisão.

 

Fit umedeceu os lábios antes de falar. “Eu sei que você não acredita mais e- não tem nada de errado com isso, eu só queria te avisar antes de realmente me comprometer ao negócio.”

 

Ramón então baixou o olhar, os dedinhos mexendo distraidamente no tecido do suéter, assim como fazia quando estava nervoso. Quando finalmente falou, foi num tom tão simples que Fit quase não soube o que sentir, “É por causa do Spreen.”, murmurou.

 

Fit sentiu os músculos tensionarem. “O que ele fez?”

 

“Foi ele quem me falou que o Papai Noel não existia.”, Ramón explicou, ainda olhando para baixo. “Ele achava que eu já era velho o suficiente pra saber.”

 

Fit se recostou no banco, o encostou frio pressionando contra suas costas. Uma ponta de irritação lhe subiu pela garganta, espalhando um gosto amargo e frio na língua. Inconscientemente, suas mãos já apertavam o couro do volante, os nós dos dedos brancos. É claro que tinha sido o Spreen. É claro.

 

Aquele nome, por si só, trazia uma enxurrada de lembranças a qual Fit preferia manter trancadas em algum canto distante de sua memória. Era injusto, tudo aquilo. O modo como as consequências das atitudes de Spreen ainda se infiltravam nos espaços da vida deles, mesmo depois de tanto tempo. 

 

Fit desviou o olhar para o seu bebê ao banco de trás. Ramón ainda estava curvado, pequeno dentro do próprio suéter, o olhar preso nas mãos, os ombros levemente encolhidos. Era estranho, doloroso de ver. Ramón, tão novo, almejando agir de forma madura, como uma forma de se proteger, porque lhe disseram que ele deveria ser assim. E aquilo o atingiu com força. Porque, no fundo, Fit sabia que parte da culpa era dele também.

 

Ele sempre se perguntava se devia ter ido embora antes. Se devia ter posto um ponto final quando o ambiente começou a pesar demais, quando Ramón começou a ficar mais quieto do que o habitual. Ele se acovardou. E demorou tempo demais por conta disso. Temia agitar demais a vida do filho, medo de arrancá-lo daquilo que, por mais imperfeito que fosse, ainda parecia uma casa — uma casa, quando deveria ter sido um lar. Mas o preço de permanecer era muito maior.

 

Fit sabia que sair disso e se divorciar tinha sido a melhor decisão da vida dele. Sabia, com todas as suas forças. Mas isso não anulava o arrependimento de não ter feito antes. E, às vezes, em noites como essa — quando Ramón parecia quieto demais, quando uma lembrança aleatória voltava à tona com o nome do homem que um dia dividiram o teto —, a culpa voltava também. 

 

Ele então engoliu seco, tentando reprimir o nó nervoso que pesou em sua garganta. “Quando foi isso?”

 

Ramón demorou alguns segundos para responder, “Já faz uns dois anos, não importa mais.”, enfim respondeu, e Fit percebeu que ele estava tentando fingir que não era nada demais, para que não preocupasse Fit ainda mais, e isso doeu. 

 

Fit precisou assimilar a notícia por alguns segundos antes de responder. “Eu pensei que você só tivesse parado de acreditar com o tempo.”

 

“Eu meio que parei, depois disso.”, disse, encolhendo os ombros, “Mas não é por isso que você não deveria fazer isso. É pra Sunny, não é?”, prosseguiu, antes de acrescentar em um tom ainda mais baixo. “Ela ainda acredita… e eu acho que ela deveria… porque é importante pra ela.”

 

Ramón, um nenê tão jovem, mas que já pensava tanto nos outros, mais do que pensava em si mesmo. Principalmente em quem ele considerava como parte da família. Fit queria que o filho tivesse espaço para ser apenas uma criança, para não precisar ser tão maduro o tempo todo, para não carregar nas costas o hábito de se preocupar com os outros. Mas isso já estava tão enraizado na cabeça do garoto que era difícil. Ele ainda não sabia o que fazer.

 

 

“Você tem certeza de que está bem com isso?”

 

Ramón deu de ombros, “Vai ser legal.”, e deu um sorrisinho travesso, um brilho suave voltando a surgir em seus olhinhos castanhos. “E assim eu vou poder ver você com aquelas roupas terríveis.”

 

Fit riu, negando com a cabeça. “Você quer muito me ver passando vergonha, né?”

 

“Talvez.”

 

 

Fit deu a volta no carro e abriu a porta de Ramón. E ele hesitou por um instante, olhando para Fit com um olhar contido. Mas, dessa vez, não resistiu quando o pai estendeu os braços. Fit o ergueu com facilidade, e Ramón encostou nele, o rosto escondido contra o pescoço. Fazia tempo que não aceitava colo — sempre dizia estar grande demais pra isso —, mas agora, deixou-se ficar ali. Fit sentiu o peso leve do corpo dele, o calor através do tecido do suéter, e pensou em como cada vez que isso acontecia podia ser a última. Ramón estava crescendo rápido demais.

 

Entraram em casa em silêncio, apenas com o baixo tilintar do som das chaves e dos passos no chão de madeira, compondo o cenário familiar. Fit acendeu as luzes, o amarelo suave iluminando os móveis, e em especial a decoração que Fit havia feito pela tarde inteira. Ramón, mesmo ainda sonolento, ficou com os olhinhos brilhando ao ver o quão bonita estava a decoração da sala, enfim admitindo que Fit não era tão ruim decorando assim.

 

 

Após um jantar simples, já é hora de dormir. Ramón adormece rapidamente, enrolado em cobertas quentinhas com uma pelúcia em seus braços enquanto Fit canta sua canção de ninar.

 

Mas Fit, mesmo cansado pelo dia longo, permaneceu acordado. Ele precisava urgentemente parar para organizar seus pensamentos. Ele pode dormir depois.

 

*

 

O relógio de mesa brilhava em piscadas lentas, marcando o horário de uma da manhã. A luz quente do abajur iluminava a agenda de Fit, aberta ao lado de uma pilha bagunçada de papéis espalhados, com algumas anotações a lápis de maneira organizada, outras riscadas de maneira apressada e numa caligrafia que nem ele conseguia mais entender.

 

 

Fit estava ocupado demais para pensar em dormir.

 

Por outro lado, seu bebê Ramón já estava dormindo tranquilamente, acomodado debaixo das cobertas, com a porta de seu quarto entreaberta para que Fit pudesse checar nele regularmente, apenas para garantir que ele não estava tendo nenhum pesadelo. E, no geral, a casa estava mergulhada em um silêncio profundo, interrompido apenas pelo ocasional barulho do vento pesado contra as janelas e o farfalhar das folhas das árvores do lado de fora.

 

 

Trabalhar como eletricista para a cidade — ou melhor, para o governo da cidade, que é a Federação — apesar de não ser algo que ele realmente imaginava para si, não abria espaço para muitas reclamações. Ele não tinha muitos serviços para fazer ao longo da semana, mas recebia bem o suficiente para deixar ele e Ramón em uma linha estável. Além disso, a proposta surgiu em uma boa hora e Fit sabia que não conseguiria nada melhor com um salário tão bom.

 

De todo modo, a denominada Federação controlava a ilha de forma silenciosa, com uma mão invisível, há anos. Em todos os lugares, havia sempre empregadores em uniformes imaculados segurando pranchetas, anotando e observando. Nada parecia escapar de seu alcance, nem mesmo pequenos rumores. Não se sabe muito sobre esse governo, além do fato de que a Federação é um tipo de empresa que comprou a ilha há séculos e que controla basicamente tudo. Fit às vezes se via se perguntando se os moradores também percebiam as estranhezas que pareciam ocorrer com uma frequência incomum ou se todos já estavam completamente acostumados com todas as esquisitices. Mas, no final das contas, não havia muito o que fazer.

 

 

Fit mantinha em sua agenda alguns pequenos reparos que eram solicitados pela Federação e algumas eventuais inspeções nos postes das ruas principais. Apenas coisas comuns. Apenas o tipo de trabalho que a Federação sempre lhe delegava sem muita cerimônia. Somente através de e-mails, simples mensagens diretas que não exigiam muito mais do que uma confirmação de recebimento e a promessa de que tudo seria feito corretamente e no seu devido prazo. 

 

Às vezes, o trabalho não parecia muito relevante. Mas, ainda assim, ele precisava cumpri-lo. Algumas dessas inspeções eram relativamente importantes — ao menos, tão importantes quanto qualquer coisa que a Federação considerasse relevante. Contudo, ele podia adiar, se fosse preciso, desde que avisasse com antecedência e não demorasse muito a fazer o que tinha que ser feito. Então, isso significa que ele pode facilmente encaixar o seu serviço voluntário como Papai Noel para o dia vinte e cinco sem muitos problemas. E, de extra, deixar alguns dias anteriores ao do evento livres também, já que Tubbo mencionou um tal treinamento.

 

Antes que pudesse mudar de ideia, Fit pegou seu celular sobre a mesa e começou a digitar uma mensagem rápida para Tubbo, confirmando que Ramón teria que passar pelo menos a manhã seguinte na casa dele. Ele não tinha certeza de quanto tempo iria demorar no parque - talvez fosse rápido, talvez não, mas ele não podia deixar Ramón sozinho em casa e precisava ao menos garantir que Tubbo estivesse livre para recebê-lo em sua casa.

 

A essa hora, o britânico provavelmente estava dormindo, mas Fit sabia que ele o responderia logo pela manhã, talvez com um questionamento certeiro sobre o porquê de ele estar acordado tão tarde, provavelmente num tom preocupado. Mas Fit apenas diria que está tudo bem.

 

Fit sabia que precisava dormir e aparentar pelo menos estar apresentável no dia seguinte. E, agora com tudo organizado, ele desligou o abajur, se espreguiçou e caminhou em direção às cobertas, enfim encerrando o dia.

 

 

Na manhã seguinte, o sol nasceu escondido atrás de nuvens nebulosas e cinzentas — a luz dourada, fraca, mal conseguia ser visível por conta da camada espessa de nuvens à frente.

 

Fit levou Ramón à casa de Tubbo já cedo — que, para o alívio de Fit, respondeu logo pela manhã e, como presumido, perguntou o porquê de ele estar tão acordado até tarde. E Fit realmente respondeu-o por mensagem que estava perfeitamente bem, apenas ocupado organizando algumas coisas, com o pequeno Ramón ainda sonolento, bocejando a todo instante no banco de trás. E, depois de deixar seu filho na casa do amigo, Fit pôde seguir em direção ao parque tranquilamente.

 

O dito parque central ficava a alguns bons minutos de distância, já movimentado com funcionários organizando os preparativos para o evento de Natal. Quando Fit chegou ao portão principal, teve que explicar brevemente ao segurança o motivo de estar ali, quem o havia recomendado e seu nome. Não demorou muito para que ele fosse liberado, recebendo informações breves de como encontrar o escritório.

 

Fit seguiu pelo caminho principal, observando conforme andava. Havia caixas cheias de itens decorativos até a borda espalhadas pelo chão, funcionários andando para todos os lados, reunindo decorações em torno das árvores e outros em escadas, organizando as luzes que estavam envoltas nos postes de ferro.

 

O escritório pelo qual ele deveria ir era uma construção discreta e pequena, afastada de onde seria o movimento central do parque, disfarçada o suficiente para que nenhum visitante percebesse. Por sorte, Fit havia recebido instruções específicas o suficiente vindas do segurança antes de entrar, senão, teria demorado uns bons minutos a mais para achar.

 

Chegando à entrada, Fit bateu na porta antes de adentrar, mas logo recebeu permissão para tal. O escritório, por dentro, era tão modesto quanto era por fora, quase improvisado, com um trabalhador qualquer da Federação acomodado atrás de uma mesa abarrotada de papéis e caixas de fitas. A conversa foi breve; alguns nomes foram mencionados, algumas orientações dadas entre uma anotação e outra, e Fit se viu agradecendo em silêncio por aquilo ser menos burocrático do que imaginava.

 

Ele precisou anotar mentalmente tudo o que era importante e que precisava saber, apenas para registrar em sua agenda depois, como um lembrete extra. O dia vinte e três está reservado para o tal treinamento do qual Tubbo havia avisado anteriormente; o dia vinte e quatro será um dia de descanso para toda a equipe. E, por fim, no dia vinte e cinco, está agendado o grande evento, onde tudo terá que estar pronto para começar às três da tarde.

 

Mas, mesmo com todas essas datas pré-definidas, o trabalhador recomendou que ele visitasse o parque pelo menos duas vezes antes do tal grande dia, para que assim pudesse ver exatamente onde ficaria e para que pudesse comunicar imediatamente caso surgissem quaisquer sugestões ou mudanças a serem feitas.

 

Além disso, a verdadeira boa notícia é que, sim, ele pode trazer Ramón quando quiser ou precisar, e essa confirmação o fez sentir-se mais aliviado, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros.

 

Por último, o trabalhador lhe entregou uma bolsa com as roupas — sim, incluindo uma barba branca falsa — e Fit, ainda processando as últimas instruções, pegou a bolsa com um aceno de cabeça, agradeceu silenciosamente e saiu do escritório.

 

Assim que pôs os pés no exterior do escritório, Fit foi lembrado de quão frio o clima estava, precisando colocar suas mãos nos bolsos do casaco numa tentativa de mantê-las minimamente aquecidas.

 

 

Fit estava caminhando silenciosamente em direção à saída pelo mesmo caminho de pedras em que veio, porém o ruído de duas pessoas em específico conversando chamaram sua atenção.

 

Foi nesse momento que Fit avistou Pac e Bagi à distância. Ambos estavam parados em frente a uma das barracas que montavam para o evento, parecendo discutir detalhes relacionados à decoração. Bagi estava empilhando cenários e pequenas decorações dentro de uma caixa de papelão, empoleirada em cima da bancada da barraca de madeira.

 

Já Pac, parecia estar comunicando algo com Bagi, algo que Fit não conseguia ouvir devido à distância, mas ele parecia bastante ansioso. Fit não pôde evitar que seus olhos seguissem as movimentações de Pac, um suspiro discreto escapando de seus lábios antes que ele pudesse controlar, a pequena nuvem de ar gelado à sua frente desaparecendo tão rapidamente quanto surgiu.

 

Fit ainda se recordava de Pac, não o esqueceria nem se tentasse. Não apenas porque ele também era amigo de Tubbo e Philza, mas também porque, a cada vez em que se cruzavam, Pac parecia fazer questão de lançar um olhar demorado e um sorriso voltado para si que parecia mais especial do que deveria, como se tivesse sido reservado apenas para Fit. Ações simplórias, tão leves, mas tão significativas, que pareciam — na verdade, Fit, apesar da inexperiência, tinha quase certeza de que eram — flertes.

 

Flertes esses que Fit, apesar de perceber, nunca soube como corresponder adequadamente, pois já faz tempo desde a última vez em que ele se sentiu dessa maneira, com o coração tão acelerado, até mesmo com borboletas no estômago. O sentimento, a ideia de gostar romanticamente de Pac, não era algo que o incomodava, muito pelo contrário, aquilo o deixava perfeitamente confortável. Seu coração sempre aquecia em seu peito, e o nervosismo o fazia gaguejar tanto que ele não tinha nem certeza se Pac continuaria interessado se eles se vissem mais vezes.

 

Ele e Pac, embora já se conheçam há um tempo, não têm muitas oportunidades para se encontrar. A vida, com sua rotina de horários desencontrados e obrigações inadiáveis, parecia ter prazer em mantê-los orbitando um ao redor do outro, sem nunca permitir que se encontrassem verdadeiramente. E, quando o acaso, benevolente e imprevisível, os permite se encontrar, são apenas em grandes eventos ou reuniões rápidas, onde mal há tempo de realmente conversar. 

 

Coincidentemente, a última vez em que se viram foi a que durou mais, quando os dois passaram um bom tempo juntos durante os preparativos para a decoração do casamento platônico de Missa e Philza, quando Pac e Bagi estavam encarregados do evento.

 

Fit, tão acostumado a ser recluso, achava toda aquela socialização com desconhecidos desgastante. Havia algo na convivência que ele sempre associava a um cansaço — mais emocional do que físico — como se precisasse recarregar sua bateria social depois de qualquer evento. Mas Pac era diferente. Pac, sempre tão aberto, acolhedor, tão cheio de energia, com seu sorriso animado sempre presente, parecia o oposto de Fit em todos os aspectos. E talvez fosse exatamente isso que o tornava tão difícil de ignorar.

 

 

Quando o viu à distância, foi automático. Seu olhar o encontrou antes mesmo que seu cérebro registrasse o movimento. E, quando os olhos de Pac encontraram os seus, aquele sorriso que parecia tão especial logo surgiu, fazendo o coração de Fit acelerar no peito.

 

Agora que Pac o havia visto, não custava nada se aproximar para jogar conversa fora, certo? Certo. Então, Fit seguiu em direção aonde a dupla de brasileiros estava.

 

 

“Fit! Oi!”, Bagi o cumprimenta com um sorriso animado assim que o vê.

 

“Oi, Fit!”, Pac o cumprimentou também, um sorriso grande surgindo em seus lábios com tanta rapidez que fez o coração de Fit acelerar no peito. “Tá fazendo o que aqui tão cedo?” 

 

Assim como Bagi, Pac também estava utilizando um daqueles suéteres de tricô natalinos. Mas, para diferenciar, enquanto o de Bagi era roxo e rosa, o de Pac era de um azul marinho profundo e um amarelo ouro, com figuras do pac-man perseguindo fantasmas decorando a estampa. Uma roupa ridícula, sim, mas Fit diria que ele parecia incrível — se tivesse coragem o suficiente para isso.

 

Ele decidiu que não iria hesitar em dizer sobre as tais boas notícias — por estarem tão perto da administração do local, eventualmente eles descobririam, cedo ou mais tarde, “Eu meio que me candidatei pra ser o novo papai Noel.”, Fit disse, e apenas isso foi o suficiente para fazer com que Pac e Bagi parassem, olhando com feições tão surpresas que chegava a ser cômico. “Surpreendente, eu sei. Fui convencido.”

 

Houve um pequeno silêncio antes de Bagi ser a primeira a pronunciar algo, “Quando o Foolish me falou, eu achei que ele tava brincando.”, alegou. Fit conteve um suspiro, é claro que Foolish havia contado.

 

“Eu também.”, Pac concordou. “Mas, ei, até que combina, né?”

 

Fit revirou os olhos, mas não contendo um sorriso, “Obrigado pelo incentivo, Pac.”, respondeu num tom irônico.

 

“Não, mas sério! Tenho certeza de que as crianças vão adorar. Até onde eu sei, elas sempre te acharam legal.”

 

Houve algo na forma como Pac disse aquilo que o fez vacilar — talvez fosse a certeza em seu tom, o olhar direto e cheio de convicção, quase genuíno demais para o coração de Fit, que piscou, surpreso. Ele não achava que fosse verdade, ou pelo menos sua mente o dizia que não. Ele certamente não é nem de longe o tipo de adulto que as crianças acham legal, e muito provavelmente nem Ramón achava isso. “Eu não tenho certeza disso.”

 

“Ah, pare com isso. Você é um cara legal, Fit.”, Pac respondeu, com um pouco mais de certeza, o calor que parecia se infiltrar por trás de suas palavras acertando Fit no coração como uma flecha.

 

“Bom! Eu vou levar isso aqui lá pra mais perto da árvore.”, Bagi anunciou de repente, talvez um pouco alto demais, pegando a caixa que estava organizando em suas mãos. “Daqui a pouco tô voltando.”, e antes de ir, Bagi dá uma última olhada para Pac com um sorriso muito suspeito, que fez o brasileiro revirar os olhos, porém ainda compartilhando o mesmo sorriso.

 

Quando a brasileira se afastou o suficiente, um breve silêncio pairou entre os dois. Fit respirou fundo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Pac começou a rir, o som de suas risadinhas preenchendo o espaço entre eles.

 

“Desculpe.”, Pac se desculpou entre pequenos risos — e Fit meio que precisa se forçar a parar de pensar no quão agradável a risada dele soa. “Só de imaginar você com a roupa do papai Noel me dá vontade de rir.”

 

Fit negou com a cabeça, “Não acho que posso aceitar suas desculpas.”, disse, cruzando os braços. “Eles realmente me entregaram as roupas tradicionais, se te faz feliz.”, prosseguiu, revirando os olhos.

 

Pac o olhou por alguns segundos, em silêncio, comprimindo os lábios antes de dizer, “Aceitaria as desculpas se eu te pagasse um chocolate quente? Depois de toda a… sua situação do Papai Noel, quero dizer.”, disse, sua voz soando em um tom mais baixo e contido. Há um tom rosa suave enfeitando suas bochechas e nariz, mas Fit supõe que seja pelo vento frio. Tem que ser. “Só se você quiser, sabe? Sem pressão.”

 

Fit pigarreou. De repente, sua garganta pareceu estranhamente seca. Deve ser o frio. Tem que ser. Ele está, no mínimo, surpreso — não surpreso do tipo desagradado, no entanto — por Pac ter o convidado para. Bem, isso deve ser um encontro, certo? Fit meio que esperava que sim. 

 

A última vez em que eles se viram surgiu como um borrão em sua mente, Pac nos preparativos para o casamento de Philza e Missa, tão concentrado, tão dedicado a cada pequeno detalhe. questionando a todo tempo se a decoração realmente estava de acordo com o que Missa e Philza desejavam. A visão dele naquela época ainda estava gravada em Fit, o marcou tanto que ele mal conseguiu acompanhar tudo o que estava acontecendo ao redor.

 

 

“Ah- sim. Bem. Claro, pode ser.”, enfim o respondeu, seu tom saindo com um leve sinal de nervosismo por trás de suas palavras, por mais que ele tivesse tentado fazer sua voz soar firme.

 

Pac sorriu, mal segurando outra risada. “Cara, eu mal posso esperar. Você vai ficar ótimo.”

 

E Fit sorriu de volta. “Você parece feliz até demais com a ideia.”

 

Mas, antes que Pac pudesse responder, Bagi apareceu, um pequeno sorriso triste em seus lábios.

 

“Não queria interromper os dois, mas, Pac.”, a brasileira disse, apontando para a pilha interminável de pisca-piscas com os fios embaralhados.

 

Pac suspirou dramaticamente, “Eu sei, as luzes.”, Bagi deu uma risada leve, dando tapinhas como consolo em seu ombro. É completamente característico seu fazer esse tipo de drama, mas algo em Fit o dizia de que Pac parecia genuinamente chateado. “Adoraria manter a nossa conversa, mas eu sou um cara ocupado, sabe?”

 

Fit riu, negando com a cabeça. “Não, eu sei, eu sei.”, disse, em um tom leve. “Não queria atrapalhar os irmãos à obra da ilha.”

 

Pac riu novamente, fofo e suave, e até mesmo Bagi deixou escapar risadinhas baixas também, “Até mais, Fit.”, despediu-se, um sorriso sincero ainda pairando em seus lábios.

 

Bagi também se despediu. “Tchauzinho, Fit!”

 

Fit observou os dois se afastarem, as vozes misturando-se em uma conversa, provavelmente discutindo sobre as decorações, mas com palavras em português que ele não conseguia entender completamente. Por um instante, Fit permaneceu parado, permitindo-se parar por um momento para respirar fundo e absorver tudo o que havia acontecido nos últimos minutos. Ok. Ele meio que foi chamado para um encontro com Pac, e oficialmente era o novo Papai Noel para o dia vinte e cinco. Ele não sabia qual dessas duas notícias soava mais surreal.

 

Enfim, respirando fundo uma segunda vez, ele ajustou seu casaco firmemente e seguiu seu caminho para o carro, pronto para buscar seu bebê Ramón na casa do Tubbo. 

Chapter 2: all is merry and bright

Notes:

finalmente! :D eu tava tentando muito postar esse capítulo entre os dias 17 e 18 mas acabei demorando um pouco mais 😭 assim como o primeiro, esse capítulo estava praticamente pronto desde o ano passado ! o que mais faltava era a correção, uns poucos trechos e a tradução
espero que gostem, boa leitura!

Chapter Text

Dias depois, a manhã do dia dezessete se iniciou como qualquer outra para Fit, exceto por uma leve e persistente sensação de expectativa que se aflorava em seu peito, a ansiedade que sentia se espalhando muito rapidamente. Ele havia decidido na noite anterior que visitaria o parque hoje e daqui a cinco dias, e já havia avisado ao Tubbo os horários em que ele precisaria levar o Ramón para a casa dele.

 

Como o funcionário havia explicado a ele poucos dias atrás, era recomendado que ele fosse dar uma olhada no lugar pelo menos duas vezes antes do dia do evento, apenas para garantir que houvesse tempo o suficiente para arrumar caso se incomodasse com algo ou tivesse qualquer sugestão. Acontece que, bem, visitar o parque significava ver Pac novamente, e Fit não sabia se estava completamente pronto para isso. Mas, pronto ou não, não era como se ele pudesse evitar ir.

 

 

Fit levantou cedo, como de costume, não demorando muito para descer e preparar o café da manhã — nada elaborado, apenas torradas e ovos, somente o suficiente para começar o dia. Em cima da bancada, a chaleira apitou, enchendo a cozinha com o som agudo que ele rapidamente silenciou ao despejar a água fervente em sua caneca de chá.

 

Ramón apareceu pouco depois, descendo as escadas enquanto ainda esfregava os olhos sonolentos. O garoto deu um bom dia cheio de preguiça e sentou-se à mesa, mordendo uma torrada enquanto Fit terminava de lavar a frigideira.

 

Depois do café da manhã, Fit se arrumou para sair, e posteriormente ajudou Ramón a se preparar com roupas calorosas o suficiente para o frio, certificando-se de que o casaco estava fechado até o pescoço e as luvas estavam devidamente colocadas. Para Ramón, aquilo era um tremendo exagero, mas Fit queria garantir que ele não pegasse um resfriado. Com o quão corrida sua agenda estaria nos próximos dias, tudo o que ele menos precisava era que seu filho ficasse doente.

 

 

No caminho até a casa de Tubbo, Ramón conversava distraidamente no banco de trás do carro, os pezinhos balançando enquanto contava quais eram os seus planejamentos para hoje com Sunny e Tubbo. Ele descrevia animadamente sobre como eles iriam continuar a assistir os filmes de natal favoritos da Sunny — aparentemente, hoje veriam o filme do quebra-nozes —, jogar alguns jogos antigos de console que Tubbo tinha guardado, e por fim tomar chocolate quente, cheio de creme e chantilly até a borda. 

 

E Fit olhava pelo retrovisor de vez em quando, um sorriso suave curvando seus lábios enquanto ouvia o filho, absorvendo cada palavra, às vezes acrescentando uma palavra ou outra para que Ramón se sentisse incentivado a continuar falando. Não demorou muito até que eles chegassem à porta de Tubbo, com Ramón se despedindo com um último aceno antes de entrar.

 

Depois de confirmar os planos com Tubbo para buscar Ramón no final da manhã, Fit voltou ao carro e seguiu em direção ao parque. O silêncio que tomou o espaço agora que Ramón não estava mais no banco de trás parecia estranho, mas não desconfortável — embora a presença do pequeno ainda fizesse falta. Era o tipo de silêncio que permitia que sua mente vagasse, preenchido apenas pelos seus próprios pensamentos, e a música que estava tocando no volume baixo na rádio.

 

Ao chegar ao parque, Fit estacionou e desceu do carro. O vento estava tão frio que ele precisou ajeitar seu casaco, puxando-o para mais perto do corpo, sua respiração formando pequenas nuvens brancas que pairavam no ar por segundos antes de desaparecer.

 

Não havia mudado muito desde a última vez em que ele esteve aqui, afinal, o parque ainda estava em fase de construção. Porém, mesmo assim, o progresso era bastante evidente. Pequenas luzes de Natal agora adornavam os postes de iluminação, com envoltas em espirais. Próximo aos canteiros, pequenos trenós de madeira envernizada estavam cheios de pacotes de presente decorativos, pintados em tons vibrantes de vermelho e verde. Bonecos de neve de tamanhos variados estavam espalhados pelos lugares, alguns semelhantes aos clássicos como os dos filmes clichês, com chapéus de cartola e cachecois de tricô, enquanto outros, seguravam placas que apontavam direções para lugares do parque.

 

No centro do parque, a casa do papai noel se destacava. Olhando apenas o exterior, parecia bastante pronto, com janelas enfeitadas com guirlandas e o telhado coberto de neve. E, próximo dali, uma árvore de natal gigante também chamava atenção, com todos os tipos de luzes, sinos e laços vermelhos e grossos em volta. Não parecia estar completamente pronto, mas já era de tirar o fôlego, e o próprio Fit admitiria isso tranquilamente.

 

Assim que Fit se aproximou da área central, ele avistou Bagi. A brasileira estava de pé ao lado de uma pilha de caixas, concentrada em algo que escrevia em um bloco de notas. Suas sobrancelhas estavam ligeiramente franzidas, e ela mordia a ponta da caneta de uma maneira distraída, como se estivesse forçando seus neurônios a pensar urgentemente em alguma solução para algo importante.

 

Quando seus olhos finalmente se ergueram e notaram a presença de Fit, ela imediatamente abriu um sorriso, guardando a caneta no bolso de trás enquanto caminhava em sua direção com passos apressados.

 

“Bom dia, Fit! Que bom que já está aqui.”, Bagi o cumprimentou, virando as páginas de seu bloco de notas. Então, começou a listar informações breves sobre o progresso que teve no parque nos dias em que Fit esteve fora e, depois, gesticulou em direção à casa do Papai Noel, comentando que ela e Pac estavam começando a decorar o interior.

 

Fit assentiu, seu olhar acompanhando o gesto até a estrutura de madeira. Bagi lhe pediu para que ele a conferisse por dentro, para dizer se estava de acordo com a decoração ou não. Fit, antes de qualquer coisa, já tinha certeza de que sim. Não é muito difícil impressioná-lo, e ele confia completamente no trabalho de Pac e Bagi. Porém, Fit também não iria recusar dar uma olhada no interior, ainda mais se isso deixasse Bagi mais aliviada.

 

 

Entrando pela porta, Fit percebeu que o espaço era pequeno, porém muito bem planejado. Havia uma poltrona grande e confortável, estofada em veludo vermelho, posicionada no centro da sala, ao lado de uma pequena lareira cenográfica com meias penduradas. 

 

Uma mesa de madeira lateral exibia biscoitos de plástico pintados em cima de um prato de cerâmica com detalhes bastante realistas, e uma caneca cheia de algo que parecia imitar chocolate quente. As paredes eram vermelho-vinho, adornadas com quadros simples, de molduras e fitas douradas. Já no chão, um carpete macio completava o espaço. Ao todo, era como se fosse uma casa de verdade, reconfortante e agradavelmente aquecida por dentro — o que, claro, era ótimo, considerando o quão frio estava do lado de fora.

 

Pac, que estava ao lado da lareira ajustando algumas das meias, virou-se ao ouvir Fit entrar, “Oi, Fit!”, disse, gesticulando para que ele se aproximasse. “O que acha? Tem algum ajuste que você queira fazer antes de eu e Bagi finalizarmos?”

 

Fit examinou o espaço novamente, desta vez com mais cuidado e atenção, enquanto Pac aguardava ansiosamente por sua resposta. E, de verdade, parecia incrível. Bastante impressionante. Parecia até mesmo injusto ele, que mal sabia decorar a própria casa devidamente, dizer qualquer coisa que não fossem elogios para o quão bonita estava a decoração. 

 

Ele não tinha nada a dizer, senão talvez sugerir pequenas ideias nas quais ele sabia que iriam agradar Ramón, como miniaturas de trens e adesivos de estrelas nas paredes — já que ele estava fazendo esse trabalho, poderia ao menos dizer ao seu filho que as decorações foram em sua homenagem.

 

“Esse lugar parece ótimo. Você e Bagi fizeram um trabalho incrível, com certeza. Na verdade, só tenho algumas sugestões pra fazer, se não for incomodar.”

 

Pac parecia satisfeito com a aprovação, confirmando com a cabeça enquanto um rubor leve surgia em suas bochechas, “Claro que não, Fit! Pode me dizer.”, disse enquanto se afastava para recolher algumas luzes. “E, também, uh- já que você tá aqui, pode me dar uma mão com isso? A Bagi tá meio ocupada.”

 

Fit hesitou por um momento. Ele não era o melhor em decoração, por isso Ramón o ajudava na maioria das vezes — exceto, claro, neste ano, que ele quis fazer uma surpresa especial — mas não demorou muito a assentir com a cabeça. Fit teme que há poucas coisas neste mundo que ele recusaria a Pac, e certamente prender umas luzes não era uma delas. Então, ele caminhou até Pac, que já segurava um conjunto de luzes brilhantes enroladas em uma corda dourada.

 

A tarefa era bem simples, Pac seguraria a base da escada enquanto Fit iria subir para fixar luzes nos suportes que estavam por todo o cômodo. Era suposto que o lugar ficasse inteiramente iluminado apenas por lâmpadas e luzes presas por suportes, todas de um tom dourado que combinava perfeitamente com a paleta de cores da casa.

 

 

Depois de terminar de pendurar as luzes por todos os cantos da parede, Fit desceu das escadas, aproveitando para dar uma boa olhada no resultado. Agora, o cômodo inteiro estava banhado por uma luz quente, que refletia e destacava os detalhes dourados.

 

“Ficou melhor do que eu imaginei! Obrigado pela ajuda, Fit!”

 

“Não foi nada. Quer dizer, você já fez todo o trabalho, tudo o que eu fiz foi só prender algumas luzes.”, Fit respondeu.

 

O que se seguiu foram poucos segundos de silêncio. Pac comprimiu os lábios e desviou o olhar, parecendo querer dizer algo. Então, Fit apenas aguardou pacientemente até que ele estivesse pronto para dizer o que quer que fosse, “Se você quiser, pode ficar um pouquinho pra ajudar… é sempre bom ter uma mão extra”, comentou despretensiosamente. 

 

Algo em seu tom soava muito mais como um pedido pela presença de Fit do que uma simples ajuda com as decorações, como se ele quisesse prolongar aquele momento por mais alguns minutinhos antes que ele fosse embora. E Fit precisou ponderar por um instante, considerando seu tempo. Bem, ele ainda tinha cerca de uma hora e meia antes de precisar buscar Ramón.

 

 

“Acho que posso ficar mais um pouco. O que mais precisa ser feito?”

 

Pac imediatamente se animou, abrindo um sorriso. “Ótimo! Tem algumas fitas que ainda precisamos ajustar nas portas. E depois... talvez você possa me dizer as suas sugestões?”

 

 

E antes que percebesse, Fit já estava se ocupando com outras pequenas tarefas, ajudando Bagi a carregar caixas e ajustando alguns poucos detalhes aqui e ali. Dessa forma, o tempo passou voando, sem que ele sequer se desse conta, a interação com a dupla de brasileiros lhe trazendo uma sensação de conforto e familiaridade que ele não sentia há tempos.

 

Enquanto organizava algumas decorações ao lado de Bagi, Fit não pôde evitar que seus olhos se desviassem ocasionalmente para Pac, que estava subindo em uma escada próxima, ajustando um conjunto de enfeites no canto superior de uma das paredes. A luz que eles haviam pendurado anteriormente iluminava seu rosto num tom dourado quente, e refletia em seus olhos castanhos-escuros. Fit quase parou por um instante apenas para observá-lo de longe.

 

“Cuidado aí em cima, Pac.”, Bagi disse de repente, sem desviar os olhos do que estava fazendo, mas Fit percebeu que ela estava se referindo a Pac.

 

“Relaxa, Bagi. Tudo sob controle.”, Pac respondeu, a voz despreocupada enquanto esticava o braço ainda mais para fixar um último enfeite em formato de rena. Fit sabia que Pac estava tranquilo, muito provavelmente à essa altura já acostumado a ficar no alto de escadas, por mais vacilantes que elas pareçam estar, porém, o aviso de Bagi o fez se aproximar, segurando a base da escada para garantir que não balançasse. Melhor prevenir do que remediar. Do jeito que Pac era distraído, ele não duvidava nem um pouquinho que algum acidente do tipo fosse capaz de acontecer.

 

Assim que Pac terminou, ele desceu os degraus com um suspiro exagerado de alívio, “Pronto. Agora sim.”, ele olhou para Fit, que ainda estava por perto, e levantou uma sobrancelha, um misto de curiosidade e surpresa em sua expressão. “Você ficou aí por precaução, né?”

 

Fit deu de ombros, tentando não parecer óbvio, “Alguém precisava garantir que você não fosse cair.”, nem um pouco convincente. 

 

Pac riu, um som leve e despretensioso que fez Fit sentir um calor suave no peito, “Ah, então você se importa tanto assim comigo? Obrigado, Fit. Legal da sua parte.”, provocou. Ele estava claramente brincando, e Fit sabia disso, mas se ele fosse longe o suficiente ele poderia afirmar que havia um pequeno tom de suavidade, um fundo genuíno, em suas palavras.

 

Fit precisou desviar a atenção, pegando uma caixa aleatória que precisava ser movida para o lado de fora, “Talvez.”, foi tudo o que ele respondeu. O suficiente para fazer um tom rubro surgir nas bochechas de Pac, surpreso com a resposta.

 

Fit teve a impressão de que Bagi revirou os olhos com um sorriso, mas ele não estava realmente prestando atenção.

 

 

O resto do tempo passou de maneira semelhante — rápido até demais. Quando Fit enfim terminou de ajudar Pac a guardar as últimas caixas do lado de fora da casa do Papai Noel, o início da tarde lentamente surgia com uma luz dourada que tingia todo aquele cenário branco da neve em tons quentes, embora o sol ainda estivesse relativamente escondido através das nuvens e o ar ainda meio frio. As risadas e o burburinho de vozes que haviam preenchido o ar pela manhã agora estavam distantes, e Bagi havia saído instantes atrás para verificar algo com o segurança, deixando Fit e Pac sozinhos.

 

Fit recostou-se na lateral da casa do Papai Noel, cruzando os braços enquanto observava Pac fechar uma última caixa com fita adesiva. Ele simplesmente não conseguia se impedir de se prender aos pequenos detalhes do brasileiro — a maneira como a luz fraca do sol, filtrada pelas árvores próximas, iluminava os traços suaves de seu rosto. Havia pequenos pontilhados espalhados pelas maçãs do rosto e pelo nariz, quase imperceptíveis à distância, mas agora, sob a luz dourada do início da tarde, pareciam ainda mais visíveis. Era sutil, algo que não deveria chamar tanta atenção, mas Fit não conseguia desviar o olhar por nada. A expressão concentrada de Pac, o jeito como ele franzia ligeiramente a testa enquanto apertava a fita para garantir que a caixa não se abrisse.

 

Ele parece bonito.

 

O pensamento surgiu antes que Fit pudesse contê-lo, e a constatação trouxe uma onda súbita de calor que se aflorou em seu rosto, o vermelho se espalhando até suas orelhas, seu coração acelerando as batidas. Pac, no entanto, parecia alheio a isso — e Fit estava grato por isso, ele estaria mortificado se Pac percebesse a maneira nada discreta em que ele estava olhando.

 

 

Depois de apertar a fita uma última vez, Pac ergueu o olhar, percebendo o silêncio que pairava entre eles. Seus olhos se encontraram, o coração de Fit pulou uma batida, e Pac ofereceu um sorriso pequeno. “Obrigado por ter ajudado, Fit. Parece até que o tempo passou mais rápido, né?”

 

Fit assentiu. “Sem problemas. Foi legal.”

 

E foi legal, de fato. Mesmo com todo o esforço físico — que, por sinal, nem foi muito, ele estava mais comentando e acompanhando do que realmente ajudando —, a presença de Pac e as conversas que eles compartilhavam entre si tornaram tudo mais fácil, o tempo passando tão rápido que ele se surpreendeu quando percebeu que já era quase meio-dia.

 

 

Após alguns instantes, Bagi voltou, anunciando que ainda tinha trabalho a fazer. Porém, Fit teve que se despedir, pois já era hora de buscar seu nenê Ramón na casa de Tubbo. Ele se despediu uma última vez de Pac e Bagi antes de ir, os dois brasileiros despedindo-se calorosamente também, antes de retornarem aos seus trabalhos.

 

Fit caminhou até o portão do parque, uma sensação calorosa ainda em seu peito, crescendo vinhas ao redor do seu coração. Mas apesar de tudo, o sentimento era reconfortante.

 

Entrando no carro, Fit respirou fundo. Depois de tudo, ele precisava de um tempo para acalmar seu próprio coração agitado no peito. 

 

Por fim, ele ajustou o aquecedor antes de dar partida. O silêncio foi interrompido apenas pelo som fraco do motor enquanto ele dirigia em direção à casa de Tubbo. O entardecer estava se aproximando, e ele sabia que Ramón estaria o esperando com um sorriso animado, pronto para contar tudo o que tinha feito pela manhã.

 

*

 

Os dias seguintes passaram da mesma maneira. Ramón estava cada vez mais curioso para saber o que exatamente seu pai Fit estava fazendo em suas visitas ao parque, então perguntas surgiam com muita frequência. Fit tentava respondê-lo como podia, mas não havia muito o que dizer — não era como se ele tivesse realmente feito algo além de ajudar a prender algumas luzes e mover umas caixas. Seu trabalho, de fato, começava apenas no dia vinte e cinco, e aquilo já o preocupava o suficiente.

 

Porém, Fit, inevitavelmente, mencionava as pessoas responsáveis pela decoração vez ou outra, acabando por mencionar Pac com mais frequência do que percebia, incapaz de deixar de comentar sobre o quanto o brasileiro era dedicado e talentoso no que fazia. E Ramón provavelmente já tinha se dado conta disso — ele era esperto demais para não perceber —, e estava começando a perguntar especificamente sobre ele, seus olhos se estreitando como se estivesse analisando minuciosamente absolutamente tudo em sua cabeça — e muito provavelmente ele realmente estava. 

 

Fit sabia que Ramón tinha uma curiosidade genuína, que queria participar, entender, e isso fazia parte do motivo pelo qual ele se sentia tão inclinado a fazer as coisas certas para o filho. 

 

 

Na manhã do dia vinte e dois, Fit estava sentado à mesa de jantar com uma xícara de café quase fria à frente. Ele olhou para o relógio na parede, depois para o seu próprio celular. Precisava resolver urgentemente onde Ramón ficaria durante sua visita no parque de hoje, já que Tubbo havia avisado na noite anterior que não poderia porque surgiu uma urgência com a Sunny. Nada muito grave, mas que o manteria ocupado e indisponível pelo resto do dia.

 

Então, ele tentou ligar para o Philza logo em seguida, mas recebeu a notícia de que Tallulah estava com um resfriado. E, por último, havia Bad, que provavelmente estaria disposto a aceitar, contudo, já era tão tarde que Fit estava se sentindo mal por chamá-lo de última hora. Enfim, como ele havia recebido permissão para levar o Ramón ao parque, caso precisasse, assim o faria. Pelo menos por hoje.

 

Deixando o celular de lado, ele suspirou pesadamente. Ramón levantou os olhos, sem conseguir deixar de transparecer o quão curioso estava.

 

“Bem, parece que você vai ter que ir comigo visitar o parque hoje.

 

Ramón suspirou, surpreso. “Sério?”

 

Fit concordou com a cabeça. “Mas calma aí, meu garoto, não vamos sair agora. A gente vai de tarde.”

 

 

Ramón suspirou, desanimado, mas não disse nada — seriam apenas algumas horinhas, o pequenino tentou convencer a si mesmo. E quando é por volta das duas da tarde, após um bom almoço e um descanso, eles começam a se arrumar e a agasalhar-se com casacos quentes o suficiente para o frio que os aguardava do lado de fora. E uma vez que estão devidamente vestidos e prontos para sair, seguem em direção ao carro, com o pequeno Ramón mal conseguindo conter o quão estava ansioso e animado por acompanhar o pai hoje.

 

Como sempre, a viagem de carro não é tão extensa, ainda mais considerando o quanto o trânsito estava calmo hoje — Fit agradeceu mentalmente por isso. Assim que eles chegam ao parque, Fit estaciona e ajuda Ramón a descer do carro, e posteriormente ambos caminham pela calçada, não demorando muito até encontrar Pac.

 

 

“Boa tarde, Fit!”, Pac o cumprimentou, com a sua energia impecável e sorriso caloroso como sempre — isso fez o coração de Fit aquecer, mas ele está lentamente aprendendo a disfarçar seu gay panic melhor —, e quando ele finalmente percebeu a pequena figura atrás de Fit, arqueou as sobrancelhas, “E quem é esse rapazinho?”, perguntou. 

 

Na verdade, Pac o reconhecia de longe, mas bem de longe mesmo. Tudo o que ele sabia era que seu filho, Richarlyson, estuda na mesma escola que ele e, mesmo que não sejam da mesma sala, isso não os impediu de serem amigos. Nada muito além disso.

 

“Boa tarde, Pac. Esse é o meu filho, Ramón.”, Fit respondeu, “Quer dar um oi?”, se virou para perguntar para Ramón numa voz mais suave, e ele acenou com a cabeça timidamente em resposta antes de tomar um passo à frente.

 

“Você é o senhor Pac?”, Ramón o perguntou com grandes olhinhos curiosos. 

 

E Pac arqueou as sobrancelhas com a menção de seu nome, internamente se perguntando se Fit o havia mencionado para seu filho. Ele não sabe exatamente o porquê, mas a possibilidade disso fez seu coração agitar um pouco, questionando-se o que Fit teria dito sobre ele. Mas, de qualquer maneira, Pac tentou empurrar esse pensamento para longe. Agora não, mas talvez ele vá surtar sobre isso mais tarde, mais especificamente antes de dormir.

 

Ele então confirma com a cabeça em resposta, “Isso mesmo. Prazer em te conhecer, Ramón.”, Pac respondeu, estendendo a mão para ele. “Você deve estar empolgado em ver seu pai de papai Noel, né?”

 

Ramón apertou a mão dele, os olhinhos se tornando ainda mais brilhantes apenas com o leve lembrete de que ele está há poucos dias de ver seu pai Fit em roupas ridículas, “Com certeza”, concordou, com uma convicção tão grande que fez Pac rir baixinho.

 

“Não encoraje ele, Pac.”, Fit respondeu, revirando os olhos, mas com um sorriso suave, sem nenhum aborrecimento verdadeiro por trás de suas palavras. “Precisei trazê-lo porque nenhum dos meus amigos tinha tempo para cuidar dele nesta tarde. Também é sempre bom passar um tempo juntos, né, Ramón?”

 

Ramón acenou com a cabeça, porém logo depois deixou um suspiro baixo escapar. “Espero não ficar muito entediado.”

 

Pac pareceu ponderar por alguns instantes, “E se você ajudar com a decoração também, hein, Ramón?”, perguntou, antes de acrescentar: “Mas só se o seu pai deixar.”

 

Então Ramón piscou, parecendo ter ficado surpreso com o convite. Seu olhar arregalado passou de Pac para Fit quase que de imediato. “Posso, Fit?”

 

“Bem-”, Fit começou, mas parou ao perceber os dois pares de olhos fixos nele, olhando-o com tanta expectativa que seria um crime hediondo ter a coragem de dizer não. Ele não tinha nada a fazer senão suspirar, derrotado, e aceitar. “Sim. Apenas tome cuidado, ok? Não queremos quebrar nada do Pac, entendido?”

 

“Entendido!”

 

“Se ele quebrar eu escondo.”, Pac comentou casualmente, fazendo com que Fit olhasse em sua direção com as sobrancelhas arqueadas. Pac apenas deu de ombros em resposta. “Talvez eu meio que possa ter quebrado alguns globos de neve aqui, e outras bolinhas para as árvores ali, mas quem liga?”

 

Fit riu, negando com a cabeça. “Eu acho que o seu chefe ligaria.”

 

“É por isso que isso é segredo nosso.”, Pac sussurrou, fazendo um gesto de silêncio, e se virando para Ramón. “Ouviu, Ramón?”

 

Ramón acenou animadamente. “Eu sei guardar segredos muito bem.”

 

“Ótimo!”, Pac riu, estendendo a mão para dar um high-five, o qual Ramón correspondeu muito animadamente.

 

 

Pac guiou Ramón pelo parque, mostrando absolutamente tudo o que podia, todos os pequenos detalhes. Os olhos de Ramón brilhavam ao ver as decorações e as pequenas atrações, sendo sua favorita a pequena estação de trem, com os trilhos em miniatura serpenteando por um pequeno cenário montado, com árvores de Natal, casas cobertas de neve falsa e bonecos de neve espalhados. O trenzinho circulava pela cidadezinha inteira antes de voltar para a estação e parecia tão fofo e detalhado que talvez Ramón tivesse decidido, de uma vez por todas, o que queria de presente de Natal. Fit que se vire para poder arranjar uma maneira de presenteá-lo com um maquinário em miniatura tão detalhado.

 

Enquanto isso, Fit os seguia em silêncio, mais ocupado em observar os dois interagindo do que realmente acrescentando aos assuntos e conversas que compartilhavam tão animadamente. Ele meio que não conseguia deixar de observar como Ramón parecia perfeitamente confortável conversando com Pac, ainda mais considerando o quão raro era ele ser tão conversativo com pessoas que não conhece muito bem, e aquilo o deixou um tanto emotivo. Fit sabe que Pac simplesmente é inegavelmente bom com crianças — e ele já o havia visto demonstrar essa habilidade após ajudar Tallulah a sentir-se menos ansiosa no casamento dos pais —, mas não consegue impedir-se de ficar admirado ao vê-lo respondendo tudo de um jeito animado e paciente, com aquela voz compreensiva que só professores de maternal possuem, além de parecer sempre saber o que dizer para manter Ramón engajado no assunto. É meio adorável.

 

 

Depois de dar uma olhada rápida nos arredores, logo eles se aproximaram da casa do Papai noel onde Fit ficaria e onde Bagi atualmente estava, a brasileira debruçada sobre uma bancada improvisada, parecendo desenhar sobre uma placa de madeira.

 

“Oi Fit! Oh! Olá, pequeno!”, Bagi exclamou animada, erguendo os olhos de seu trabalho para os três.

 

“Ramón, essa é minha amiga Bagi. Ela trabalha aqui comigo.”, Pac tomou a frente para apresentá-la. “E Bagi, esse é o Ramón. Ele e o pai dele vieram nos ajudar hoje, né Ramón?”

 

“Sim!”, Ramón respondeu com um entusiasmo tão brilhante que seria capaz de iluminar uma cidade.

 

“Nossa, que bom!”, Bagi disse, indo em direção ao Ramón e se abaixando até a altura dele, “O Pac é muito atrapalhado, sabe? Eu tenho certeza de que você vai fazer um trabalho muito melhor do que ele.”, a brasileira sussurrou, porém ainda alto o suficiente para que Pac escutasse.

 

“Eu to ouvindo, Bagi.”, Pac disse, revirando os olhos, porém o sorriso leve que surgiu em seu rosto traía sua indignação fingida.

 

“Mas era pra você ouvir mesmo.”, Bagi replicou, rindo de forma suave. 

 

Ramón riu também, “Tenho certeza que o senhor Pac deve fazer um trabalho ótimo… às vezes.”, acrescentou, fazendo com que Bagi risse, e Pac suspirasse dramaticamente. 

 

“Ramón, eu achei que você tava do meu lado.”, Pac disse, fazendo seu tão habitual drama.

 

E então, veio sua resposta.

 

“Só pedir pro Fit te defender, ué.”, Ramón respondeu prontamente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

 

A frase pairou no ar frio, um silêncio constrangedor vindo logo após. Bem, constrangedor apenas para os dois, porque Bagi e Ramón pareciam estar bem divertidos, segurando risadinhas entre eles. Fit sentiu um súbito calor subir por seu rosto, e de repente, mesmo com o frio, suas roupas pareciam exageradamente quentes. Pelo canto do olho, ele notou o olhar de Pac se arregalar brevemente, virando-se na sua direção, e, por puro acaso, Fit também olhou na mesma hora, os dois compartilhando olhares tímidos.

 

Fit imediatamente sentiu como se seu coração tivesse pulado uma batida quando seu olhar encontrou o de Pac, precisando desviar o olhar. Seus olhos acabaram pousando na decoração mais próxima — pequenos sinos dourados pendurados em fitas vermelhas acima da porta da casa do papai noel, tremulando suavemente ao redor da brisa que os atingia. Uma bela decoração. Definitivamente. Ele não estava olhando para aquilo só porque estava com vergonha de olhar para Pac de novo, não. Claro que não.

 

Pac, por sua vez, comprimiu os lábios, um tom igualmente vermelho em suas bochechas. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Por outro lado, Bagi e Ramón mal conseguiam segurar suas risadas.

 

“Ei- Ramón…”, Fit tentou dizer algo, mas sua voz falhou ligeiramente.

 

“Na verdade, eu acho que ele tem razão.”, Bagi interrompeu, sorrindo abertamente, “Que criança inteligente.”, completou, dando tapinhas na cabeça de Ramón, que parecia orgulhoso.

 

O momento de leve constrangimento logo se dissolveu em outras conversas. Felizmente, Bagi não demorou a mudar de assunto, passando a contar a Fit sobre as pequenas novidades, mencionando todas as pequenas mudanças que ocorreram no parque nos dias em que ele esteve ausente. Enquanto isso, Pac começou a acrescentar alguns dos detalhes que Bagi deixava de fora sem querer, e respondia às perguntas curiosas que Ramón fazia ocasionalmente.

 

Mas talvez, apenas talvez, Pac estivesse olhando para Fit com mais frequência do que deveria, observando como o rubor enfeitava suas bochechas de um jeito adorável, suas pequenas cicatrizes e marcas de nascença adornando sua pele de uma maneira tão unicamente bonita e atraente que fazia Pac perder o fôlego. E talvez Fit estivesse fazendo o mesmo, olhando na direção de Pac sempre que ele estava distraído, uma pontada de nervosismo se espalhando pelo seu peito. Mas, infelizmente, os dois eram lentos demais para perceber que estavam se entreolhando esse tempo todo.

 

Depois de alguns minutos de conversa, Bagi olhou para Pac e sugeriu, muito casualmente. “Por que você não fica aqui comigo enquanto o Fit e o Ramón vão ver como que tá a casa do Papai Noel por dentro? Tenho umas coisas pra organizar e você pode me ajudar, sabe? Usar esses braços pra algo útil.”

 

“E aí, Ramón? Quer dar uma olhada?”, e Fit mal teve tempo de sequer terminar sua pergunta, pois Ramon já havia acenado animadamente e se apressado em direção ao interior da casa.

 

“Vocês podem nos dizer se tiverem qualquer sugestão!”, Bagi disse, fechando a porta atrás deles. Então ela se virou. Silêncio por alguns instantes. Pac já sabia que algo estava por vir. “E aí? Como tá indo com o Fit?”

 

Pac suspirou exasperado, cobrindo o rosto com as mãos. Ele já sabia que seria questionado pelo resto da tarde. “Bagi, você fez isso de propósito né.”

 

Bagi arqueou as sobrancelhas, “O que? Eu? De propósito?”, a brasileira enfatizou cada palavra dramaticamente, de um modo que fez Pac revirar os olhos.

 

“Ah, bem. Uma grande coincidência você estar do outro lado do parque logo no dia em que o Fit traz o nenê dele.”

 

“Como que eu iria saber? Na real, mesmo se eu soubesse, eu realmente ia deixar vocês a sós.”, Bagi se defendeu, mas cruzou os braços e inclinou a cabeça, claramente se divertindo com as reações nervosas de Pac. “E você não respondeu! Como tá indo?”

 

“Eu… não sei. Bem, eu acho.”, Pac deu de ombros. “No dia vinte e cinco a gente vai dar uma… saidinha.”

 

Bagi olhou surpresa. “Isso é daqui há três dias! E você nem contou!”

 

“É- Mas… N-nem é nada demais, sabe? A gente só vai tomar um chocolate quente depois da… situação dele como papai Noel. Nada demais.”

 

“Você é um pilantrinha, isso sim.”, Bagi disse com uma risada leve, mas logo sua expressão se suavizou. “Você parece feliz com ele.”

 

Pac parou por um instante. Ele sabia que Bagi tinha razão — claro, a brasileira não havia recebido o título de detetive à toa, e, de algum jeito, ela sempre parecia saber mais de sua vida amorosa do que ele próprio. 

 

 

Já fazia um tempo desde a última vez em que ele se sentiu assim. 

 

Claro, ele se recorda de ter se aproximado de Fit há alguns meses, durante o casamento platônico de Missa e Philza. Pac estava encarregado das decorações com Bagi; porém, enquanto ela escolhia as flores na floricultura de Tina — o que resultou nas duas se aproximando e ficando juntas — ele estava com Fit esse tempo todo. 

 

Fit, que havia se aproximado por ser o melhor amigo do casal — basicamente, o melhor amigo de Philza desde que o mundo é mundo — havia oferecido sua ajuda, e Pac apenas tinha pensado bem, pelo menos vai ser uma garantia a mais de que o casal vai gostar da decoração. Ele nem imaginava as coisas que iriam acontecer, as coisas que ele iria sentir nas próximas semanas.

 

Pac havia jogado alguns flertes leves, sem muita pretensão, apenas para ver como Fit reagiria a cada um deles. O rubor tímido em suas bochechas, o jeito adorável que ele desviava o olhar. Mas, no fundo, ele sabia que aquilo estava caminhando em direção a algo, algo que não consistia apenas em brincadeira. O que aconteceu foi que o casamento eventualmente veio e eles nunca mais mantiveram contato. Pac apenas imaginou que Fit não estivesse interessado; afinal, não havia sido nada além de flertes bobos, ou ao menos Pac presumiu que sim.

 

Porém, dessa vez parecia diferente, muito. O sentimento não havia ido tão longe quanto agora.

 

Havia uma profundidade a mais agora. Não era mais apenas sobre as reações adoráveis de Fit, ou o jeito engraçado em que ele gaguejava. Era mais sobre como estar perto dele parecia fácil, natural, como se eles fossem amigos, ou de certa forma, algo mais há anos. Era mais sobre como Pac se sentia menos perdido, menos sozinho.

 

Todos os seus relacionamentos anteriores haviam desmoronado de alguma forma. Ele era impulsivo, impaciente, e por vezes, nem sabia o que queria, o que deveria fazer. Porém, dessa vez com Fit as coisas pareciam diferentes, tudo parecia diferente. Simplesmente parecia mais fácil, mais certo, tudo parecia tão certo que o assustava.

 

Pac então deu de ombros novamente, cruzando os braços. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer no chão, mas ele sabia que Bagi ainda estava olhando para ele. “É… ele é legal.”

 

“Ele te apresentou o filho dele.”

 

“Eu sei.”

 

“E o filho dele gostou de você.”

 

Pac desviou o olhar, suas bochechas já estavam em um tom mais vibrante de vermelho, “Bagi, eu achei que você queria ajuda.”, rapidamente mudou de assunto, fazendo com que Bagi desse uma risada alta em resposta.

 

“Tá bom, vai. Me ajuda aqui então.”, ela disse, apontando para a placa de madeira que estava sobre a bancada. “É só pra sinalizar que aqui é a casa do papai noel, sabe? Mas não sou muito boa em lettering.”

 

Pac suspirou lentamente enquanto se movia para ajudar. Ele sentiu o ar frio preencher seus pulmões, mas não o ajudou muito a acalmar a maneira em que seus pensamentos giravam de maneira estonteante. Legal? Legal? Sério? Pac não seria capaz de admitir em voz alta — e ainda mais para a Bagi, por mais que ele a amasse incondicionalmente —, mas sabe que o Fit é muito, muito mais do que simplesmente alguém legal para ele. Fit o faz sentir-se bem, confiante, seguro… várias coisas que, por muito tempo, ele não sentia, não se permitia sentir, por puro medo de acabar se apegando a uma ideia que não chegaria em lugar algum. Um simples ele é legal não chegava nem perto de descrever o que ele sentia por Fit.

 

 

Depois que Fit e Ramón voltam do interior da casa do Papai Noel, eles têm apenas algumas pequenas sugestões para o interior da casa. Então, Pac e Bagi resolvem ajudar a tornar algumas ideias do pequeno em realidade.

 

Logo no mesmo instante em que as sugestões apareceram, foi Bagi quem propôs que eles fizessem as mudanças de imediato. Mas então, com um sorriso bastante conhecedor, ela se retirou com uma desculpa qualquer — a qual não foi nem um pouco convincente, por sinal —, alegando que precisava urgentemente terminar algo que estava inacabado em outra área do parque, deixando Fit e Pac sozinhos com Ramón.

 

Felizmente, eram apenas ideias simples, nada realmente trabalhoso — só uns pequenos ajustes aqui e ali que Ramón descreveu com empolgação. Pac e Fit concordaram com um sorriso, organizando-se para dividir as tarefas enquanto trabalhavam juntos para dar vida às ideias do garotinho. O Ramónzinho estava tão determinado e concentrado que mal parava para descansar, mas, conforme eles trabalhavam, o tempo passava e estava ficando cada vez mais tarde.

 

 

Lentamente, o céu foi escurecendo até que a lua pendesse lá no alto, brilhando junto às estrelas. Num instante, e antes que eles sequer percebessem, já era fim de tarde. Fit adoraria prolongar sua estadia, mas ainda tinha que fazer o jantar e colocar seu filho para dormir. De qualquer forma, o pequeno Ramón já estava visivelmente cansado, tendo gasto todas as suas energias durante a tarde.

 

“Acho que já está na hora de ir embora, Ramón. Está ficando tarde.”, Fit disse.

 

E Ramón franziu o cenho em resposta, cruzando os braços. “Mas eu nem terminei de ajudar ainda…”

 

“Que bom que você seja tão determinado, Ramónzinho, mas já é hora de descansar, tudo bem? Você fez muito mais do que qualquer um aqui hoje.”, Pac disse, se abaixando perto do garoto.

 

Ramón hesitou por um momento, olhando entre Fit e Pac como se ponderasse uma última tentativa de argumentar, pequenas engrenagens parecendo girar em sua mente, pensando em um jeito de convencê-los. Mas quando Fit o pegou no colo com cuidado, segurando-o com firmeza e carinho ao mesmo tempo, o garoto relaxou quase que instantaneamente, sua cabeça repousando no ombro do pai, enquanto os olhinhos se fechavam.

 

Fit suspirou baixinho, um misto de cansaço e gratidão no gesto, antes de erguer os olhos para Pac. “Obrigado por hoje, Pac. Você não tem ideia.”

 

“Não tem problema, foi um dia divertido.”, deu de ombros. Ele não admitiria em voz alta, mas hoje foi facilmente um dos melhores dias de sua vida. “Provavelmente um dos mais legais que eu já tive aqui, então eu devo te agradecer também.”

 

Fit sorriu em resposta, confirmando com a cabeça. E Pac, como o homem gentil que era, fez questão de os acompanhar até a saída, um silêncio confortável pairando entre eles durante a curta caminhada até o portão.

 

“Boa noite, Fit, boa noite, Ramón!”, ele se despediu uma última vez.

 

“Boa noite, Pac. Até amanhã.”

 

Ramón, apesar de estar quase dormindo, acenou de volta para Pac, com os olhinhos quase completamente fechados de sono. Fit, no entanto, demorou um segundo a mais, seus olhos encontrando os de Pac, que brilhavam de forma intensa, rivalizando com as estrelas no céu acima deles, exalando compreensão — e Fit jamais se cansaria de se perder naqueles olhos, jamais se cansaria da maneira como aqueles olhos o faziam sentir-se tão acolhido —, antes de se virar em direção ao carro. No carro, Fit cuidadosamente ajeitou Ramón no banco de trás e afivelou o cinto de segurança antes de fechar a porta.

 

A viagem de volta para casa seguiu bastante tranquila, com Fit manobrando devagar pelos bairros com a rádio, como sempre, tocando uma música qualquer em volume baixo.

 

No meio da viagem, Ramón acordou, esfregando os olhinhos, “Olá, dorminhoco. Se divertiu? Gostou de ajudar com as decorações?”, Fit perguntou, desviando o olhar para o retrovisor por um instante.

 

Ramón concordou silenciosamente com a cabeça, dando um sorriso sincero, “O Pac é muito legal.”, disse, em sua voz ainda sonolenta.

 

A menção ao nome fez o coração de Fit vacilar por um instante, mas ele se recompôs rápido, seus olhos agora focados na estrada. “Ele é, né?”

 

“Você gosta dele?”

 

Ah. Ele já deveria ter esperado essa pergunta. Fit pigarreou, ajustando a postura, “Bem- É- sim. Por que não gostaria? Ele é uma boa pessoa, um cara legal.”, Silêncio veio logo em seguida, e Fit sabia exatamente o por quê. Ramón o encarava pelo retrovisor com uma expressão impaciente e braços cruzados. Ele então cedeu com um suspiro antes de prosseguir. “Eu sei que você quis dizer de outro jeito, mas-”

 

“Todo mundo já percebeu!”, Ramón o interrompeu, gesticulando dramaticamente.

 

“Todo mundo?!”, Fit repetiu, incrédulo. Ele ficou quieto por alguns segundos, sua mente procurando por palavras, mas tudo o que saiu foi um pequeno riso nervoso. “É- eu não tenho certeza. No dia vinte e cinco vamos… conversar. Eu acredito.”

 

Ramón assentiu lentamente, como se estivesse processando a resposta, mas não demorou a inclinar-se um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. “Posso ir pra casa do tio Tubbo depois do evento então?”

 

“Você não precisa, mas se quiser.”

 

“Preciso sim. Pra deixar vocês dois a sós.”

 

“Ramón!”, Fit chamou, precisando respirar fundo antes de prosseguir. Ele então ouviu risadinhas baixas no banco de trás, seu filho estava claramente divertido com a situação. “Não precisa, já disse. Não vai ser nada espetacular. Só um café, e é isso…”

 

Ramón deu de ombros em resposta, claramente nem um pouco convencido por suas palavras. Fit sabia que aquilo era uma batalha perdida, então resolveu não argumentar, o carro ficando em um silêncio confortável pelo resto da viagem.

 

Para ser sincero, Ramón meio que tinha razão, e Fit sabia muito bem disso. Ele e Pac estavam, de certa forma, se aproximando de algo. Fit apenas não sabia se estava devidamente pronto para nomear o que eles tinham ainda. Não por falta de vontade, mas sim por cautela. Ramón, antes de qualquer coisa, era sua prioridade número um, e qualquer passo em falso poderia desestabilizar a vida tranquila que eles haviam construído juntos. Pac genuinamente parecia alguém bom — com ele, com Ramón, com tudo ao redor, simplesmente perfeito —, mas isso não tornava a decisão menos difícil. Fit precisava de tempo. Ele precisava levar a situação à passos de bebê, senão enlouqueceria. Mais do que ele já estava enlouquecendo. Muitas coisas aconteceram nesses últimos dias.

 

O encontro o fará decidir se ele realmente deve considerar ou não — apesar dele claramente já estar inclinado a sim, considerar eles como um algo, um futuro casal, ou o que quer que o destino esteja planejando para eles. Além disso, Ramón felizmente já parece bastante confortável com a possibilidade, o que é um grande passo na direção certa.

 

 

Não demorou muito para que a casa deles surgisse no horizonte, e logo eles entraram pela garagem. Ramón saiu do carro com sua energia habitual, já correndo para o banheiro para trocar suas roupas, enquanto Fit ainda saía do carro e respirava fundo antes de segui-lo.

 

A rotina noturna seguiu tranquila, como sempre, apenas banho, jantar leve e, finalmente, a música de ninar de Ramón. Fit sentou ao lado da cama do filho, cantarolando a melodia com a voz baixa e suave, os dedos deslizando pelos cachinhos de Ramón até que ele adormecesse.

 

 

Quando Fit, enfim, se deitou confortavelmente na cama, pronto para encerrar o dia, seus pensamentos começaram a vagar. Amanhã seria o dia do tal treinamento que lhe foi mencionado — o qual ele nem sabe do que se trata, nem como vai funcionar — e, inevitavelmente, logo chegaria, também, o grande dia do evento. Fit não sabia se estava pronto — na verdade, ele tinha quase certeza de que não, não está pronto —, porém, se havia conseguido chegar até aqui, não adiantaria pensar em desistir a essa altura.

 

Qualquer que fosse o andamento das coisas, ele só esperava que tudo corresse bem.