Chapter Text
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De todas as coisas que Hua Cheng se imaginava fazendo durante a sua primeira manhã com seu amado, se dobrando ao meio rindo dele enquanto vapor praticamente irrompia das orelhas de Xie Lian não estava na lista.
“Gege-”
“Isso não era pra ser tão engraçado assim! San Lang, não ria!”
“Eu nunca riria de Sua Alteza,” ele ofegou, cerrando seu olho para Xie Lian na luz do sol. Era uma manhã fria, mas fresca e iluminada, e Xie Lian estava se preocupando daquela maneira que ele achava irresistível.
“Você não vai contar a ninguém, né? Eu não quero ser visto como desrespeitoso.”
Hua Cheng sentiu os músculos de seu novo corpo espasmarem com encanto.
“A única pessoa que poderia ser ofendida com certeza não vai ser. Eu tenho certeza que a Mestra da Chuva iria achar isso bem divertido,” tranquilizou Hua Cheng.
“Sério?” Xie Lian perguntou esperançosamente.
“Ela veio para visitar? Você contou a ela?”
Horror se espalhou pela face de Xie Lian. “Ela apenas visitou uma vez. E eu não tinha juntado dinheiro suficiente para o boi naquele tempo, mas eu nunca poderia dizer a ela agora! Eu realmente ia pensar em outro nome só que esse meio que.. pegou.”
Hua Cheng piscou na direção dele, endireitando-se. Juntando o dinheiro dele para comprar um boi.
Uma coisa que a Mestra da Chuva provavelmente poderia conceder facilmente com um estalar de dedos. Dinheiro que Xie Lian de nenhuma maneira precisava ter juntado, devido aos milhões de méritos que ele tinha de barras de ouro enfiadas no templo PuQi. Que tolo lindo, perfeito e teimoso.
“Entendo,” ele disse. “Bem, seu segredo está a salvo comigo.”
Xie Lian fungou, observando o boi, o qual estava alegremente enfiado em sua refeição matinal de grãos mistos. “Tudo bem então,” ele disse, aproximando-se furtivamente para começar a escovar os pelos do animal.
A besta estúpida grunhiu e fez sons de apreciação. Claramente ele gostava de uma boa escovada, a qual- julgando pelo brilho em seu pelo- ele recebia todo dia.
Hua Cheng sufocou outra risada, encostando-se contra o cercado, ouvindo as baforadas e mugidos felizes do boi quando Xie Lian coçou ele em um ponto particularmente bom.
“Aww. Esse é um excelente Mestre de Grãos,” ele murmurou.
Realmente um nome excepcional.
***
Hua Cheng majoritariamente tem se comportado desde seu retorno na noite anterior, ajudando Xie Lian com as tarefas matinais e raramente provocando-o durante o tempo. Xie Lian graciosamente evitou o tópico de onde Hua Cheng esteve, ou melhor, o que exatamente ele tinha sido.
Ele preferia não falar do ano passado com ninguém; pior ainda se fosse seu amado. Mas isso não tinha sido totalmente… prazeroso.
Isso não importava agora. Ele estava de volta onde ele deveria estar: de pé entre seu amor e qualquer um que sequer desejasse machucá-lo.
Ainda assim. Ele estava envergonhado.
Ele sentiu o tempo passar, mas não era capaz de fazer nada sobre isso. Ele não era um homem paciente. Nunca foi. Porém sentir seu poder espiritual retornar tão tortuosamente devagar, todos os átomos do próprio corpo se regenerando tão infinitamente, era mais do que frustrante. Era a mais pura agonia.
Ele tinha demorado demais. Xie Lian teve de esperar um ano inteiro por ele. Tanto tempo que ele teve pesadelos na primeira noite a qual ele pensou que estava sozinho novamente. Ele não tinha piscado depois que aquilo aconteceu. Como ele ousava? Ele tinha o deixado na mão.
Outro ano de Oficiais Celestiais imbecis e condescendentes fazendo comentários sarcásticos, insultando ele, tirando sarro dele, traindo ele. Ele conhecia as maneiras deles.
Eles seriam cautelosos perto de Xie Lian agora, depois do que ele fez. De quem ele derrotou. Contudo eles não o respeitavam. Eles estariam encontrando razões para dizer que eram as falhas de Jun Wu, não o poder de Xie Lian, que fizeram isso acontecer.
Na realidade, ele estava ciente que se regenerar depois de ser destruído como Wú Míng tinha custado… bem, ele não podia dizer exatamente quantos. Muitos anos. Séculos, talvez? Mas isso estava no passado. Agora era o presente.
Ele era um dos últimos dois Supremos Reis Fantasmas não suprimidos embaixo de uma montanha. E enquanto ele sabia que uma batalha contra Água Negra seria ao menos interessante, ambos sabiam exatamente quem venceria.
Jun Wu, tanto como ele mesmo ou como a Calamidade de Branco, era mais próximo de Hua Cheng no quesito poder, mas ainda não era um empate. Hua Cheng poderia ter feito um trabalho melhor fazendo ele se arrepender de sua existência quando eles se enfrentaram no Monte Tonglu, mas sinceramente, ele estava guardando sua energia.
Ele nunca pretendia derrotar Jun Wu. Sua prioridade eram os grilhões amaldiçoados. Seu amado nunca poderia estar a salvo enquanto estivesse aprisionado por eles.
E é claro, uma vez que eles estivessem quebrados… Jun Wu nunca teria uma chance. Depois de tudo, é por isso que ele os colocou em Xie Lian em primeiro lugar.
Ele não era arrogante. Era um fato básico que só havia um ser vivo no mundo que poderia aguentar uma luta contra ele com toda força e vencer, e esse era seu amor.
O que poderia o segundo ser mais poderoso no mundo fazer, então, senão servir e proteger ele? Aqueles imbecis inúteis que se autodeclararam ‘Deuses Marciais’ dificilmente poderiam fazê-lo.
Lang Qianqiu era muito mais pomposo do que capaz. Pei Ming estava muito ocupado caçando mulheres (enquanto elas não fossem mais inteligentes que ele, ou seja, elas mal tinham dominado a arte de enfeite permanente).
E os outros… Quan Yizhen podia perder um debate para uma beringela com um rosto esculpido, e Hua Cheng preferia ceder o controle da Cidade Fantasma para Cuo Cuo do que depender de Mu Qing e Feng Xin.
Contudo, Os Deuses Marciais eram uma refutação de cinco indivíduos da ideia de que apenas pessoas excepcionais poderiam ascender, porque todos eles eram tão ridiculamente medíocres que era uma questão de como eles não se sentavam em suas espadas acidentalmente. Embora Quan Yizhen deve ter feito isso pelo menos uma vez.
E em todo caso. Ele ainda tinha contas para acertar com Mu Qing e Feng Xin.
Ele tinha ao menos feito isso claro para os fantasmas da cidade que eles deveriam ficar de olho em Xie Lian, e checá-lo, caso ele fique longe por algum tempo.
Não que eles precisassem de encorajamento. Porém ultimamente, ele não podia depender de ninguém a não ser de si mesmo. O que é exatamente o que fez ser muito pior ele ter falhado com seu amado. Novamente.
“...San Lang? Você está se sentindo bem?” veio a pergunta, quando Xie Lian pausou seus movimentos de escovar.
Hua Cheng se compôs. “É claro, gege. Eu estou com você.”
E ali estava. Aquele sorriso tímido, aquele piscar constrangido, aquela coçadinha na cabeça, só para ter alguma coisa para ocupar as mãos. Só serviu para adicionar um talo de feno na cabeça dele.
Xie Lian era o ser humano mais bonito que poderia ter, e iria sempre, viver. “Você estava perdido em algum lugar” ele disse, os olhos piscando de volta curiosamente.
Hua Cheng se forçou a se manter indiferente. “Perdão, gege. Eu estou totalmente presente com você.”
Xie Lian inclinou a cabeça, o talo de feno balançando na brisa. “Se você precisar ir-”
“Não. E se eu for, você vai vir comigo.”
Xie Lian bufou em descrença. “Oh, agora eu vou?!”
“Eu insisto.”
“E o que aconteceria se eu tivesse minhas próprias coisas para fazer?”
“Então esse servente patético vai esperar, solitário e abandonado.”
Xie Lian fechou os olhos em irritação. Oh, Céus e Inferno. Ele o amava tanto quando ele fazia aquilo. Para outros, ele era sempre educado e gentil. Irritação visível era um privilégio imensurável para ver na face dele.
“Gege não há nenhum lugar que eu precise estar além do-”
Xie Lian se moveu muito subitamente. Hua Cheng observou-o tropeçar em sua direção, quase não entendendo o que estava acontecendo até que-
Chu. Lábios quentes pressionavam contra os seus por uma fração de segundo, e então tinha acabado. Xie Lian se abaixou das pontas de seus pés e fixou seu olhar no pescoço de Hua Cheng, bochechas se avermelhando.
Hua Cheng abriu sua boca, e fechou-a novamente.
“Eu-”
“Mghhh” disse Xie Lian, cobrindo seu rosto.
“Sua Alteza?” ele perguntou maravilhado.
“Não me chame assim,” ele choramingou por entre seus dedos.
Hua Cheng sentiu outro espasmo em seu peito, mas ele realmente não deveria rir do seu amor assim-
“Gege,” ele engasgou. “Você queria me beijar?”
“Frnghhh,” respondeu Xie Lian.
Era uma coisa boa que Hua Cheng não precisava realmente respirar.
Sufocando suas risadas, ele ergueu suas mãos para puxar as de Xie Lian para longe de seu rosto. Ele não se moveu. Ele era excepcionalmente forte quando ele queria ser. Ou melhor, quando ele se deixava ser.
As orelhas de Xie Lian estavam muito rosadas.
“Gege?” ele riu. “Eu gostei bastante. Por que você não tira as mãos do seu rosto e me beija novamente?”
Um pequeno expirar envergonhado.
“Eu…Eu não sou bom nisso.” veio a voz abafada.
Hua Cheng ergueu seu olhar para os céus. Ele estava passando por outra tribulação? Porque ele sentia que estava. Ele cerrou os olhos para o azul. Os céus podiam se fuder.
“Bem, eu não acho, gege. Mas se você quiser praticar, eu estou, como sempre, ao seu dispor.”
Xie Lian murmurou algo que soou como “blargh”, que ele tomou como significado que ele estava aberto à ideia.
Hua Cheng puxou as mãos dele novamente. Xie Lian o deixou dessa vez.
Hua Cheng inspecionou o rosto dele. Acanhado e mortificado e naquele tom de rosa que o torturava.
Ele era ambicioso, antes. Qualquer oportunidade para sentir o sabor dos lábios de Xie Lian, sob qualquer circunstância, ele agarrou de novo e de novo, convencido no momento que Xie Lian iria descobrir o seu segredo e banir seu eu depravado e indigno para sempre.
Porém agora, as coisas eram diferentes. Xie Lian sabia. Ele tinha visto a Caverna dos 10.000 Deuses e, impossivelmente, ainda não virou as costas.
Hua Cheng ainda queria Xie Lian, em qualquer maneira que ele podia tê-lo, mas… ele não podia mais pensar sobre isso de uma perspectiva egoísta. Não é necessário nenhum desejo desesperado de satisfação diante da aniquilação certa.
Ele estava de volta, então agora, seus desejos não eram importantes. Ele tinha que fazer o que era melhor para a segurança de Xie Lian. O que significava não levar a confiança dele por garantida. E, independentemente do quão difícil, aquilo significava fazer as coisas no tempo de Xie Lian, não no seu próprio.
Talvez, depois de mais 800 anos, Xie Lian iria finalmente iria deixar ele apertar o-
“San Lang?”
“Mmm? Você está querendo tentar de novo? Eu vou ficar bem paradinho dessa vez, agora que eu estou preparado.”
A língua rosadinha atirou para fora, umedecendo o lábio inferior dele. Hua Cheng segurou o olhar dele. Bem devagar, Xie Lian pareceu ajustar seus ombros, reunir sua coragem, e começou a se erguer nas pontas dos pés-
“Sua Alteza?” veio o grito.
Hua Cheng sentiu irritação instantaneamente se apoçar em seu peito. Ele conhecia aquela voz. Ele iria gostar muito de descer o murro no dono daquela voz.
Hua Cheng relutantemente abaixou suas mãos ao mesmo tempo que Xie Lian olhou através de seu ombro in horror, olhos se arregalando e instantaneamente ficando mais… formal. Agradável.
Hua Cheng admirava sua dedicação para ser uma pessoa muito mais gentil do que quase todo mundo merecia, mas ele gostava do Xie Lian de verdade. Que era difícil. E teimoso. E recusava a se submeter às vontades de ninguém além das dele.
“Mu Qing! Feng Xin!” cuspiu Xie Lian, pulando para longe de Hua Cheng.
Hua Cheng manteve suas costas viradas teimosamente, revirando os olhos. Pelo barulho de esmagamento na estrada de terra, parecia que eles estavam subindo a colina às pressas. O que significava que que eles iriam ter visto ele por volta deeeeeee-
“Sua alteza, o que você… ah,” disse Feng Xin.
-Agora. Sim. Eles o avistaram.
“San Lang,” Xie Lian sussurrou, olhos alternando entre seu rosto e os dois idiotas depois de seus ombros.
Hua Cheng suspirou e se virou, se apoiando no poste da cerca com seus antebraços. Aqui estavam eles. Ainda existindo. Que infortúnio.
Eles pareciam os mesmos. Arrogantes, orgulhosos e muito enamorados com a ideia de serem Oficiais Celestiais para duas pessoas que não mereciam ser no mínimo.
“Fu Yao, Nan Feng! A que devemos essa interrupção indesejada?”
Os olhos deles se cerraram identicamente, braços se cruzando identicamente. Honestamente, se tivesse uma maneira de só consolidar esses dois em uma só pessoa, iria poupar o tempo de-
“Então é verdade.” murmurou… um deles. Quem liga.
Hua Cheng aguardou, o rosto impassível. Ele realmente não podia escolher quem ele odiava mais. O general esfregador de chãos orgulhoso, o qual abandonou seu amado primeiro, ou o santinho que abandonou Xie Lian quando ele mais precisou por uma esposa e criança que nem queriam nada com ele.
O que era, objetivamente, a única parte engraçada.
“Ah, sim, San Lang retornou,” disse Xie Lian bruscamente. Hua Cheng avistou a sombra de um sorriso sufocado nele enquanto ele dizia as palavras. “Ele está… uh, bem, nós estamos alimentando o boi,” ele finalizou, gesticulando em direção ao Mestre de Grãos, que estava agora com as orelhas enfiadas no fundo de seu cocho.
Os lábios de Hua Cheng se contraíram.
Mu Qing e Feng Xin trocaram olhares um com o outro.
“Você desligou o canal de comunicação espiritual,” disse Mu Qing de forma acusatória.
Hua Cheng desviou para Xie Lian com um olhar interessado. Ele sabia que ele tinha desligado o canal noite passada, mas ele tinha assumido que ele teria ligado novamente por agora, sendo o Deus atencioso que ele era.
“Ahaha, bem sim… é que eu esqueci, nós estávamos bem ocupados…”
“Alimentando um boi?” Feng Xin perguntou duvidando.
Hua Cheng gostava de encará-los, um de cada vez, por tempo demais. Eles sempre percebiam. E quando eles começavam a ficar desconfortáveis e pareciam prestes a abrir a boca, ele iria trocar. Era entretenimento infinito.
“Ah sim, bem, eu queria um pouco de tempo, eh, para nós mesm- porque, tem alguma coisa acontecendo?”
Outra troca de olhares. Ligeiramente culpada desta vez. Ooh. Bom.
“Bem, não, nós só… pensamos que deveríamos dar uma olhada em você…” Mu Qing disse, desviando o olhar, os olhos voltando para Hua Cheng a cada poucos segundos.
“Vocês não estavam querendo dar uma olhada em mim? Fui eu quem desintegrei. Eu estou melhor que nunca agora, obrigado por perguntar,” disse Hua Cheng levianamente, batucando seus dedos no poste de feno.
Um músculo na mandíbula de Mu Qing saltou enquanto Feng Xin tossiu.
Xie Lian, como sempre, quebrou a tensão com um sorriso gracioso. “Bem, nós estamos ambos bem. Como você pode ver.”
“Você deveria religar a matriz de comunicação. Para você ser acessível,” disse Feng Xin, os olhos também alternando para Hua Cheng ocasionalmente
“Ah, Feng Xin. Nem estou nela a todo momento, fico sobrecarregado se ficar com ela ligada o tempo todo! Eu sou apenas um Deus da Sucata apesar de tudo; não tenho muitas orações para lidar, só uma boa, quantidade confortável,” disse Xie Lian humildemente.
“Se vocês estavam tão preocupados com o Xie Lian, por que não vieram na noite passada?” perguntou Hua Cheng, erguendo uma sobrancelha.
Mu Qing gaguejou por um momento enquanto os olhos de Feng Xin se arregalaram. Excelente.
“Nós… nós não queríamos presenciar…” disse Mu Qing, desviando o olhar e encarando o chão.
“Presenciar o que, Feng Xin?” perguntou Hua Cheng inocentemente.
Os punhos de Mu Qing se fecharam. “Você!-”
Ele também gostava de mistura-los. Isso transmitia o quanto ele não ligava para a existência deles.
“Eu te disse que eles estariam bem!” veio a voz de Pei Ming subindo a colina, parecendo casual de alguma maneira apesar de sua armadura brilhante cobrindo todo seu corpo, como se tivesse acabado de dar vontade de brotar por um pouco de luz do sol e ar fresco.
Hua Cheng fechou seu olho e suspirou.
“Ah, General Pei! Eu… olha eu não pretendia causar nenhum pânico,” disse Xie Lian, parecendo ter sido pego com a guarda baixa e girando sua cabeça para olhar entre todos eles. “Eu deveria ter dado alguns detalhes a mais na matriz,” ele murmurou para si mesmo.
Pei Ming caminhou alegremente e assentiu para Hua Cheng, mãos apoiadas nos quadris e apertando os olhos no sol da manhã.
“Você está de volta, então.”
“Astuto como sempre,” resmungou Hua Cheng.
Pei Ming o ignorou, esticando o pescoço para dar uma olhada no jardim com interesse, assentindo em cumprimento para uma das galinhas quando ela ciscou perto dos pés dele.
“Eu disse para eles não virem, sabe, imaginei que eles se deparassem com algo se eles viessem, mas eles não escutam. Mas vocês estão de pé e por aí! E vestidos!” ele disse, assentindo positivamente para a quantidade de roupas em Xie Lian e Hua Cheng.
“Eu- nós- isso não-” Xie Lian engasgou.
“Não podemos deixar o boi ficar com fome agora, podemos?” disse Hua Cheng.
Pei Ming piscou surpreso. “Preciso admitir, eu tenho estado por aí a algum tempo, mas eu nunca ouvi isso antes,” ele disse, um olhar perplexo, mas apreciativo no rosto.
Xie Lian os observou. “General Pei, o que você quer dizer?”
Pei Ming abriu a boca, mas parou assim que Hua Cheng apontou preguiçosamente atrás de si.
“Oh! Você quis dizer que realmente tem um boi!” Pei Ming disse surpreso. Ele riu silenciosamente para si mesmo. “Desculpe, pensei que com certeza você estaria falando sobre a noite de sua reunião. Mas eu fico com mulheres como você sabe, então eu supus que tinham algumas expressões que eu não teria ouvido falar…” ele disse, o olhar vidrado, pensativo enquanto acariciava o próprio queixo.
Hua Cheng balançou a cabeça incrédulo. Essas três pessoas recebiam orações. Diariamente. Pedindo ajuda.
“De qualquer forma,” disse Pei Ming levianamente, desviando o olhar para Feng Xin e Mu Qing. “É melhor nós irmos, né? Estamos ocupados, reuniões importantes e etcétera,” ele disse, apontando o dedão para o céu.
“Que reuniões importantes são essas?” perguntou Hua Cheng inocentemente. Ele também tem estado ‘ocupado’. ‘Alimentando o boi’. Não tinha checado com Água Negra, ou Yin Yu, ou qualquer outro espião por informações nos céus.
Ele realmente não se importava com o que estava acontecendo agora, mas esses três se intrometendo na outrora manhã pacífica era um lembrete infeliz do fato de que o mundo ainda girava, e estava sendo majoritariamente girado por imbecis.
“Ah…bem, você sabe,” disse Pei Ming desconfortável, olhando de soslaio para Mu Qing e Feng Xin. Hua Cheng sorriu. Ele podia imaginar sobre o que as reuniões súbitas no céu tratavam.
“Algo com o que eu possa ajudar?” ele disse, com seu sorriso que transmitia a maior vontade de ajudar. Ele não podia esperar para começar a espreguiçar as pernas com os termos que os céus aceitaram no Monte Tonglu. Ele iria balançar aquele sino constantemente.
“Eu acho que você já fez o suficiente,” murmurou Feng Xin.
“Correto, Mu Qing. Eu já fiz o suficiente. Literalmente, ajudando vocês a salvarem os céus,” disse Hua Cheng docilmente. “E eu devo dizer, é muito bom ver você e Feng Xin se dando tão harmoniosamente bem juntos. Obviamente vocês dois devem realmente terem feito as pazes no ano em que eu estive ausente!”
Ambos saltaram como se estivessem sido queimados, evitando contato visual de toda forma possível.
Hua Cheng tinha uma meta de fazê-los saírem no murro nos próximos cinco minutos. Não precisaria de muitos empurrões.
“Agora,” Pei Ming disse vagamente, olhos focados carinhosamente de volta nas galinhas. “Genuinamente é melhor que nós voltemos. Não há necessidade de vermos o que esses dois vão fazer ao longo do dia.”
“Oh, Mestre da Chuva, que surpresa agradável!” exclamou Hua Cheng, olhando através do ombro de Pei Ming. Previsivelmente, Pei Ming estremeceu e pulou para longe, longe da vista alheia.
Ótimo. Aqueles como aquele palhaço não deveriam nunca voltar para envergonhar Sua Alteza. Pei Ming virou novamente para encará-lo, embora Xie Lian, que ainda estava em um tom de vermelho vibrante, riu baixinho e então fingiu que era uma tosse.
“Tem certeza que não quer subir e dar uma olhada?” perguntou Mu Qing, mandíbula tensa quando encarou Xie Lian. “Tem muita coisa acontecendo, como você sabe. Você pode querer prestar mais atenção.”
Hua Cheng tencionou. Como ele se atrevia-
“Eu estou confortável com como eu escolhi fazer o meu trabalho, Mu Qing,” disse Xie Lian de maneira leviana, mas com aquele tom firme que ele usava. Os dedos de Hua Cheng se apertaram. Ótimo. Eles precisam ser lembrados.
Honestamente, o que ele não daria para estrangular rapidamente esses dois possessivos, condescentes, preocupados-por-pura-culpa sinicos. Pei Ming provavelmente o deixaria por um minuto ou dois antes de interromper.
Mas não. Ele não tinha voltado nem por um dia inteiro. Ele precisava se manter bem comportado.
Feng Xin usou sua carranca usual. “Eu realmente recomendaria ascender rapidamente por um dia ou dois para dar uma olhada… logo. O mais cedo que você conseguir.”
“Os Céus estão realmente tão perdidos sem o Príncipe Herdeiro para resolver tudo, toda vez?” Hua Cheng perguntou suavemente. “Eu tinha pensado que na ausência de Jun Wu talvez vocês três pudessem se intrometer e deslumbrar todos com suas habilidades?”
“Você -” Feng Xin se contraiu.
“Tudo bem, tudo bem,” disse Xie Lian, acenando suas mãos apaziguadamente. “Se vocês realmente acham que é um problema, então eu posso ascender por um tempinho.”
As sobrancelhas de Hua Cheng se contrairam, antes de pacificar sua face. Feng Xin estava observando-o, parecendo ligeiramente convencido.
“Gege, se você não quer ir, você não precisa,” adicionou Hua Cheng quietamente.
Xie Lian fez uma careta. “Eu… Eu vou subir só por algumas horas. Checar a bagunça e acalmar a todos. Afinal, quem é melhor para falar que você não está aprontando nada do que eu?”
Hua Cheng fungou e cruzou os braços. Ele queria muito estar aprontando alguma coisa.
“Resolvido, devemos então?” disse Pei Ming bruscamente, se endireitando depois de abaixar-se para tentar acariciar as galinhas, sem sucesso.
“Sim,” disseram Feng Xin e Mu Qing ao mesmo tempo, antes de se encararem irritados ao mesmo tempo. Ooh. Talvez a briga pudesse começar nos próximos dois minutos, se ele conseguisse dar só mais um empurrãozinho-
“Tudo bem, vamos,” disse Xie Lian. Ele olhou para Hua Cheng, lábios separados em questionamento.
“Oh, não se preocupe gege. Eu vou me manter entretido.”
Xie Lian assentiu, aliviado. “Eu…sim. Eu concluí que você iria. Eu voltarei logo. Pro Jantar?”
“É claro. Mas você deve ser o chef no fogão, é claro. Eu nunca poderia chegar aos pés.”
Xie Lian o deu aquele sorrisinho tímido, coçando a cabeça e olhando para ele daquela maneira que ele olhava quando esquecia que olhar para outra pessoa era uma opção. Hua Cheng sentiu seu estômago ferver.
Pei Ming tossiu. “Nós não nos juntaremos. Só para deixar claro.”
“Por que você acharia que foi convidado?” disse Hua Cheng suavemente, ainda mantendo o olhar fixo em Xie Lian.
“Hmm. Bem, isso funciona também,” disse Pei Ming começando a subir no céu com sua espada. “Até nos encontrarmos novamente, então, Chuva de Sangue que busca a Flor.”
“Sinta-se à vontade para levar o tempo que precisar nesse caso.” disse Hua Cheng conforme os outros começaram a ascender. Ele deu uma piscadinha para Xie Lian e ignorou o resto. Eles desapareceram rápido o suficiente, deixando para trás poeira levantada e algumas galinhas assustadas. O Mestre dos Grãos deu um mugido ligeiramente melancólico.
Hua Cheng o olhou de soslaio. “Eu também,” ele concordou.
***
Hua Cheng realmente se manteve ocupado. Ele raramente podia ficar deprimido, afinal. Ele era um Supremo Rei Fantasma. Com uma reputação terrível, cuidadosamente cultivada. Ele era um dos assuntos sussurrados apressadamente nos corredores do Céu nesse mesmo momento.
Seria extremamente triste para ele ficar sentado, olhando emburrado para as galinhas e chutando pedras, esperando Xie Lian voltar.
Por mais das duas horas que ele fez isso, é claro.
Então ele fez suas próprias verificações.
“Você retornou,” assentiu Yin Yu, adentrando depois que uma borboleta prateada o convocou para o Templo Qiandeng.
“Você está vivo,” respondeu Hua Cheng preguiçosamente, folheando seus maços de papel na mesa, cobertos por prática de caligrafia. Yin Yu não havia movido-os. Ótimo. Ele gostava muito de praticar sua caligrafia.
“Devo preparar uma festa?” perguntou Yin Yu. “Uma celebração na Casa de Apostas, ou talvez um festival na rua para a cidade?”
“Ambas,” disse Hua Cheng decisivamente. “Em alguns dias. Embora eu provavelmente só envie um clone. Eu tenho lugares mais importantes para estar.” ele acrescentou, pensando num tapete de dormir empoeirado.
“Deve ser suficiente.”
“Alguma coisa de interessante enquanto eu estive ausente?”
“Ninguém ousaria ser interessante enquanto você estivesse ausente,” disse Yin Yu, face impassível.
Hua Cheng assentiu curtamente. “Ótimo.” Ele observou o templo, as paredes vermelhas e brilhantes, ornamentos dourados. “Eu espero que eu consiga trazer Sua Alteza para a Mansão Paraíso logo, logo. Faça os preparativos . O conforto dele é a prioridade.”
“É claro.”
“Agora, me deixe por dentro,” ele disse, se virando para se sentar em seu trono.
“Como você manda.”
“Água Negra?”
“Se mantendo discreto. Deprimido. Até para ele. Parece um pouco abandonado após a colheita de seus planos não ser tão deliciosa como ele esperava”
“Mmm. Previsível. E onde está aquele fruto que sobrou?”
“Shi Qingxuan ainda está… bem.”
“Cabeça do bando dos mendigos?”
“De fato,” respondeu Yin Yu. “Ele não pode deixar de ser popular mesmo sem sapatos.”
“Mmm,” disse Hua Cheng, encarando o horizonte.
Ele tinha subestimado Shi Qingxuan, cabeça de vento como ele era. Ele não era capaz de ser astuto, mas… influencia era sua própria maneira de astúcia, e Shi Qingxuan ainda era o melhor nisso, mesmo no banimento. Se alguém pudesse ascender duas vezes novamente, esse alguém seria ele.
Embora somente duas vezes. Seu amor era o único capaz de fazê-lo três vezes. Ele iria manter um olho grudado em Shi Qingxuan. Xie Lian gostava bastante daquele burro idiota, e Hua Cheng tolerava Água Negra, então por hora, ambos deveriam estar vivos.
O que significava… bem, por mais entretido que ele se manteria assistindo a veia da testa de Água Negra pular, ele talvez devesse conversar com ele sobre os planos de uma possível segundo ascensão de Shi Qingxuan eventualmente. Além do plano de tentar afogar a Capital Celestial em um vórtice oceânico em um dos típicos ataques de fúria dele.
“Quão alta está a dívida de Água Negra, aproveitando o gancho?”
“Se estivermos considerando os favores que você concedeu a ele no seu passeio de vingança, adicionando os interesses, menos quando afundamos a estátua no território dele, a dívida dele é aproximadamente o valor dos cofres do antigo Mestre da Água.”
Hua Cheng ergueu suas sobrancelhas. “No total?”
“Ah, não. Mensalmente.”
“Sim, isso faz mais sentido. E a vaga deixada pelo antigo Mestre da Água?”
“Ninguém foi apontado como o novo Mestre da Água ainda.”
“E quando você diz ninguém…”
“Água Negra tem realmente estado… devorando aqueles que pedem por isso, previsivelmente.”
“Naturalmente.”
Hua Cheng duvidava que tivesse algum crente do mestre da água sobrando depois do pequeno acidente com a reputação de Água Negra torcendo sua cabeça.
Hua Cheng não admirava muitas qualidades nas pessoas, mas ele precisava dar esse mérito para He Xuan. A vingança dele realmente foi uma grande jogada. Paciência. Uma virtude que ele reconhecia o valor, embora não praticasse.
“Tudo bem então,” ele expirou. “Com todas as oferendas, parece que Água Negra talvez realmente tenha formas de começar a pagar as dívidas dele de novo. Eu vou mandar meus cumprimentos a ele. Ele provavelmente estará no Recanto de Apostas ao pôr do sol gastando tudo assim que ele ouvir que tem apostas a serem feitas.”
Yin Yu mudou de posição. “Ele governa os mares agora.”
“Sempre governou. Ele escolheu o território de Shi Wudu só para se tornar poderoso o suficiente para tomar isso dele. Ele só estava esperando.”
“Sim, mas agora… todos sabem. E ninguém vai assumir a posição nos céus. Até a posição de Mestre da Terra ainda está vaga. Eles estão com medo dele. Ele matou dois Oficiais Celestiais.”
“E nós estamos muito satisfeitos por ele ter alcançado os sonhos de morte dele.”
“Você acha que ele vai ficar ambicioso?”
“E com ambicioso você se refere de uma forma que se torne uma preocupação para mim? Não.”
“Por que não?”
“A motivação dele.”
“O contrato de vocês… agora que os termos foram completos, esse é o fim, não? Você não acha que ele quer expandir?”
“Eu acho que ele não tem ideia do que ele quer agora. E por conta disso, ele nunca terá uma chance de me derrotar. Eu realmente sei o que eu quero.” ele disse simplesmente, a cabeça girando em torno daquela manta para se deitar.
Yin Yu assentiu sobriamente. “Sim.” Ele fez uma pausa. “Mas você sabe, como eu sei, que os Céus não vão tolerar estarem com medo de não só um, mas de dois reis fantasma. Não por muito tempo.”
Hua Cheng não disse nada. Yin Yu estava certo.
Ele assentiu. “Agora. O que eu estou realmente interessado em ouvir.” perguntou.
“Ah, sim. Ela.” Yin Yu respirou fundo. “Ela ainda está sendo punida com pergaminhos sem fim. Ainda ciente de tudo.”
“Ainda subestimada?”
“De fato. É de conhecimento geral, é claro, que ela que desvendou aquilo tudo. Mas muitos não parecem ter entendido exatamente o que isso significa?”
“Ling Wen é o verdadeiro Imperador por trás das sombras.”
“Ela sempre foi. É assim que ela prefere. Pei Ming sabe, é claro. A Mestra da Chuva, os outros Deuses Marciais, eles entendem o quão poderosa ela é, mas ainda…”
“Eu imagino que os dois Tumores que restaram sejam menos próximos do que eram quando eram três. Podemos confiar que ela não tem mais nenhum segredo escondido então, por agora?”
“Hmm. Ela prejudicou os principais crentes, mas também se tornou impenetrável para chantagens agora que todos sabem a verdade. Se era tudo isso que ela tinha, ela vai se manter discreta por um tempo. Se não…”
Hua Cheng assentiu. Quem quer que sonhe que a punição ideal para ela seria continuar tendo acesso ilimitado para as informações por trás de tudo era claramente alguém com o intelecto debilitado.
“Isso não vai durar muito. Alguém vai fazer uma jogada logo, logo. Nossas fontes?”
“Números significamente reduzidos, obviamente, agora não tem nenhum Água Negra em todo lugar.”
“Mmm,” grunhiu Hua Cheng. Água Negra tinha sido realmente de grande ajuda com seus clones de ‘oficiais celestiais não identificados’.
“Mas…” Yin Yu hesitou.
“Mas?” demandou Hua Cheng.
“Sua reputação depois do que aconteceu no Monte Tonglu. Tem resultado em muitos novos recrutas, eu tenho certeza que você entende.”
“Ah, eu vejo. Então nós temos uma lista dos mais propensos à traição nos Céus, não temos?”
“É claro. E aqueles que não gostam de como a brisa está soprando.”
“A brisa está soprando em todas as direções agora. E nenhum oficial celestial que queira trocar informações comigo pode ser confiável.”
“Não. Mas alguns podem ser úteis.”
Hua Cheng zombou. “Lixos.”
“Aproveitando que você comentou…”
“Ah, por favor não me diga…”
“Qi Rong ainda está… coagulando. Supervisionado por Lang Qianqiu. Gu Zi está crescendo bem. Aprendendo etiqueta, cultivação, e espadas. Lang Qianqiu o trata bem. Ele tem carinho pela criança.”
Hua Cheng beliscou o espaço entre as sobrancelhas. As coisas idiotas que pessoas ‘honestas’ fazem. Qi Rong realmente era o glóbulo de vomito mais sortudo no universo.
“Os outros selvagens?”
“Poucos números após a reabertura do Monte Tonglu, como você pode imaginar.”
“Quantos sobraram?”
“Eu não tenho certeza dos números, mas não mais do que oito fazendo a presença deles óbvia, incluindo Qi Rong.”
“Hmm. Os oito mais fortes, de outra forma eles não teriam sobrevivido.”
“De fato. Os Ceifadores da Noite estão todos vivos, é claro. Ábaco Vermelho está usando os truques usuais dela, e Uivo Selvagem está particularmente ocupado já que é época de caça, embora nada importante para tomar nota. Ke Mo ainda está preso nos Céus, e de Banyue eu não ouvi uma palavra.”
Ele assentiu, e encarou Yin Yu.
“E você?”
Yin Yu ergueu uma sobrancelha. “Eu, Chengzhu?”
“A poeira abaixou. O que significa que é hora de alguém agitá-la novamente. O que você quer agora?”
Yin Yu abaixou o olhar. “Não os Céus,” ele disse, ligeiramente amargo.
“Você é melhor que eles,” disse Hua Cheng, balançando a mão com desdém. “Mas eu só estou perguntando. Você já sabe? Quando você vai me trair e por que?”
Hua Cheng sabia que Yin Yu gostava bastante de administrar uma rede de espionagem composta por ex-colegas. Especialmente aqueles que o trataram com desdém.
Se sentir bem com a desgraça alheia era um motivador poderoso para ele, mesmo após o que acabou sendo uma revelação pública e embaraçosa com Quan Yizhen, e a pequena questão de ter ficado morto por um tempo.
Yin Yu expirou devagar. “Eu não selecionei um dia nem uma razão ainda, Chengzhu.”
“Mmm. Ainda decidindo então. Tenha certeza de não pesar a mão quando você o fizer.”
Yin Yu curvou sua cabeça. “Por agora, eu estou estranhamente mais contente sendo seu empregador do que eu estava com a possessão de meus próprios templos.”
“Ótimo. Mantenha em mente que você não vai gostar de ter Água Negra como chefe. Irremediavelmente sentimental, ele vai roubar sua comida, e tudo sempre cheira a peixe.”
“Eu fui avisado.”
“Sim,” ele disse, o olho focado na borboleta que mostrava Xie Lian pousando no lado de fora do chalé enquanto o sol começava a se pôr. Xie Lian ergueu seus dedos para a borboleta, sorrindo. “Olá,” ele sussurrou, “Você não é linda! Eu estou muito feliz que você está bem,” A perspectiva da borboleta estava olhando para ele por baixo, claramente tendo pousado em seu dedo. Os lábios de Hua Cheng se curvaram para cima.
“Lugares para ir?”
“É o que parece.”
“Então eu arranjarei tudo.”
“Aproveite as festividades. Talvez nós daremos uma olhadinha. E você deveria se permitir uma bebida ou duas. Relaxe pelo menos uma vez, Yin Yu.”
Yin Yu suspirou silenciosamente. “Não é um ponto forte meu.”
“Não. Mas um pouco de hedonismo foi conquistado, você não acha? Você pode trazer Quan Yizhen.”
A expressão de Yin Yu mudou instantaneamente. “Por que eu faria isso?” ele disse, o rosto esboçando cuidado.
“Você não voltou a ficar inteiro sozinho, né? Ele te manteve seguro?”
Yin Yu estava muito tenso. “Nós…Eu ainda estou…tendo meus desentendimentos com ele.”
“Mmm,” disse Hua Cheng, deixando aquilo de lado. “Bem, eu vou ver você quando algo der errado, ou quando algo der certo.”
Yin Yu se curvou, e saiu.
Hua Cheng nunca precisou de uma matriz encurtadora de distâncias, não mais. Todo fantasma sabia, sentia em sua alma, exatamente onde suas cinzas estavam.
Ele tinha desperdiçado tanto tempo procurando pelo seu amado. Tanto tempo. Era uma alívio, quando Xie Lian colocou o anel pendurado ao redor de seu pescoço, sabendo que nunca iria perdê-lo de novo.
Assim que se pôs de pé, uma onda de… alguma coisa o atingiu, e ele vacilou. Cambaleou, quase. O sentimento o sobrecarrega, restringindo seus sentidos a um estreito, apertado túnel.
Ele não precisava respirar, mas isso parecia como ficar sem oxigênio. Como se fosse lentamente sugado do cômodo, pouco a pouco, até que ele foi deixado ofegante por-
E acabou tão rápido quanto começou. Ele se endireitou, checando seus meridianos. Certo, tudo certo. E’Ming vibrou em preocupação. “Quieto,” ele murmurou, e E’Ming zumbiu em uma maneira ligeiramente petulante.
Seu olho escaneou o cômodo, checando se estava sozinho, aliviado que Yin Yu não estava ali para ver aquilo acontecer.
Ele tateou os pontos de acupuntura em seu corpo, abrindo para mais energia circular, preferencialmente permitindo que mais energia acumule.
Ele ignorou aquele sentimento de antes. A última coisa que ele estava interessado no seu primeiro dia de volta era alguma coisa relacionada a…não. Aquela parte da sua vida já tinha passado agora. Pensar sobre o Guarda Cinza tendia a ter um efeito atrativo, e ele não era quem ele queria ter que lidar agora.
Ele apertou os punhos. Ele não deveria estar surpreso.
Ele não estava se sentindo em sua melhor forma desde que retornou. Seu corpo se consolidou cerca de uma semana atrás, mas naquele tempo ele tinha que ganhar energia suficiente para andar, falar, viajar e outras coisas assim. Assim que ele o fez, ele voltou para casa para o seu amor. Porém ele podia ter talvez esperado mais alguns dias.
Ele tinha sido estúpido. Seu poder ia retornar logo, naturalmente, mas enquanto isso, era melhor não mencionar isso para Xie Lian. Até agora, Sua alteza estava satisfeito por ter ele de volta. Ele não queria colocar nenhuma ressalva sobre isso.
Ele tinha se sentido bem no chalé. Era provavelmente só esse novo corpo. Sempre tinham problemas iniciais em manter uma nova forma. Ele engoliu os pensamentos de que talvez, dessa vez, esse corpo não seria capaz de manter a mesma quantidade de qi que antes. Isso era impensável. Ele se focou no que precisava fazer.
Acalmando seus pensamentos, ele juntou sua energia, e pisou em direção da essência familiar do anel, como uma corda puxando sua âncora.
***
Hua Cheng ainda bateu na porta do chalé, uma questão de educação. Entretanto, quando Xie Lian abriu-a com um olhar esperançoso em seu rosto, a porta soltou um rangido e guincho ensurdecedor assim que se soltou das dobradiças e permaneceu pendurada enquanto Xie Lian ‘Oh!’ e ‘Ah,’ e ‘Oh deus’.
Hua Cheng sorriu sarcasticamente. “Parece que você precisa de uma porta nova, gege.”
“Eu- bem, sim, essa não é muito boa, portas realmente não são meu ponto forte…”
Hua Cheng puxou a porta completamente das dobradiças com uma mão, jogando-a de lado descuidadamente. “Vai ser uma boa lenha, assim nada é desperdiçado.”
“Isso é o que eu sempre digo!” Xie Lian transbordou de entusiasmo, olhos se apertando em crescentes.
Ele começou a trabalhar imediatamente, agachado por cima da porta enquanto Xie Lian pairava no fundo.
“A reunião foi boa?” Hua Cheng perguntou.
“Oh, sim, isso… bem eles tinham algumas… preocupações, mas eu tentei o meu melhor para acalmá-los.”
“Você acha que eu deveria falar alguma coisa? Para tranquilizá-los?” ele provocou.
Xie Lian cruzou os braços e bateu o pé. “Você acha que consegue se comportar?”
Os lábios de Hua Cheng se contraíram. “Bem, isso depende do quão irritantes eles são.”
“Eu não acho.”
“Mmm.”
Ele puxou algumas das tábuas que ainda estavam boas da antiga porta. Ele podia planificá-las para ter bordas mais suaves, e reutilizá-las.
“E você?”
“Eu?”
“É, você não estava aqui quando eu voltei…” ele disse, a voz anormal.
Hua Cheng olhou para cima.
Xie Lian estava cuidadosamente inspecionando a sujeira.
Fantasmas e carniçais, ele era tão estúpido. Um dia e ela já tinha machucado seu amor.
Hua Cheng abriu a matriz de comunicação privada deles, e falou por ela. “Gege. Eu não devia ter saído sem te dizer onde eu ia. Eu não vou fazer isso novamente. Eu não vou te deixar.”
Os olhos de Xie Lian se voltaram para ele, surpreso. “Eu… bem, está tudo bem,” veio sua voz pela matriz.
Os olhos de Xie Lian se abaixaram de novo. Seu rosto era cauteloso. Hua Cheng odiava isso. Seu coração afundou. O que ele estava pensando, deixando para trás apenas uma borboleta.
Ele se levantou e foi até ele, segurando suas mãos. “Eu estava tentando não ser…ambicioso.”
Xie Lian franziu as sobrancelhas, olhos ainda abaixados. “Ambicioso?” Ele piscou. “Você não está sendo ambicioso. Eu sempre quero saber se você está bem. Eu só estava preocupado. Eu não sabia quanto tempo você ficaria longe,” ele disse fracamente, ainda na matriz.
Hua Cheng suspirou.
Ele não sabia por que ele se importava tanto agora. Ele estava feliz sendo grudento e irritante antes. Quando ele pensava que ele seria chutado para longe eventualmente, então ele tentaria ver Xie Lian tanto quanto possível.
Era fácil de justificar, convencer a si mesmo que era só para a proteção de Xie Lian. Agora, os grilhões desapareceram. Sua motivação parecia menos clara.
Hua Cheng esboçou um sorriso inalterado, enquanto se chingava por dentro.
“Não é grande coisa. Eu vi a borboleta depois de tudo! Então eu não me preocupei tanto assim,” disse Xie Lian, todo otimismo falso.
Os dedos de Hua Cheng se contraíram. Falso otimismo era para outras pessoas.
“Gege, brigue comigo.”
Os olhos de Xie Lian desviaram para os seus em surpresa.
“Eh?” ele disse, em voz alta dessa vez.
“Brigue comigo.” disse Hua Cheng em voz alta, copiando Xie Lian. “Eu te machuquei. Você deveria me repreender.”
Xie Lian abriu e fechou a boca. “Eu- eu não quero brigar com você. Você explicou e está tudo bem. De qualquer forma, você pode talvez… me mostrar como fazer a porta? Eu gostaria de aprender como devo fazê-las agora.”
Hua Cheng percebeu a mudança de assunto. A qual Xie Lian teve que fazer porque Hua Cheng o deixou desconfortável. Depois de aliviar o que ele passou desaparecendo sem deixar rastros.
Porque ele estava mal-humorado e entediado e muito estressado para parar e pensar o que ele estava fazendo, então ele só se materializou na Cidade Fantasma e improvisou a partir dali.
Ele mostrou como construir a porta. E encaixá-la nas dobradiças. Ele não puxou mais nenhum assunto. Xie Lian queria seguir em frente, então eles iriam seguir em frente. Ele retirou tudo da cabeça e suprimiu.
Eventualmente, o sol estava se pondo quando eles terminaram de encaixar a porta. Xie Lian abriu e fechou a porta várias vezes em ecstasy. Ele entrou, e fechou a porta, então caminhou para fora e fechou a porta, e repetiu esse ciclo várias e várias vezes.
“Perfeito!” ele exclamou do lado de fora, a voz abafada. Hua Cheng sorriu indulgentemente.
“O que você quer para o jantar?” ele perguntou, adentrando o chalé.
“Oh, qualquer coisa que você fizer, gege.”
“Excelente.”
***
As panquecas ‘Toda Porta é um Novo Começo’ estavam certamente envolventes, até para a comida usual de Xie Lian.
Elas demoraram uma hora. Ele não tinha certeza se a intenção era que elas fossem panquecas, mas foi assim que elas terminaram de alguma forma, e considerando que elas adquiriram a forma de portas instáveis, Xie Lian estava extasiado.
Eles comeram amigavelmente na luz baixa do chalé. Rouye e E’Ming precisaram ser repreendidos por serem muito barulhentos, mas além disso, era uma noite pacífica. Hua Cheng deixou Xie Lian guiar as conversas. Ele parecia ter muitas coisas que queria dizer.
“Faz tanto tempo desde que alguém me ouviu” ele disse uma vez.
Hua Cheng estava acostumado a estar sozinho em sua devoção. Mas o que ele nunca se acostumou é como não fazia sentido.
Como alguém podia ser tão tolo ao ponto de não ver o que ele via em Xie Lian?
Como alguém podia não se devotar a alguém que era claramente o ser mais forte em todos os reinos, mas mais do que isso, era o mais gentil, o mais doce, e o melhor de todos?
Quem não iria querer se sentar, com o queixo apoiado na mão, e só ouvir a voz dele? Ouvir cada pensamento e reflexão. Todos eles eram sempre bons. Cada um deles.
Eventualmente, a noite chegaria ao fim, e eles se ajustaram um de frente pro outro no tapete de dormir.
“Eu tinha esquecido como era sorrir desse jeito por tanto tempo!” Xie Lian comentou alegremente, massageando as bochechas.
Hua Cheng sorriu logo após. “Tem alguma coisa em particular agradando Vossa Alteza?”
Xie Lian franziu os lábios. “Foi um bom dia,” ele disse.
“O que sobre ele você gostou mais, você diria?” ele disse, abertamente pescando elogios.
Xie Lian encarou-o atentamente. “San Lang,” ele advertiu, a voz ainda indulgente.
Hua Cheng bufou risadas pelo nariz. Xie Lian parecia cansado, e feliz. Relaxado. Hua Cheng tentou não se vangloriar demais.
“Eu concordo, gege. Um bom dia. Começou bem, pequena descida no meio, mas finalizou perfeito.”
“Mmm,” disse Xie Lian, com as pálpebras caindo.
Hua Cheng apertou ainda mais o cobertor de Xie Lian sobre os ombros dele.
Os olhos de Xie Lian piscaram lentamente se abrindo. “Obrigado,” ele murmurou.
“Está tudo bem.”
Xie Lian piscou. “Eu queria que tivéssemos só uma coberta,” ele murmurou distraidamente, pálpebras caindo novamente.
“Feito, gege,” disse Hua Cheng. “Eu vou costurá-las juntas amanhã.”
“Mmm,” ele disse novamente, olhos completamente fechados. “San Lang?”
“Gege.”
“Vamos ter mais um bom dia amanhã?”
“Eu sei que eu vou. Eu estou aqui com você.”
Xie Lian sorriu fracamente e adormeceu.
Hua Cheng observou seu rosto e o subir e descer do seu peito por um tempo, antes de cochilar ele mesmo.
Ele acordou de repente a noite. O de sempre. O templo, a espada perfurando seu amor de novo, de novo e de novo, 100 pessoas o traindo, Jun Wu o atormentando. Seus gritos, ele implorando por ajuda. Completamente incapaz de fazer nada. Somente assistir.
Às vezes ele era só um pequeno fogo fantasma novamente, às vezes ele era um supremo, só que paralisado. Não importava. Nunca importava. Ele nunca precisou ser muito criativo. A memória por si só era infinitamente pior do que qualquer coisa que o Mundo dos Sonhos pudesse conjurar.
Ele estava satisfeito, ao menos uma vez, que ele não precisava respirar. Menos barulho.
Xie Lian não tinha acordado, então ele cerrou os punhos e contou as respirações de Xie Lian até que ele se lembrou de que ele estava aqui com seu amor, e Xie Lian estava bem. Demorou um tempo.
Mas era por um bem maior. Não melhoraria em nada Xie Lian saber disso, ou ter o sono perturbado. Ele parecia tranquilo. Ele merecia dormir em paz.
***
Eles realmente tiveram outro dia bom. E o outro dia. E o dia depois desse.
Xie Lian acordou todas as manhãs e cutucou-lhe o rosto. Por insistência de Hua Cheng. Era muito importante que eles começassem o dia da maneira certa, e reafirmando para Xie Lian que ele era de fato real e estava aqui era a melhor maneira.
Eles alimentavam o Mestre de Grãos toda manhã, e as galinhas, as quais Hua Cheng nomeou Nan Feng e Fu Yao (“San LANG, você não deveria!”). Hua Cheng costurou os lençois juntos, e eles se enrolavam cada vez mais juntos a cada noite.
Xie Lian mostrou-lhe mais da montanha. Ela não parecia nada com o passado. Era agora apenas um refúgio pacífico, recentemente reflorestado. Havia um riacho que, aqui e ali, se aprofundava, formando pequenas poças.
Hua Cheng sugeriu que tomassem banho juntos, respingando um pouco de água em Xie Lian num momento de travessura, e Xie Lian retribuiu com mais água espirrada nele por dizer isso, para seu deleite.
Hua Cheng disse que Xie Lian já havia se banhado na frente dele antes e que não havia se incomodado, e então Xie Lian jogou ainda mais água nele por ter dito isso, porque isso foi quando Hua Cheng estava fingindo ser Lang Ying, e agora era muito diferente, obviamente.
Hua Cheng perguntou o porquê, e desviou de outra rajada de água.
Xie Lian indignado argumentou que Hua Cheng nunca havia se banhado na frente dele, então ele assentiu seriamente e concordou que era um bom ponto, e mergulhou na água gelada completamente vestido enquanto Xie Lian assistia boquiaberto.
Ele deu uma piscadinha, os pés tocando fundo. “Você estava me deixando molhado de qualquer maneira, gege.”
Os olhos de Xie Lian estavam arregalados. Até que se transformaram em determinação, e ele pulou junto. Hua Cheng deu uma risada rouca assistindo Xie Lian se jogar em sua direção e reclamar de como essa era uma péssima ideia.
Ele o observou reunindo coragem e tomando uma decisão, um rubor rosa tingindo suas bochechas e orelhas. Era uma visão maravilhosa, assistir Xie Lian decidir beijá-lo.
Ele o fez. Não apenas um encosto de lábios dessa vez. Ainda hesitante e indeciso e rápido demais, mas maravilhoso. Hua Cheng se conteve, considerando, mas eles estavam abraçados no riacho e Hua Cheng o segurava pela cintura, puxando-o para perto. Beija-lo era como ascender todas as vezes, mas ser beijado por ele era algo completamente diferente.
Xie Lian o olhou de cima a baixo, desconfiado, ofegante quando eles se separaram.
“San Lang?”
“Gege?”
“Sua…”
“Mmm?” ele perguntou, completamente consciente do por que ele estava parecendo constrangido.
“Você está aquecendo sua pele?”
Ah. Aparentemente ele percebeu a outra coisa.
“Só porque eu estou sempre tão frio, gege. É por isso que eu preciso de você por perto. Obrigado por manter esse indigno quente.”
Xie Lian bufou e reprimiu o sorriso. “Você é uma fornalha.”
“Eu posso mudar a temperatura para a de uma fonte termal, se gege preferir.”
“Isso não será necessário,” resmungou ele.
“Gege me prefere quente? Ou frio? Escolha uma temperatura.” ele provocou.
Xie Lian fixou o olhar, soando direto. “Eu prefiro San Lang do jeitinho que ele é,” ele disse simplesmente.
Hua Cheng fechou a boca. Ele nunca ia se acostumar com a maneira que Xie Lian às vezes conseguia o deixar sem palavras.
***
Eles se banhavam no riacho todo dia, e Xie Lian o beijava em um lugar novo todo dia: debaixo de uma árvore, na mesa, no tapete deles à noite. Ainda eram beijos rápidos, em que ele se afastava rapidamente e parecia envergonhado, mas Hua Cheng não se importava.
Xie Lian ia ter um brilho diferente nos olhos quando ele o fazia, como se ele estivesse prestes a pedir algo para Hua Cheng, mas desistisse da ideia.
Hua Cheng o deixou guardar seus pensamentos para si. Xie Lian iria pedir quando estivesse pronto, e só quando estivesse pronto. Não existia mais um Hua Cheng insistente e chorão. Ele tinha certeza sobre isso. Na maior parte do tempo.
Xie Lian ainda estava tímido ao ponto de manter suas calças e camiseta no riacho, mas Hua Cheng era menos tímido e tirou a camisa, notando com satisfação que a boca de Xie Lian ficou entreaberta e os olhos vidrados quando o fez.
No quinto, dia perfeito, eles voltaram para o chalé encharcados. Hua Cheng podia secar as roupas com um estalar de dedos, mas ele estava aproveitando o branco grudento das roupas de Xie Lian um pouco demais.
“San Lang,” repreendeu ele.
“Hmm?”
“Eu acabei de perguntar o que você queria para o jantar. Duas vezes.”
“Bolinhos,” ele murmurou, olhos fixos na…
“Mantou, então? Eu tenho alguns, mas nós comemos isso no almoço, você tem certeza? Não tem nada que você queira?” disse Xie Lian, distraído no que eles chegaram no chalé e ele esfregou a porta comprimentando-a, e adentrou.
Hua Cheng parou na soleira por um momento.
Xie Lian percebeu. “San Lang?”
“Bem,” ele disse delicadamente. “Tem alguns festejos acontecendo, agora. Na Cidade Fantasma.”
Os olhos de Xie Lian se arregalaram.
“Por que você não disse antes?!”
Hua Cheng continuou calado enquanto Xie Lian se agitava com as mãos para cima. “Nós deveríamos estar lá, o sol já se pôs, nós vamos nos atrasar!”
“Nós não poderíamos estar atrasados para algo que é comemorado em minha honra. Vai começar no momento que nós chegarmos. Mas nós não precisamos ir.”
“Porque nós não iríamos? Os cidadãos fantasma querem ver você!”
“Eu preferia mil vezes pular em uma água congelante com você do que ver meus cidadãos.”
Xie Lian zombou. “Nós podemos facilmente fazer ambos.”
Hua Cheng inclinou a cabeça. “Como você preferir. Vamos caminhar pela cidade, então.”
“Sim, vamos.” Xie Lian respondeu, sorrindo para ele. Hua Cheng devolveu o sorriso, enviando uma piscadinha para ele e o assistindo corar.
Xie Lian voltou-se para ele. “Podemos?”
“É claro. Depois de você, gege; Eu não iria querer te impedir de usar a porta,” ele disse, gesticulando. Xie Lian sempre parecia um pouco desanimado quando não era ele quem girava a nova maçaneta.”
Xie Lian riu abafado. “Tudo bem, então.”
Ele abriu a porta alegremente e entrou, já falando sobre as lanternas nas ruas, a animação e como seria divertido ver os cidadão fantasma novamente, sem acidentalmente incendiar nada desta vez, Ele estava realmente arrependido e prometeu que não aconteceria novamente.
Uma sensação quente. Ele olhou para baixo, surpreso. Xie Lian havia segurando sua mão.
Xie Lian olhou para ele, com um sorriso tímido, Apertou a mão de Hua Cheng e desceram a montanha juntos enquanto as estrelas começavam a brilhar lentamente, decidindo sem dizer uma palavra que fariam um caminho mais longo para deixar as roupas secarem.
***
Chapter 2: Guarda Cinza
Summary:
Xie Lian decide que um restaurante improvisado é uma boa ideia, um demônio estranho aparece com intenções desconhecidas e He Xuan retorna à Cidade Fantasma.
Notes:
Sem beta desta vez. Mais um capítulo e nós chegamos a um dos meus favoritos! Aproveitem e me deixem ssber nos comentários o que estão achando da história!
(See the end of the chapter for more notes.)
Chapter Text
Ao atravessarem os portões da Cidade Fantasma, Xie Lian e Hua Cheng passearam pela rua principal, viva e iluminada.
Eles ainda não tinham se soltado, embora Hua Cheng tenha feito algumas mudanças na caminhada. Ele usava uma pele diferente essa noite, a aparência jovial com a qual Xie Lian o conhecera. Aquela que lhe disse para chamá-lo de San Lang em um carroça rangente cheia de feno.
Xie Lian mantinha apreço por esta. Xie Lian sabia que Hua Cheng preferia não mostrar sua aparência verdadeira na frente de muitas pessoas. Embora, desde que havia conhecido aquela versão na Casa de Apostas, Hua Cheng parecia não ter problemas mostrando aquela pele uma vez que Xie Lian estivesse ao seu lado. Só de pensar nisso, seu coração palpitava.
Voltar ao Reino Fantasma foi maravilhoso.
Ele não o visitava desde que Hua Cheng tinha se dissipado, preferindo arrumar sua casa e esperar. Porém alguns dos residentes vez ou outra apareciam para tomar chá, trazendo geralmente caos e barulho e exclamando excessivamente sobre como era exótico comer arroz.
Xie Lian não era um tolo- ele sabia que Hua Cheng provavelmente disse a eles para visitarem- mas ele ainda apreciava a companhia de qualquer forma. Era sempre um bom lembrete a respeito das riquezas do mundo, e como ele, um simples coletor de sucata de 800 anos, ainda tinha muitas coisas novas e empolgantes para aprender e vivenciar.
Em muitas maneiras, o Reino Mortal podia ser um tanto… sem criatividade.
Havia um motivo para Xie Lian ter problemas de memória. Muitos de seus dias eram consumidos com as preocupações de qualquer ser humano: sobreviver. O desejo de continuar vivendo, apesar da garantia de que ninguém iria viver para sempre, até mesmo os deuses. Isso poderia se tornar monótono. De certa forma, parecia um desperdício de potencial.
O Reino Fantasmas, entretanto, era um excelente exemplo do que se podia fazer quando permanecer vivo deixava de ser o motivo da existência.
Era selvagem, e criativo, e engraçado, e indulgente; completamente de moderação. Não existia excesso nem falta de nada: seja perigo, comida, beleza, magia, feiura, violência, ganância, luxúria, raiva, tudo existia puramente por si só.
Essas coisas não eram necessárias, então, em vez disso, eram apreciadas. Afinal, alguém só poderia se tornar um fantasma se decidisse que havia algo mais importante que sobreviver.
Xie Lian não achava que fosse o inferno. Era mágico. Como poderia não ser? Com Hua Cheng no comando?
Ele ficou um pouco envergonhado com a forma que reagiu quando Hua Cheng voltou. Sabia que não precisava se preocupar e ser tão apegado. Sentia a falta dele. E não tinha dado conta que também sentia falta da Cidade Fantasma.
Não demorou muito para que os cidadãos os avistassem.
“É VERDADE! MEU LORDE! SUA SENHORIA! É O LORDE, VEJAM É O LORDE-”
“DEUSES PORCO E VÍSCERAS DE PORCO!!! É O CHENGZHU, O CHENGZHU REALMENTE VOLTOU-”
“ELE VOLTOU, ELE VOLTOU, VÁ PEGAR O DINHEIRO DAS APOSTAS!”
“O GRANDE TIO ESTÁ AQUI! É O AMIGO DO CHENGZHU! AQUELE COM O PÊNIS QUEBRADO-”
“COMO ASSIM VOCÊ GASTOU O DINHEIRO DA APOSTA!”
Formou-se uma multidão, com cotoveladas, empurrões, alguns com cascos e penas. Xie Lian avistou uma mulher-pelicano de três olhos e o açougueiro Zhu, com cabeça de javali, ambos que haviam o visitado. Ele curvou-se em saudação. Eles praticamente se prostraram sobre as pedras da calçada em reverência.
“GRANDE TIO, VOCÊ ESTÁ AQUI COM CHENGZHU, VOCÊS SE REENCONTRARAM-”
“O GRANDE TIO NOS CONHECE, VEJA, ELE NOS VIU, NÓS JÁ ESTIVEMOS NO PALÁCIO DELE, SOMOS AMIGOS PESSOAIS PRÓXIMOS-”
“Sim, sim,” Xie Lian riu. “Seu Lorde Chengzhu e eu estamos de volta, e é bom ver todos vocês!” ele olhou ao redor, feliz.
Hua Cheng os observou com indiferença, os braços cruzados. “Acho que pedi por um festival, não pedi?” disse ele, voz arqueada.
Um coro de “É CLARO” e “NADA MENOS QUE UMA SEMANA DE COMEMORAÇÕES, VOSSA SENHORIA!” preencheu o ar enquanto ainda mais cabeças, olhos e bicos surgiam das diversas barracas do mercado.
Hua Cheng olhou em volta, enquanto a multidão se aquietava.
“Minhas instruções foram claras. Este festival não é só para mim, é também para O Príncipe Herdeiro de Xianle. Ele receberá tudo o que desejar. Ele é meu convidado e será tratado como tal. Está entendido?”
Xie Lian engoliu em seco. A multidão assentiu e exclamou ansiosamente, gritando, gorjeando e cacarejando.
“Ótimo.” Hua Cheng ergueu uma sobrancelha, e a multidão se silenciou. “Então comemorem.”
A multidão explodiu em aplausos.
Hua Cheng o agarrou pela mão novamente, e eles seguiram com a onda de fantasmas entusiasmados que queriam oferecer comida, bebida, felicitações e todo tipo de coisa que nem mesmo seu estômago de ferro seria capaz de suportar.
Ele se perdeu em um turbilhão vertiginoso de cumprimentos e “GRANDE TIO, TEM CERTEZA QUE NÃO QUER ESTA POÇÃO PARA RESOLVER ESSE PROBLEMA PARA QUE VOCÊ E CHENGZHU POSSAM REALMENTE CONSUMAR-” e “ELE NÃO QUER ESSA BAGUNÇA GRUDENTA SEU IDIOTA-” e “SÊMEN DE TOURO É PARA SER GRUDENTO, SEU IMBECIL INUTIL, MORTAISS COMEM EU VI COM MEUS PRÓPRIOS OLHOS-”
Após seu oitavo “Hahaha, bem obrigado, isso parece adorável, mas eu não poderia de jeito nenhum-” Hua Cheng finalmente interveio.
“Caiam fora!” ordenou ele, e eles obedeceram.
Repentinamente livre da confusão ao redor, Xie Lian olhou para Hua Cheng enquanto ele os guiava com confiança em direção à loja habitual de “Delícias do Reino Mortal”.
Eles se sentaram na mesa perto da janela.
Xie Lian olhou duas vezes, surpreso ao perceber que a multidão não havia se dispersado, mas simplesmente se deslocado para se reunir do outro lado da rua, de forma que, teoricamente, poderia parecer uma reunião informal, se não fosse o fato de haver cerca de cem pessoas amontoadas em uma área com metade do tamanho da sua casa.
Era estranho ver centenas de seres fingindo, com toda determinação, que não estavam os observando. Alguns deles haviam se servido de bebidas e até pegado binóculos.
Hua Cheng seguiu o olhar dele e abriu a boca para claramente dizer a eles se mandarem de novo, mas Xie Lian negou com a cabeça. “Deixe eles,” disse ele baixinho. “Está tudo bem, e eles não querem causar nenhum mal a ninguém.” Os olhos de Hua Cheng se encontraram com os dele e seus lábios se curvaram num sorriso irônico. “Tudo bem. Mas eles ficarão aqui a noite toda se você deixar.”
“Não tem mais nada acontecendo?”
“Nós estamos acontecendo, para eles.”
“Eu quis dizer… vão ter jogos na Casa de Apostas, comida de rua e muita festa, correto?”
Hua Cheng apoiou o queixo nas mãos, olhando para ele. “Hum, se é isso que você deseja, gege.”
Xie Lian percebeu que, estranhamente, sentia falta do tapa olho de Hua Cheng. Era esquisito olhar nos dois olhos novamente. Hua Cheng tinha todas as expressões e travessuras que ele poderia desejar em um só olho. Xie Lian balançou a cabeça com carinho, enquanto o observava por baixo dos cílios pedir comida para eles.
Hua Cheng estava um pouco estranho. Na primeira noite ele parecia completamente normal. Porém continuava… Xie Lian não tinha certeza do que era. Seu olhar divagava às vezes. E seu rosto se tornava cauteloso em outras. Xie Lian pensou que talvez tivesse algo errado na Cidade Fantasma, mas ele também estava assim de manhã e antes de partir. Então, provavelmente não era isso.
Contudo, enquanto estavam sentados juntos, em um clima amigável, ele percebeu, aos poucos, que se algo estava errado…
Hua Cheng não lhe contou.
Se algo acontecesse… ele mentiria.
Ele não se importava muito com as pequenas mentiras, como quando ele fingiu ser Lang Ying, ou quando escondeu que eles já haviam se conhecido, ou quando fingiu não saber onde eles estavam para evitar a Caverna dos Dez Mil Deuses… Hua Cheng tinha seus motivos para isso.
Hua Cheng queria protegê-lo e ajudá-lo, e Xia Lian sabia que provavelmente teria reagido negativamente se recebesse todas essas informações de uma vez. Ele não mudaria nenhuma parte da história deles, incluindo as que nem sempre foram honestas. Mas agora…
Agora era diferente. Ele percebeu que aquilo o incomodava, a ideia de Hua Cheng estar mentindo para ele.
Ele queria saber o que estava errado. Queria saber o que Hua Cheng realmente queria e pensava. Ele não queria ser apaziguado, satisfeito, bajulado. Queria que Hua Cheng fosse apenas ele mesmo: orgulhoso, arrogante, rude, ciumento, rabugento, chorão, ligeiramente instável, belo e perfeito não…
Não esse cauteloso e reservado. Essa fachada era para outras pessoas.
Xie Lian reprimiu um suspiro. Isso era muito estranho. Como era possível amar alguém tão profundamente, completamente, e ainda assim sentir que houvessem partes da outra pessoa sobre as quais ele nem sabia como perguntar?
Na verdade, eles só se conheciam há algumas semanas, no total. Ele não tinha dúvidas sobre seus sentimentos, mas isso abalou um pouco sua confiança. Ele tinha muito a aprender sobre Hua Cheng e não fazia ideia de por onde começar. Quem ele tinha sido todos esses anos?
Xie Lian se repreendeu. Hua Cheng lhe diria o que quisesse, quando quisesse, no seu próprio tempo. Não estava em seu lugar exigir nada depois de tudo que Hua Cheng havia feito por ele. Hua Cheng merecia ser amado incondicionalmente. E Xie Lian o amava.
Ele simplesmente não havia encontrado uma maneira de… dizer isso a ele. Ou de fazê-lo acreditar quando dissesse. Hua Cheng sempre foi muito rígido consigo mesmo.
“Gege, está tudo bem?” perguntou Hua Cheng, com o queixo ainda apoiado nas mãos.
Xie Lian se endireitou. “Claro!” mentiu. “É que… essa comida mortal é um pouco… sem graça.”
Hua Cheng ergueu as sobrancelhas, olhando para o mingau picante. Estava vermelho vivo e o vapor por si só fez os olhos de Xie Lian lacrimejarem.
“Sem graça?”
“GRANDE TIO, O SENHOR DISSE QUE NÃO GOSTOU DA COMIDA?” gritou um dos moradores do outro lado da rua, que estava usando um aparelho auditivo.
“Ah… bem eu gosto de sabores bem fortes!” disse Xie Lian.
“O paladar do Grande Tio deve ser sublime! Este anfitrião indigno não teria a menor chance de se igualar!” disse o cozinheiro que havia servido o mingau de arroz e saído correndo apavorado para se juntar a multidão.
“Sua Alteza é um cozinheiro excepcional,” disse Hua Chen, “Ninguém teria a sorte de provar suas criações. Cada uma é única. Incomparável.”
A multidão irrompeu em murmúrios animados enquanto Xie Lian coçava a cabeça, envergonhado.
“Será que o Grande Tio não vai nos ensinar a fazer comida divina, digna da sua boca refinada? Vocês podem usar a minha barraca!”
“NÃO ELE PODE USAR A MINHA- EU TENHO AS MELHORES ENTRANHAS DE ENGUIA DE QUALQUER FORMA-”
“NÃO, A MINHA! NINGUÉM MAIS NO REINO FANTASMA POSSUI TESTÍCULOS MAIS FINOS-”
Xie Lian fez uma pausa. Essa era uma ideia interessante. Bem, não a parte dos testículos.
“Gege?”
“Hum,” disse ele, olhando para a multidão.
“No que você está pensando?”
“Bem, na verdade seria bem divertido, não acha? Sempre achei que seria divertido trabalhar em um restaurante! Mas com a minha sorte, ninguém nunca me deixou.”
Hua Cheng pareceu morder a parte interna da bochecha. “Um restaurante.”
“Sim. E você disse que também era meu festival.”
As sobrancelhas de Hua Cheng se contraíram. “Sim, eu disse” disse ele lentamente.
“Então, por que não se divertir um pouco?” disse Xie Lian animadamente. “Só por essa noite. Uma única vez. Para agradecer seus cidadãos pela paciência.”
Os lábios de Hua Cheng se contraíram levemente. “Eu não agradeço aos meus cidadãos. Eles tem sorte de permitir que suas almas miseráveis estejam nesta cidade.”
“Você não me engana, Saan Lang. Você gosta deles. E eu também! Então… vamos fazer algo por eles.”
“Nós dois?”
“Como eu poderia cozinhar sem meu assistente?”
Hua Cheng suspirou longamente, resignado. Para fazer drama.
“Tudo bem, então.”
Os olhos de Xie Lian se espremeram em meias-luas. “Maravilha. Vamos tomar posse dessa loja? Provavelmente tem todos os ingredientes com os quais estou… mais acostumado.”
“”Hum. Mas Gege pode ficar à vontade para me avisar se precisar de qualquer espécie de testículos.”
Xie Lian pigarreou. “Isso não será necessário.”
Hua Cheng assentiu com a cabeça e se virou para a janela. “Caiam fora e voltem em uma hora. O príncipe herdeiro usará esta loja para dar um banquete.”
A multidão explodiu em aplausos. Ele sentiu uma onda de entusiasmo.
Isso até que pode ser divertido!
***
Não era.
Após um tempo considerável, Xie Lian percebeu que ele tinha sido oferecido uma mão e quis o braço inteiro. É verdade que ele havia pegado emprestado o caldeirão gigante que o fantasma galinha normalmente cozinhava, então a quantidade não era um problema. No entanto, o ensopado estava com uma aparência… peculiar. Sua consistência oscilava entre concreto e tijolo em pó.
“Mais água!” Ele gritou freneticamente, enquanto Hua Cheng voltava, com uma aparência irritante, causalmente carregando um balde recentemente cheio.
“Vai ficar tudo bem, gege. Pense nisso como a pasta com a qual faremos o ensopado.”
“Não era para ser uma pasta.” ofegou Xie Lian enquanto tentava mexer a panela com uma colher de pau do tamanho de um remo. Hua Cheng despejou o conteúdo do balde na panela e moveu-se delicadamente para o lado para evitar as faíscas resultantes, voltando para trás de um Xie Lian suado.
Mãos o envolveram pela cintura. Ele ficou imóvel.
“Tem um cheiro bom,” disse Hua Cheng por trás dele, se engasgando um pouquinho.
“Sério?” disse Xie Lian esperançoso, inclinando a cabeça para se aconchegar sob o queixo de Hua Cheng enquanto seu coração acelerava.
“Sim. Vai ficar delicioso. E eles vão adorar tudo que você servir porque é você quem está servindo.”
Xie Lian emitiu um som na garganta e conteve a vontade de esconder o rosto no ombro de Hua Cheng. “Mas eu quero que eles gostem da comida, não que mintam na minha cara!”
Hua Cheng arregalou os olhos. “O que você quer dizer, gege? Sua Alteza não conseguiria servir uma refeição ruim nem se tentasse,” disse ele inocentemente.
Ele bufou. “San Lang, você está mentindo para mim. Você acha que não há nada que eu seja ruim? Nem mesmo cozinhar?”
Os olhos de Hua Cheng se arregalaram ainda mais. “Vossa alteza, você é o melhor cozinheiro. No mundo…”
Xie Lian cobriu a boca dele com a mão. Os olhos de Hua Cheng se voltaram para baixo, surpresos e divertidos ao ver a mão dele em sua boca. Xie Lian engoliu em seco e tentou não pensar em como os lábios de Hua Cheng eram macios. “Sem mentiras. Eu sei como é a minha comida.”
Ele tinha seus motivos. Os grilhões em seu pescoço sempre dificultavam o paladar. E mesmo que isso não fosse verdade, ele gostava de lembrar da mãe dessa forma. Ela sempre foi péssima na cozinha, mas só queria que as pessoas gostassem da comida. Ele gostava de sua comida. Só queria que outras pessoas também gostassem, como ela.
Ele retirou a mão da boca do outro. Hua Cheng deu-lhe um sorriso perigosamente doce e ergueu as mãos em sinal de rendição. Seu olhar era carinhoso e fixo. Xie Lian engoliu em seco, lembrando-se de tê-lo beijado na água e de como ele era gelado e quente ao mesmo tempo.
“Vamos acabar logo com isso", suspirou ele, baixando o olhar e desviando dos gêiseres termonucleares que aqueciam a panela.
***
Uma fila moderadamente violenta começava a se formar, serpenteando pela esquina (literalmente; havia uma cobra de verdade sibilando para todos na esquina). Xie Lian conseguia ouvir a gritaria e o caos do lado de fora da cozinha abafada e engoliu em seco. Hora de acabar logo com isso.
Ele ficou ali, enxugando a testa, observando o caldeirão. “Acho que é o melhor que dá para conseguir” disse ele melancolicamente. Era uma mistura de várias cores ao mesmo tempo, com manchas verde-escuras em meio ao marrom e amarelo brilhante e viscoso.
Os dedos de Hua Cheng roçaram sua cintura, pairando novamente atrás dele.
“Vai ficar tudo bem.” disse ele com firmeza. “Devo servir?”
“Suponho que sim. Será memorável, no mínimo.”
“Eles se sentem privilegiados só de poderem tocar em algo que você trabalhou.”
Xie Lian balançou a cabeça. “Não vamos dizer isso até sabermos que eles sobreviveram à noite,” disse ele, sombriamente.
Hua Cheng ergueu a mão e fez um gesto em direção ao caldeirão, que se levantou o e seguiu para fora. Xie Lian empilhou uma torre instável e ondulante de tigelas tão alta que parou e pensou: “Xie Lian você não consegue fazer isso.” até se lembrar se que havia pelo menos uma chance igual de não derrubá-las.
Ele saiu, sorrindo discretamente para si mesmo com a mudança em sua sorte. Ele só derrubou cinco.
A multidão estava faminta, figurativa e literalmente. Um coro de aplausos se formou enquanto eles se organizavam e Xie Lian se endireitou, enxugando as mãos no avental.
“GRANDE TIO, PERMITA-ME SER O PRIMEIRO A TER A HONRA-”
“DE JEITO NENHUM, SEU LADRÃO[1], NÃO DÊ ISSO A ELE, ELE ROUBA COISAS-”
“A esposa de Chengzhu definitivamente deveria nos escolher-”
“ESPOSA? USE SEUS OLHOS, ELE É UM HOMEM-”
“O eunuco de Chengzhu definitivamente deveria nos escolher-”
“Hahaha, pera aí!” riu Xie Lian sem jeito. “Tem o suficiente para todos, por favor mantenham a calma!”
“Talvez eu possa me oferecer para a primeira tentativa,” disse uma voz estranha e melodiosa.
Xie Lian sentiu, mais do que viu, Hua Cheng se mexer levemente para a esquerda. Manteve o rosto impassível, percebendo que a multidão havia se aquietado e aberto um pouco ao redor da figura.
Ele[2] se aproximava silenciosamente, com passos leves e ágeis. Era uma figura alta, quase humana de cabelos e membros longos, exceto pelo fato de seus membros serem cobertos por escamas; prateadas e reluzentes à luz das lanternas.
Seu rosto era angular e frio, os olhos escuros. O que os diferenciava completamente era o cabelo. Negro como ébano e caindo em cascata pelas costas, parecia um cabelo bonito de qualquer humano, não fosse o fato que… fluttuava. Movia-se lentamente, ondulando. Diferente do ritmo deles, como se estivesse debaixo d’água. Xie Lian tinha um conhecimento de mundo muito bom.
Era um demônio. Um demônio poderoso.
“Seja bem vindos de volta à cidade Fantasma, Suas respectivas Altezas[3].” disse ele, curvando-se.
Hua Cheng estava com os braços cruzados em sua pose casual de sempre, mas Xie Lian percebeu os dedos dele se apertando ao redor dos antebraços. “Sim. Cidade Fantasma. Não a Capital Demoníaca. Está aqui pela diversão e os jogos, não está, Guarda Cinza?”
Xie Lian observou o demônio com interesse. Demônios tipicamente não gostavam de… bem, ninguém, incluindo aqueles de sua própria espécie. Eles mantinham tudo para si mesmos, exceto quando tinha guerra para ser alimentada. Jogos e diversão não era mesmo o estilo deles.
“É claro,” ele disse de forma neutra.
“Tudo bem. De todas as maneiras, aproveite,” rebateu Hua Cheng docemente.
O demônio se virou para Xie Lian.
“Devo me introduzir, Sua Alteza? Eu me chamo Zhong Jianren.”
Xie Lian assentiu educadamente, percebendo o nome estranho, e se curvou. “Xie Lian.”
“Qual o nome dessa comida?”
“Ensopado Atrasado para a Fila,” respondeu Xie Lian. “E eu me desculpo, mas como o festival é na honra dele, a primeira experimentação só pode pertencer ao Lorde Chengzhu,” ele disse, desculpando-se, porém firme.
Hua Cheng sorriu, convencido e não quebrando contato visual com o demônio. Zhong Jianren inclinou sua cabeça, erguendo uma sobrancelha interessada ao que Xie Lian servia uma tigela a Hua Cheng. Ele cheirou o ensopado e engoliu. “Perfeito, gege,” disse Hua Cheng silenciosamente, apenas para ele. Xia Lian suprimiu um sorriso, e um arrepio.
Xie Lian serviu mais uma porção em uma tigela e entregou ao demônio.
Zhong Jianren inclinou a tigela e engoliu de uma só vez. A multidão ficou em silêncio, observando.
O demônio encarou a tigela vazia por um instante.
“Tem certeza que isso é uma invenção do Reino Mortal?”
Xie Lian engoliu em seco. “Hum… bem, tanto quanto possível,” disse ele, com um tom culpado. O demônio ainda não havia desmaiado. Isso já era alguma coisa.
Os olhos dele brilharam. “Acho que esta é a coisa mais deliciosa que já provei.”
“...” disse Xie Lian.
A fila vibrou, roncou e sibilou.
Hua Cheng sorriu sem humor. Xie Lian conhecia bem os sorrisos dele e sabia que aquele demônio realmente tinha conseguido irritá-lo.
“Claro que é,” disse ele levianamente, os olhos percorrendo a fila que se aproximava como se estivesse entediado, enquanto Xie Lian começava a servir mais porções nas tigelas.
“Qual a carne usada no ensopado, Sua Alteza?” continuou o demônio, os cabelos balançando levemente numa brisa que não existia.
Xie Lian piscou. “Hum, não tem carne nesse ensopado.”
“Sem carne?” murmuraram alguns descontentes.
“Bem, eu não queria comer os parentes de ninguém,” disse Xie Lian, propositalmente evitando contato visual com o açougueiro Zhu.
Silêncio.
Tosse.
“Isso é muito atencioso de sua parte, Alteza,” disse o demônio, com os olhos brilhando de divertimento.
Ahaha, bem, obrigado… diga-me, qual parte você achou que era carne?”
“Sem brigas na frente de Sua Alteza!” disse Hua Cheng irritado, enquanto a cobra parava, sentindo-se culpada, em sua tentativa de espremer até a morte a alma de um soldado de aparência lamentável.
“Perdoe-nos,” murmuraram ambos, desenrolando-se e assentindo um para o outro, concordando que continuariam mais tarde.
Hua Cheng voltou-se suavemente para o demônio.
“Posso confiar que você vai voltar ao seu respectivo reino esta noite?” perguntou ele com um tom de sarcasmo.
“Naturalmente.” Zhong Jianren fez uma reverência que pareceu um tanto zombeteira, embora a execução e a forma fossem tecnicamente impecáveis. Virou-se, com os cabelos flutuando atrás dele, e foi engolido pela folia nas ruas.
Hua Cheng o observou partir, o sorriso enfraquecendo por um instante.
***
Depois de servir ensopado para sabe-se lá quantos fantasmas e receber uma série de elogios, geralmente do tipo “Nunca provei comida mortal como ESTA” e “Grande tio, queria poder voltar à vida só para morrer novamente com uma mordida disso!” (aparentemente, esse último não era um insulto), Xie Lian e Hua Cheng seguiram para o Recanto de Apostas.
Xie Lian estava muito satisfeito. Ele sabia diferenciar elogios genuínos. E, por algum motivo, os fantasmas pareciam gostar de verdade da sua comida.
Ele tentou não dar muita importância a isso quando passaram por um fantasma que parecia estar saboreando um bastão de tanghulu feito de dedos humanos.
Xie Lian observava Hua Cheng com curiosidade enquanto caminhavam, de mãos dadas de uma maneira tão natural e casual que suas orelhas coraram. Ele quase não percebeu que havia segurado a mão dele quando já tinha feito. Simplesmente parecia certo.
“San Lang…” ele começou.
“Hn?” disse Hua Cheng, olhando ao redor enquanto caminhavam, absorvendo a folia.
A maioria dos fantasmas da cidade havia saído nas ruas, jogando dados, arremessando facas, barganhando, bebendo, fazendo malabarismo com cabeças e brigando alegremente enquanto eles passavam, sempre interrompendo suas atividades para dizer. “BEM-VINDO DE VOLTA, LORDE CHENGZU!” e “NÓS DISSEMOS QUE ELE VOLTARIA PARA VOCÊ, GRANDE TIO!!” e “CLARO QUE ELE VOLTOU! VOCÊS SENTIRAM O CHEIRO DELE? ELE NÃO CHEIRA A IMPOTÊNCIA… BEM, QUASE NADA!”
“San Lang, aquele demônio…” ele continuou, esperando que Hua Cheng continuasse sua frase.
Hua Cheng tensionou e suspirou. “Hum. Interessante que se apresentou como Zhong Jianren. Geralmente é conhecido como Guarda Cinza. Andarilho dos Reinos Guarda Cinza, para ser mais preciso. Às vezes chamado de Zhong Bianyan. É uma espécie de… guardião de fronteira. Entre os Reinos.”
“Entre o Reino Fantasma e o Reino Demoníaco?”
“Entre todos os Reinos. Mortal, Fantasma, Espírito, Demoníaco, dos Sonhos, Divino… e outros lugares mais estranhos que poderiam ser considerados Reinos; nenhum é proibido.”
Xie Lian murmurou pensativo. Frequentemente, mortais e deuses se referiam apenas aos ‘Três Reinos’: Divino, Mortal e Fantasma. Ele costumava fazer isso por hábito. Os três Reinos na verdade, se referiam aos reinos governados por humanos; os caminhos que os humanos podiam seguir. Os demônios tinham seu próprio Reino.
Hua Cheng e He Xuan frequentemente eram associados como Reis Demônios, embora tecnicamente os demônios fosse seres distintos.
Eles eram fáceis de confundir por três motivos: o Reino Fantasma era usualmente frequentado por demônios; humanos gostam de chamar qualquer coisa particularmente maligna de demônio (no Reino Fantasma isso era motivo de orgulho); e nenhum humano, deus ou fantasma jamais tinha visto o Reino Demoníaco. Portanto, era bem fácil fingir que ele não existia.
“Então… o Guarda Cinza poderia entrar na Corte Celestial Superior agora mesmo?”
“Sim. Os Oficiais Celestiais sabem disso. Mas eles nunca gostaram muito de lidar com a questão das fronteiras por conta própria; é sempre um caos, e assim, a culpa é dos demônios. E os deuses gostam de problemas. Significam mais orações desesperadas.”
“Mas… nós transitamos entre os Reinos. Eu estou transitando agora mesmo! E existem espíritos não humanos aqui na Cidade Fantasma, e fantasmas, demônios, espíritos e deuses no Reino Mortal…”
“E aposto que o Guarda Cinza está ciente dessas transições de fronteira, todas as vezes. Inclusive da nossa. A proteção das barreiras do Reinos é uma prática ancestral. O Guarda Cinza vem de uma longa linhagem,” disse Hua Cheng.
“Interessante. Eu não sabia que os demônios tinham esse papel. Imaginei que você cuidasse das barreiras aqui,” continuou Xie Lian.
Hua Cheng manteve um sorriso suave. “Eu não as criei. Elas têm muitos, muitos milhares de anos. E os demônios… têm todos os tipos de funções. Não pense no Guarda Cinza como pensaríamos em um guardião de fronteiras. Ele não está aqui para proteger ou servir ninguém. Ele transita entre mundos e gosta de causar problemas em cada um deles.”
“Que tipo de problema?”
A mão de Hua Cheng apertou a de Xie Lian por um instante. “Não se preocupe, gege. Não é nada, de verdade.”
Xie Lian estava frustrado com sua própria ignorância sobre esses assuntos. Ele se esforçou para se lembrar do que sabia.
“Mas separar os Reinos não foi uma ideia dos demônios, há muito tempo atrás?”
Hua Cheng ficou em silêncio. “É o que está escrito,” disse ele finalmente.
Xie Lian franziu a testa. “Mas San Lang, eu quero entender. Ele parecia… bem, você parecia que…” Ele parou de falar assim que Hua Cheng se virou para encará-lo. Eles haviam chegado à entrada dos fundos, mais reservada, da Casa de Apostas, e estavam imersos no barulho, nos gritos, na alegria e nas tapeçarias de seda vermelha sob a luz das lanternas.
“Parecia que ele te incomodava,” concluiu ele.
O rosto de Hua Cheng se iluminou. “Ele nunca poderia me incomodar com você aqui, gege.”
Xie Lian suspirou. “San Lang… você… eu quero que você me diga se algo estiver errado.”
Hua Cheng piscou. “Gege?”
Xie Lian endireitou os ombros e se ergueu até sua altura máxima, que alcançava a imponente o queixo de Hua Cheng.
“Eu posso dizer que tem algo incomodando você. Eu não quero que você minta e diga que está tudo bem.”
As sobrancelhas de Hua Cheng se contraíram. “Gege, eu só estive de volta por uma semana. Tem algumas coisas que eu preciso consertar, mas elas irão se resolver com o tempo. Confie em mim.”
Xie Lian fez um gesto para ele, sem emitir som. “Eu confio! Claro que confio, eu só quis dizer que… Não gosta da ideia de você não me contar algo só porque acha que isso me incomodaria.”
Hua Cheng fez uma pausa e sorriu. “Podemos discutir isso depois.”
Xie Lian assentiu triunfante. “Perfeito.”
O sorriso de Hua Cheng cresceu. “Essa foi uma bronca particularmente boa.”
Xie Lian ficou boquiaberto. “Eu não fiz isso! Não foi!”
Hua Cheng deu uma risadinha. “Eu já te disse, gege. Não me importo quando você me repreende. Na verdade, até gosto.”
Xie Lian resmungou baixinho, resistindo à vontade de colocar as mãos na cintura como um velho ofendido.
Uma mão fria tocou seu rosto superaquecido. Outra sua cintura. Xie Lian mal teve tempo de entender o que estava acontecendo antes que Hua Cheng se inclinasse para mais perto e, então… aconteceu.
Xie Lian deu um salto para trás, tropeçando e caindo dentro de um barril.
“Gege… eu-”
“Não, San Lang, não foi…” Xie Lian gaguejou.
Ele se endireitou, agora formal. “Peço desculpas. Eu deveria ter-”
“San Lang, não é isso-”
“O que esse crente indigno fazer-”
“PARE COM ISSO!” exclamou Xie Lian.
Hua Cheng murmurou algo, olhando para baixo.
“Eu odeio isso…” Xie Lian começou, parando de repente.
Hua Cheng estremeceu. Estremeceu de verdade.
Oh, céus. Xie Lian sentiu o coração apertar e o estômago revirar. Ele tinha estragado tudo completamente. Um som escapou de sua garganta.
“San Lang, por favor, eu só… por um instante,” ele tentou explicar, com dificuldade.
Um músculo se contraia na mandíbula de Hua Cheng, e ele não estava olhando para ele.
Ele engoliu em seco e tentou novamente. “Quando você, hum, está com essa aparência agora… não parecia você. Você não está usando sua verdadeira forma e simplesmente não parecia certo para mim… você sabe…”
Hua Cheng franziu ligeiramente a testa. Não dizendo nada. Permaneceu imóvel.
Xie Lian suspirou, sentindo-se péssimo. Por que ele fez aquilo? A única vez que Hua Cheng tentou beijá-lo desde que ele retornou e ele se afastou como se ele fosse feito de ferro quente, que humilhante, e o magoou…
Ele respirou fundo, vermelho como um tomate e com a voz trêmula. “Desculpe por ter gritado. É que… me machuca quando você se diz indigno. Eu não preciso que você seja meu crente o tempo todo. Eu só quero San Lang.”
Os lábios de Hua Cheng ficaram entreabertos, a expressão indecifrável, os olhos ainda fixos no chão.
“Deixe-me ver se entendi, gege. Você… só quer beijar minha verdadeira forma?”
Xie Lian engoliu em seco. Ele mesmo não sabia disso, mas… sim, era verdade. Ela já havia beijado essa forma uma vez, quando pensou que San Lang quase se afogou, mas agora que tinha uma escolha…
Ele assentiu com seriedade.
Xie Lian gesticulou na direção dele. “Eu… eu adoro essa forma, adoro mesmo, só que… bem você é um pouco jovem para mim assim, principalmente porque já temos certa diferença de idade,” disse ele, sentindo-se sem jeito.
Hua Cheng ergueu as sobrancelhas.
“Gege nós dois temos mais de 800 anos.”
Xie Lian bufou. “Não, eu sou mais velho! Sete anos! É muito tempo! Eu era… bem, eu era um jovem quando ascendi, mas… mas quando você é assim… você é um adolescente. É um pouco… indecente.”
Os lábios de Hua Cheng se contraíram. Seus olhos começaram a brilhar lentamente com alegria. Hua Cheng não emitiu som nenhum, mas era como se estivesse bufando.
Xie Lian desistiu, colocou as mãos na cintura.
“San Lang, você está rindo de mim?”
Hua Cheng desistiu. “Sim, gege, porque você é extremamente engraçado.”
Xie Lian exalou, irritado.
“Eu também não percebi que me sentia assim!” disse ele, magoado,
Os lábios de Hua Cheng tencionaram. “Bem, agora que sabemos, eu… me adaptarei de acordo. Com todo prazer.”
Xie Lian revirou os olhos. “Então você vai ignorar a outra coisa que eu disse?”
Hua Cheng fez uma pausa, em silêncio.
Xie Lian trocou de um pé para o outro. “Eu realmente só quero você. Você não precisa…” ele se atrapalhou com as palavras. “Merecer isso.”
Hua Cheng não disse nada, não fazendo contato visual. “Isso é… muito gentil da sua parte, gege”
“Eu não disse isso para ser gentil, é o que eu quero,” disse Xie Lian bruscamente, decidindo que se ele iria agir como alguém de 800 anos, assim seria.
Hua Cheng abriu a boca e fechou novamente. “Bem, Vossa Alteza, farei tudo que estiver ao meu alcance por você.”
Um estrondo ecoou quando as portas traseiras se abriram de repente e o barulho do estabelecimento cortou o ar.
“E SAIA DAQUI!” gritou a voz, acompanhada do baque de um corpo atingindo o cão e do gemido subsequente.
Xie Lian fez uma careta. “Bem, talvez pudéssemos contornar a entrada principal,” disse ele, olhando ao redor.
“Água Negra?” perguntou Hua Cheng, a voz estranha.
Xie Lian virou a cabeça bruscamente.
Estendida no chão estava uma figura de aparência lamentável.
A figura soltou um “ouf” ao se levantar lentamente, sacudindo a poeira de seus trapos sujos enquanto subia.
Xie Lian ficou boquiaberto. Ele certamente não era fácil de reconhecer. Era uma das Quatro Grandes Calamidades e acabara de ser expulso por um segurança como se fosse um saco de arroz.
He Xuan não parecia bem. Normalmente, ele era pálido e tinha uma expressão séria e um semblante sério, mas agora parecia… bêbado. Xie Lian não havia percebido o quão rígida e formal a postura dele costumava ser até vê-lo assim. Cambaleando e com o olhar desfocado, coçando a cabeça e as vestes sem rumo.
“Ah, Sua Alteza!” ele murmurou, tentando fazer uma reverência na direção de Xie Lian e cambaleando imediatamente. Xie Lian instintivamente se moveu para ajudá-lo a se levantar, mas Hua Cheng o impediu suavemente. Enquanto agia, Xie Lian se perguntou por que exatamente ele estava prestes a ajudá-lo. A última vez que o vira, ele havia arrancado a cabeça de Shi Wudu como se fosse uma boneca de pano.
É verdade que ele se manteve discreto e permitiu que eles lutassem em sua águas durante o caos após o Monte Tong’lu, e Xie Lian ficaria surpreso se seus Dragões de Ossos tivessem ajudado sem sua permissão expressa, porém ele não deu as caras.
He Xuan se endireitou e se pôs de pé novamente.
“Hua Cheng,” arrotou ele, assentindo com o queixo. “Bela festa,” disse, apontando com o polegar atrás de si.
Os olhos de Hua Cheng brilharam. Xie Lian percebeu que ele não estava sorrindo. Aparentemente, ele não precisava fingir perto de He Xuan.
“Imaginei que você estaria aqui, mas deve ter causado um escândalo e tanto para ter sido expulso tão cedo.”
“Não é minha culpa que ninguém aqui sabe beber direito,” disse ele, entre soluços.
Xie Lian o observou com interesse. Ele havia refletido bastante sobre He Xuan ao longo do último ano. Shi Qingxuan o visitou algumas vezes, mantendo seu jeito deliciosamente animado de sempre, mas Xie Lian nunca havia mencionado Água Negra. Estranhamente, ele sentia certa familiaridade com He Xuan, embora eles nunca tivessem tido uma interação a sós.
Ele sabia exatamente o que era afundar completamente na raiva e na vingança. E perceber tarde demais que o Eu com o qual ele teria que conviver depois não era alguém que ele queria conviver.
Porém não era como se a morte fosse realmente uma opção para nenhum dos dois. A única diferença era que Água Negra não tinha alguém que o protegesse, disposto a defendê-lo do pior para que pudesse encontrar o seu melhor. Ele não tinha alguém como San Lang.
Xie Lian passou cerca de cem anos pesando na morte de Wu Ming todos os dias. Tentando viver de uma forma que fizesse com que sua morte não fosse apenas um desperdício da fé que ele depositava em si. Até que isso se tornou um hábito, fazendo-o se tornar o Xie Lian que era agora. Alguém que não tinha mais utilidade para raiva ou vingança.
Mas e os primeiros anos? Foram difíceis. Quase impossíveis. Parecia que He Xuan estava passando por eles, a julgar pelo seu olhar vidrado atual.
“Você não parece você mesmo,” comentou Xie Lian, hesitante.
Hua Cheng bufou. “Alguém que consome todos os recursos dos meus estabelecimentos? Parece coisa de Água Negra.”
“Fui expulso porque não me deixaram apostar um dos meus Dragões de Ossos. Parecia que achavam que eu não estava falando a verdade,” ele arrotou.
“Você tem metade do dinheiro do próprio Céu, me deve a maior parte e está apostando um Dragão de Ossos?” disse Hua Cheng impaciente.
“Bem, um Dragão de Ossos é um ativo mais líquido-”
“Pague ou suma.”
Xie Lian lançou um olhar para Hua Cheng. Seu semblante era sério e implacável.
“Ah, San Lang, talvez devêssemos ser um pouco mais gentis com ele,” murmurou.
Hua Cheng olhou para ele surpreso. “Gege, esse cara passou um bom tempo planejando ativamente a melhor maneira de acabar com a vida de um dos seus amigos.”
Não conseguiu fazer isso, pensou Xie Lian consigo mesmo. “Shi Qingxuan tem uma resiliência peculiar.”
Ainda assim. Era doce ver como Hua Cheng era todo durão e ríspido só porque achava que Xie Lian poderia ter sentimentos conflituosos a respeito disso. E, na verdade, aquilo não tinha nada a ver com ele.
Ele sorriu tristemente. “Eu sei que sim. Mas uma vez passei um bom tempo planejando ativamente como matar todas as pessoas de um reino inteiro.”
As sobrancelhas de Hua Cheng se franziram.
“Você não é ele,” disse ele secamente.
“Por que?”
“Você é melhor.”
“Só por você. E só graças a você,” disse Xie Lian, com um carinho ardente. O olhar de Hua Cheng se fixou nele por um instante e Xie Lian sentiu o rosto esquentar.
“Finjam que eu não existo,” disse He Xuan, que havia desistido de ficar em pé e se sentou no chão, com as pernas bem abertas. “Eu amei alguém uma vez. É bom, não é?” disse ele amargamente.
O coração de Xie Lian se apertou. Só de pensar que algo como o que aconteceu com a noiva de He Xuan pudesse acontecer com Hua Cheng… ele teria feito o mesmo que He Xuan fez. Mesmo agora, mesmo com todas as mudanças que moldaram ele, provavelmente ainda faria. Ninguém está imune à dor de uma perda como essa.
“He Xuan,” disse ele, aproximando-se um pouco. “Há algo que possamos fazer? Para te ajudar?”
He Xuan deitou-se de bruços no chão. “Me deixem em paz,” murmurou contra as pedras.
Xie Lian suspirou. Ele sabia reconhecer um homem que não estava disposto a receber ajuda.
“Tudo bem. Se é isso que você quer.”
Ele olhou para trás, para Hua Cheng. Já não tinha certeza se queria passar por cima do corpo inerte e debilitado de He Xuan só para entrar.
“San Lang, talvez possamos ir para um lugar mais tranquilo?”
O semblante de Hua Cheng se suavizou. “É claro, gege.”
Eles se viraram para ir embora.
“Você também sentiu, não é, Hua Cheng?” perguntou He Xuan.
Xie Lian olhou para trás enquanto os ombros de Hua Cheng estavam tensos. “Não sei o que você quer insinuar,” disse ele friamente, sem olhar para trás.
He Xuan bufou. “O fechamento. Eu o senti. Eu o aceitei. Espero que tudo acabe logo,” disse ele, encolhendo-se em posição fetal, afastando-se deles.
Os olhos de Hua Cheng se arregalaram por um instante. Em seguida, seu rosto se tornou uma máscara. E ele sorriu. Xie Lian o encarou. Hua Cheng não sorriu, junto com He Xuan. “Parece que isso é problema seu,” disse ele, com indiferença, antes de oferecer o cotovelo a Xie Lian.
Xie Lian observou atentamente o rosto dele enquanto o segurava.
Ao que parecia, Hua Cheng estava guardando algumas coisas para si mesmo.
***
Notes:
Notas da autora:
“Dou muito mais valor aos meus elogios do que ao meu dinheiro.”
- Dolly Parton
Você pode retuitar aqui se quiser!Notas da tradutora:
[1] Gente aqui a expressão utilizada era “YOUR GREASER!” e eu não tinha certeza de como traduzir isso para o português já que quando eu pedi ajuda pro nosso bom e velho amigo tradutor (do google, nada de IAs por aqui obrigado) ele me sugeriu ‘seu engraxador’. Porém pelo contexto da frase eu não acho que faria sentido, por isso escolhi manter dessa forma.
[2] Mais uma vez, o Guarda Cinza também utiliza pronomes neutros (They/them) em inglês, porém no português não existem pronomes neutros, mas se tiverem alguma sugestão a respeito de como adaptar isso me avisem nos comentários!
[3] fiquei com medo de não ficar claro, mas aqui o Guarda Cinza se refere tanto ao Xie Lian (príncipe) como ao Hua Hua (Rei Fantasma/Lorde da cidade) como “Suas Altezas”
Deixem kudos na obra do autor original!
Tomei um xingo de uma gringa por algum motivo nos comentários passados me acusando de cópia, mas se eu pudesse eu colocava um outdoor que é só uma tradução. :’)
