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Natlan: Ecos da Terra Perdida

Chapter 2: Ato I – Flores Resplandecentes na Jornada Queimada pelo Sol

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O porto de Romaritime em Fontaine estava imerso em uma atmosfera vibrante, onde o ar fresco do mar misturava-se ao murmúrio distante das ondas contra os navios ancorados. O sol, ainda alto, refletia nos mastros reluzentes e nas fachadas elegantes da cidade, banhando as ruas com uma luz dourada que parecia prometer novas jornadas.

Ao lado do cais, o Viajante permanecia silencioso, observando com olhos atentos o movimento ao redor, absorvendo cada detalhe: o leve balançar das velas, o aroma das flores exóticas que adornavam as varandas, e o murmúrio das vozes que preenchiam o ar. Perto dele, a fadinha flutuante Paimon rodopiava com energia, lançando-lhe olhares curiosos e inquietos.

— Neuvilette me deu uma breve descrição da próxima região — comentou a fadinha, sua voz cristalina cheia de uma ansiedade contida. — Chamam-na de “nação dos dragões”. Mas sabe, mesmo quando Inazuma estava sob o regime da Shogun, ainda víamos pessoas de lá em outras lugares. Engraçado, não avistamos nenhum habitante de Natlan... — Paimon arregalou os olhos de repente após pensar um pouco — Não poder ser... Será que não existem humanos em Natlan?! — ela exclamou.

O Viajante franziu levemente a testa, seus olhos expressando surpresa e uma ponta de preocupação, enquanto buscava no horizonte qualquer sinal da nova terra que os aguardava. Ele ajeitou a capa com um gesto calmo e respirou fundo, demonstrando sua disposição para a jornada que se aproximava.

Antes que o silêncio deixado pela pergunta pairasse por tempo demais, um súbito clarão, seguido do som característico de um obturador, cortou o momento.

— Voilà! Capturei a expressão exata de um mistério em construção! — exclamou Charlotte, surgindo de trás de algumas caixas empilhadas.

Com sua inseparável câmera fotográfica pendurada ao pescoço e um sorriso arteiro no rosto, a jornalista de Fontaine caminhou em direção aos viajantes. O sotaque cantado e preciso, típico de sua terra natal, tornava sua presença ainda mais distinta.

— Ah, Charlotte! Obrigada, mas geralmente a gente não dá esse tipo de festa...! — Paimon balançou a cabeça em negativa e voltou-se para o Viajante, que, com um leve arqueamento das sobrancelhas, indicou que festas de despedida não eram o de costume.

Charlotte arqueou uma sobrancelha, fingindo-se indignada.

— Ah, mas mudar a rotina de vez em quando faz bem à alma, não acham? Aliás, estávamos preparando uma despedida especial…

— “Estávamos”? — repetiu Paimon, inclinando a cabeça. — Por que você falou no plural?

Antes que a jornalista pudesse responder, passos suaves se aproximaram.

— Os bons momentos parecem sempre passar rápido demais, não é mesmo?

Navia surgiu com sua habitual elegância, os cabelos dourados reluzindo sob o sol do entardecer. Pouco depois, atrás da moça, Clorinde se juntou, discreta, mas com uma presença que impunha respeito e calor em igual medida.

— Mesmo que os caminhos se afastem, é dever dos amigos partilhar suas dores e alegrias. A distância não muda isso — disse ela, com firmeza gentil. — Independentemente das dificuldades que enfrentamos, somos amigos. Precisamos falar sobre nossos problemas, mesmo que a distância tente nos separar.

Por fim, Furina juntou-se ao grupo, seu sotaque francês marcado imprimindo uma gravidade elegante às suas palavras.

— Imprevistos são, como o nome diz, inesperados! O destino pode mudar num sopro! — proclamou ela com um gesto dramático. — Mas há algo que jamais mudará: a amizade que criamos. Essa... permanece.

O Viajante olhou para cada uma delas em silêncio, seus olhos transmitindo uma calma firme, um misto de gratidão e resolução diante da jornada que se aproximava.

Enquanto o sol de Fontaine lançava seus últimos raios sobre a cidade, o grupo permanecia unido, pronto para enfrentar o desconhecido que os aguardava em Natlan.

— Nossa, todas vieram! — Paimon disse, surpresa com as novas figuras com rostos familiares. 

— Já querem se aposentar só para ter uma desculpa para ter uma festinha? — Furina brincou, dando uma leve risadinha — Mas sim, é exatamente com Clorinde disse: mesmo longe, estaremos prontos para ajudar!

— Nós poderíamos tirar uma foto desse momento. — disse a mulher de cabelos roxos escuros, virando sua cabeça para olhar para a fotógrafa de cabelos rosa.

—  Oh, bela ideia! — Furina disse alegremente — nós até temos uma fotógrafa profissional aqui! Faria as honras, Charlotte? — a ex-Arconte disse, também virando-se para a jornalista.

Um sorriso meigo apareceu no rosto de Charlotte. — Deixa comigo! Só me deixe posicionar a Kamera! — ela disse, balançando a cabeça e andando para manter uma distância adequada.

—  Ah, e não se preocupe Paimon. Natlan tem sim pessoas, e com suas próprias culturas, assim como Fontaine. Apesar de eu não ouvir muito sobre a região nos últimos... ahem! Anos... — Furina disse, pausando por um segundo, coçando a nuca — Por causa justamente da cultura deles, eles preferem ficar na região. Mas...! Da última vez que ouvi sobre Natlan, eles são bem receptivos.

— Sim! Muitos membros da Spina já foram pra lá! — completou Navia.

— É um alívio saber! Tomara que não tenha uma banguça pra gente arrumar... — Paimon olhou para o Viajante, que só deu um pequeno aceno com a cabeça, mas com um olhar ligeiramente desconcertado.

— Bem... Considerando o histórico de vocês, tenho certeza que qualquer problema vai ser fácil de resolver — Clorinde os encorajou.

— Tudo pronto! — Charlotte acenou, se juntando ao grupo e apontando para a Kamera instalada na frente deles — E um, e dois, e três...!

— Bon voyage! — todos disseram em sincronia, fazendo uma pose antes que um flash e um leve barulho de "click" pudesse ser ouvido.

O Viajante e Paimon se despediram das amigas e começaram a sua nova aventura. Conectado com as Linhas Ley, o Viajnte notou a presença de mais um waypoint. Ele já estava acostumado, afinal de contas já faz um tempo que isso acontece desde que ele se conectou com a Estátua dos Sete em Mondstadt. Assim que cruzaram a fronteira que dividia o deserto de Sumeru com a nova nação, uma luz dourada atravessou as copas das árvores e envolveu o Viajante e Paimon com suavidade. Ao contrário do que imaginavam, Natlan não os recebeu com rios de lava ou colinas fumegantes — mas sim com uma floresta viva, exuberante, onde tudo parecia respirar.

As árvores se erguiam altas e fortes, com troncos largos e retorcidos, cobertos por musgos dourados que cintilavam sob a luz do sol. As copas amplas filtravam a claridade em tons quentes — verdes, alaranjados e dourados — que dançavam pelo solo úmido em manchas móveis de cor. Vinhas desciam dos galhos como fitas trançadas, pesadas de flores coloridas com formatos curiosos e perfumes doces.

O ar era úmido, carregado de fragrâncias vegetais, e o som da floresta nunca cessava — um sussurro constante de folhas, gotas e pequenos passos apressados entre os arbustos. Pássaros de penas vibrantes cortavam o céu em cantos alegres, enquanto pequenos lagartos de escamas luminosas corriam por entre raízes expostas. Era como se a natureza ali tivesse sua própria linguagem, viva e barulhenta, mas harmoniosa.

O Viajante a observava em silêncio, os olhos atentos capturando os detalhes ao redor. Ele se abaixou para examinar um rastro no solo — pegadas pequenas, leves, mas bem definidas, de algum animal que passara recentemente. Seus dedos tocaram suavemente o chão, depois ergueram-se para recolher uma folha caída que parecia ter sido queimada nas bordas, embora não houvesse sinal de fogo ao redor.

— Tem algo diferente nesse lugar — disse Paimon, retomando o ar pensativo. — Tudo parece... intenso. As cores, os cheiros, até o silêncio da floresta. É como se ela estivesse falando com a gente sem usar palavras...

Ela se virou para o Viajante, que endireitou a postura, ainda com a folha nas mãos. Seu olhar percorreu a copa das árvores, seguindo o voo de uma ave de penas multicoloridas que desaparecia floresta adentro.

— Hm... será que os humanos aqui vivem escondidos na floresta? — Paimon refletiu. — Ou será que têm cidades em outro lugar? Até agora, nada de construções, trilhas ou placas... só mato e mais mato! Nem um barquinho flutuante, nem um vendedor de maçã caramelizada...

Enquanto avançavam, o Viajante se manteve alerta, os olhos percorrendo os arredores com atenção. A fadinha flutuante ao seu lado falava em voz baixa, como se o próprio cenário impusesse reverência. Mas então, sem aviso, o mundo ao redor se dissolveu — como se uma dobra silenciosa tivesse se aberto no espaço. Em um instante, já não estavam mais entre árvores, mas em meio a um santuário escondido entre tempos.

Ali, pedras antigas envolviam um pátio circular. Uma fonte de cristal jorrava água clara no centro, e uma luz tênue filtrava-se do teto aberto, embora não houvesse sol visível. Um silêncio denso envolvia o lugar — até que o rugido dos Cães do Abismo rompeu o momento. Eles cercavam um grande sauriano marrom, suas escamas ásperas lembrando rochas talhadas pelo tempo. A criatura lutava com força impressionante, mas já cedia ao número e à exaustão.

O Viajante não hesitou. Com um movimento ágil, sacou sua arma e avançou. Cada golpe era preciso, alimentado por uma determinação silenciosa. As expressões em seu rosto mudavam — firmeza, empatia, dor contida — até que o último dos cães caiu em meio à poeira mágica do abismo. A ameaça cessara, mas a luta cobrara seu preço.

O sauriano cambaleou, olhos semiabertos, antes de tombar pesadamente ao chão.

— A gente chegou tarde demais... — murmurou Paimon, pousando suavemente ao lado da criatura. A fadinha observava o ser imenso com olhos tristes, enquanto o Viajante se aproximava, quase por instinto, ajoelhando-se e tocando suavemente o focinho do sauriano.

No instante seguinte, uma luz intensa irrompeu do contato — forte, quente, viva. Os olhos do Viajante se fecharam. Quando os abriu novamente, já não era o mesmo.

Sua forma havia mudado: escamas se desenhavam por sua pele, o olhar brilhava em âmbar intenso, e sua estrutura corporal havia se expandido levemente. A essência do sauriano agora vibrava dentro dele — uma conexão inexplicável, mas poderosa. Ele se ergueu, sentindo os ecos do novo poder correrem por seus membros. Foi então que percebeu algo: uma pequena criatura, presa atrás de uma barreira brilhante. Um bebê sauriano.

O filhote — também marrom, de escamas pétreas e olhos assustados — tentava sair, mas a energia ao redor o mantinha isolado. Aproximando-se, o Viajante estendeu a mão. Com a energia herdada, concentrou sua força em uma pedra cravada no chão. A luz reagiu. Num breve clarão, a barreira se desfez, libertando o pequeno ser.

Paimon exclamou, aliviada, mas logo notou algo:

— Ah! A cauda dele tá machucada! Coitadinho...

No mesmo instante, um cachecol fino, esvoaçante, materializou-se no ar diante dela. Com delicadeza, ela o envolveu ao redor da cauda do filhote, firmando-o com cuidado.

O pequeno sauriano emitiu um som baixo, como um ronronar gutural. Afastou-se por um momento, depois retornou, aninhando-se perto do Viajante. Com um olhar ainda receoso, mas cheio de gratidão, apontou com a cabeça para um corredor de pedra atrás do altar. A saída.

— Ué, ele sabe onde a saída fica? — pergunta Paimon suavemente, olhando em direção à uma pequena luz.

O Viajante assentiu. A transformação começava a se dissipar, suas feições voltando ao normal, mas os olhos ainda carregavam um brilho diferente. Saíram juntos do santuário oculto, agora acompanhados por seu novo companheiro — órfão, mas não mais sozinho.

De volta à floresta, os três caminharam sob a copa entrelaçada. O ar parecia mais leve, mais quente. Em pouco tempo, começaram a notar vestígios de presença humana: marcas de tintas naturais pintadas em pedras, padrões coloridos, e, finalmente, uma estrada de terra batida, com trilhas recentes de pegadas.

— Olha só... sinais de gente! — disse Paimon, os olhos brilhando.

O Viajante fitou o caminho à frente. A jornada em Natlan estava apenas começando — e ela já havia lhes oferecido muito mais do que esperavam. O trio seguia adiante, a luz filtrada entre as árvores pintando padrões móveis no chão. O silêncio era interrompido apenas pelo som de passos leves e do farfalhar suave das folhas sob suas botas.

Então — um estalo repentino. Pequeno demais pra ser um galho comum. Rápido demais pra ser o vento. O Viajante mal teve tempo de virar o rosto. Sem aviso, sem palavras, como uma sombra que respirava. Saiu dos arbustos num salto preciso, aterrissando em frente ao grupo com o corpo agachado, como uma mola prestes a se soltar, uma lança já estava apontada em direção dos desconhecidos. A figura não tremia, não hesitava. Estava ali por completo — corpo, mente, intenção. Os únicos traços visíveis sob a luz filtrada das árvores eram os olhos: azuis, profundos e cortantes como gelo derretendo em pedra quente. Observavam com uma intensidade que fazia o ar parecer mais pesado. Não havia fúria neles — apenas cautela fria, uma pergunta sem voz: "Você é ameaça... ou não?"

O Viajante não se moveu.