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A Voz Escondida

Summary:

(Projeto exclusivo para AO3)

Aos 13 anos, Alex Rose já brilhava como guitarrista e sub-vocalista da Aurora Drive, um grupo musical formado ainda na infância. Mas, após seu último show, descobre que vinha sendo sabotada por colegas incomodados com seu talento crescente e decide deixar a banda por conta própria.

Com o apoio de uma cantora renomada que sempre esteve ao seu lado, ela se afasta dos palcos para repensar seu caminho. Um ano depois, prestes a retomar os estudos presenciais para concluir o ensino médio, uma nova oportunidade surge: disputar uma vaga na prestigiada Great Legacy Talents School.

Agora, entre rivalidades, recomeços e novas conexões, Alex precisará encontrar forças para redescobrir sua paixão pela música e pela primeira vez, fazer sua voz ser realmente ouvida.

Notes:

História baseada em diversos projetos musicais da mídia, filmes, séries, músicas e outras obras mencionadas.
Qualquer menção serão apenas referências e qualquer semelhança é mera coincidência.
Obra voltada para o público maior de 16 anos

Story based on various musical projects from the media, films, series, songs and other works mentioned.

Any mentions will only be references and any resemblance is purely coincidental.

Work aimed at an audience over 16 years of age.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Brilhe por Você

Chapter Text

Os gritos ecoavam por todo o teatro.

O tom estridente ficava cada vez mais evidente, reverberando como ecos vibrantes de um espetáculo cuidadosamente orquestrado.

Telas de LED piscavam com animações coloridas, feixes de luz varriam o palco em tons de roxo e azul, e o logotipo da banda, um céu estilizado com cinco faixas luminosas, girando em meio aos hologramas projetados.

Era mais do que um show. Era um evento pensado para uma geração inteira.

Apesar dos poucos adultos, a plateia era formada por crianças e pré-adolescentes, gritavam, dançavam e as vezes cantavam.

Alguns usavam camisetas da Aurora Drive, com glitter no rosto e pulseiras brilhantes em seus pulsos.

Algumas seguravam cartazes com nomes e apelidos dos integrantes, outros agitavam bastões de espuma, e até os pais exaustos, mas rendidos, batiam palmas no ritmo.

Embora aquele grupo jovem tivesse certa fama, seus nomes verdadeiros não foram revelados ao público, por segurança, todos os nomes eram fantasiosos.

Sendo destacado pela luz, estava Starblazer, o vocalista principal. Comandava o palco como um veterano, mesmo jovem, demonstrava confiança, como se tivesse se preparado para aquele momento desde seu nascimento.

Girava o microfone com facilidade, alternava entre olhares entre as câmeras e a multidão conduzia os versos com energia.

Ao seu lado, Bass Mike, mantinha o baixo firme e o corpo em movimento constante, como se cada nota fosse uma extensão do próprio corpo.

Mais atrás, Synthwave, tocava os sintetizadores com precisão e graça, os dedos deslizando pelas teclas como se fosse a coisa mais natural do mundo. À direita, BeatCrash, firme na bateria, cravava o ritmo com técnica impecável e um sorriso contido em seu rosto.

E então ,havia Little Starlight.

Postada ligeiramente atrás de Starblazer e Bassline, ela segurava sua guitarra com segurança, os dedos ágeis e o olhar concentrado.

Seus solos não eram chamativos, mas uma única nota era o suficiente para mudar o clima do lugar. Havia algo na forma como ela se entregava à música, como se aquela fosse sua linguagem original. O tipo de talento que se fazia notar não por gritar mais alto, mas por permanecer enquanto o som aos poucos cessava.

E quando sua voz surgiu para fazer a harmonia no segundo refrão suave, afinada, naturalmente intensa foi o suficiente para arrancar um novo pico de gritos na plateia.

Crianças apontavam, celulares subiam, e até alguns adultos se entreolhavam com surpresa. Ela não tinha mais o microfone principal, mas, por alguns segundos, ninguém parecia perceber.

O telão captava seu rosto entre um refrão e outro. Quando sua imagem surgia, os gritos aumentavam. Ela não reagia não precisava. Deixava que a música falasse por ela.

Naquela noite, estavam apresentando uma das músicas mais populares da banda, recheada de batidas eletrônicas, riffs suaves e refrões grudentos.

Durante a ponte instrumental, Little Starlight assumia um pequeno solo. Nada extravagante. Apenas algumas notas bem colocadas que se encaixavam perfeitamente no arranjo. Mas havia uma leveza ali, uma sinceridade crua que transcendia o brilho do palco. Não foi o momento mais alto da música mas, estranhamente, foi o mais memorável.

Starblazer puxou o refrão seguinte com ainda mais energia, erguendo os braços como se comandasse um coral.

— Vamos nessa, galera! Cantem com a gente!

A plateia respondeu em uníssono, gritando cada palavra. Confetes caíram do teto, luzes estouraram em sequências programadas e a música chegou ao fim com a força de um encerramento digno de turnê.

Little Starlight manteve o sorriso, aquele sorriso que havia aprendido a vestir como figurino enquanto os cinco se alinhavam para a despedida. Ela respirava fundo, ainda sentindo a vibração do som nos dedos. Aquela energia que não se dissipava — que nunca desaparecia de verdade.

Starblazer foi o primeiro a falar, como se tivesse ensaiado aquele texto diversas vezes.

— Essa foi a Aurora Drive! Obrigado por fazerem parte de mais um show inesquecível!

A multidão explodiu em gritos e aplausos. Bassline Mike levantou o baixo como quem celebrava a vitória, Synthwave Queen e Beatcrash se curvaram levemente com acenos graciosos, e Little Starlight... simplesmente observou.

A luz do palco refletia em seus olhos, e seu olhar vagueava brevemente pela multidão. O som dos aplausos era forte, mas algo dentro dela soava mais alto: aquela certeza silenciosa de que, mesmo num palco dividido entre cinco estrelas, sua luz havia tocado alguém. Discretamente, profundamente.

E naquele momento, nem ela percebeu o quanto havia roubado a cena.

[...]

A sessão de autógrafos acontecia logo após o show, em um espaço decorado com luzes coloridas e pôsteres do Aurora Drive. Crianças e adolescentes de todas as idades, muitos acompanhados dos pais ou irmãos mais velhos, faziam fila com brilho nos olhos, esperando para pegar autógrafos e tirar fotos com os integrantes.

Sentada ao lado dos colegas de banda, Little Starlight  sorria gentilmente enquanto assinava camisetas, bonés e até mesmo diários.

Embora estivesse posicionada discretamente à margem da mesa, como sempre, os olhares se voltavam cada vez mais para ela.

Em meio ao clima agitado e constante, uma garota se aproximou, guiada por uma outra um pouco mais velha, possivelmente sua irmã, ou alguma amiga próxima.

A jovem usava um casaco leve, botas escuras e um gorro que cobria seus olhos, como se quisesse evitar ser vista por todos a sua volta.

Sua idade se aproximava de Little Starlight, apenas um pouco mais alta que ela, parecia travar uma batalha interna a cada passo que dava em direção à mesa, mesmo com incentivo da mais velha.

Quando finalmente ficou diante de Little Starlight, seus olhos encontraram os dela. Bastou esse instante para que tudo desmoronasse, a respiração acelerou, as mãos tremeram, e antes que conseguisse dizer uma única palavra, ela girou nos calcanhares e saiu correndo, deixando a irmã confusa e sem reação.

A  jovem guitarrista ficou observando a cena, surpresa e tocada. Havia algo naquele olhar algo familiar. Ela murmurou algo para o segurança mais próximo e se levantou, ignorando por um momento o burburinho da fila. Saiu discretamente pelo lado do palco, dando a volta no recinto até os fundos do local.

BeatCrash acompanhava tudo de longe e ergueu uma sobrancelha, apoiando o queixo na mão enquanto ainda assinava uma camiseta branca.

— Onde ela vai dessa vez?

Synthwave deu um pequeno sorriso de canto enquanto organizava algumas dedicatórias sobre a mesa.

— Bancar a salvadora... de novo.

[...]

Do lado de fora, a movimentação era bem menor. Apenas alguns seguranças e membros da equipe técnica passavam apressados pelos corredores. Little Starlight, ou melhor dizendo, Alex caminhava com passos cuidadosos, guiada pelo instinto e por uma sensação que ainda apertava o peito.

Ela contornou a lateral do prédio e encontrou uma pequena saída de emergência entreaberta, levando a um jardim lateral, reservado e parcialmente iluminado pelas luzes internas do evento. E foi ali, entre arbustos baixos e uma cerca de grade coberta de heras, que a viu.

A garota estava agachada, encolhida  entre as sombra do jardim ,os braços envolvendo os joelhos e o rosto parcialmente escondido pelo gorro. A respiração era entrecortada, como se tivesse corrido mais por dentro do que por fora.

Alex respirou fundo e se aproximou devagar, os passos suaves sobre a grama úmida.

— Até que enfim te encontrei! - disse ela aliviada com um leve sorriso -

Aquela garota, com os olhos levemente marejados sobressaltou e recuou instintivamente, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.

Seus olhos encontraram Alex, ou para ela, Little Starlight. Mesmo por um breve segundo, foi o suficiente para ela se afastar ainda mais.

— Hey! Calma! - disse Alex, erguendo sua mão - Eu não sou tão assustadora assim, agora se fosse a Beat ou o Bassline...talvez você tivesse razão em fugir...

A piada veio com um sorriso contido, tentando aliviar a tensão. A garota piscou várias vezes, visivelmente confusa, e começou a balbuciar uma enxurrada de desculpas, completamente descontrolada.

— Me desculpe! E-eu não queria sair correndo, não queria ir embora daquela maneira, eu...foi mal por--

— Relaxa, está tudo bem.... - disse Alex ajoelhando-se em frente à ela - Suas mãos pousaram com delicadeza sobre os ombros da garota - Siga minha deixa, tudo bem?

Ela fechou os olhos e puxou o ar devagar, inspirando profundamente. Depois, soltou o ar lentamente.

— Um... Dois...Três... - contou Alex em voz baixa para que a outra acompanhasse - 

Repetiu o processo outra vez, pausada, paciente.

Quando terminou, olhou nos olhos dela e perguntou com suavidade: "Melhor?"

A garota assentiu com a cabeça, ainda um pouco nervosa. "S-sim", murmurou.

Alex sorriu e se sentou ao lado dela, sem pressa, como se aquele pequeno canto do mundo fosse tudo o que importava.

— Qual o seu nome? - perguntou ela gentilmente -

— M-Madison. - respondeu a outra com dificuldade -

— Ótimo, posso te chamar de Maddy?

Ela hesitou por um segundo.

— Pode... - respondeu relutante - 

— Prazer, Maddy. - falou Alex oferecendo sua mão de forma amigável -

A garota a cumprimentou timidamente, mesmo nervosa, seu braço se levantou automaticamente.

Por alguns segundos, o silêncio voltou a se instalar entre as duas. Não era um silêncio desconfortável agora ,era só o tipo de pausa que se faz quando o coração está tentando acompanhar o momento.

— Então, me diga, porque saiu correndo daquele jeito? Eu ache ique realmente tivesse te assustado.

Maddy baixou o olhar, brincando com a barra do próprio casaco.

— É que... eu te vi de perto pela primeira vez. Tipo... de verdade. E aí eu... eu entrei em pânico. Eu não sabia o que dizer, ou fazer, ou... como parecer normal. Então eu só... corri.

 Ela falava de forma enrolada, atropelando as palavras entre gaguejos. Alex a ouvia com atenção, os olhos gentis e compreensivos.

— Bem...Isso é mais comum do que parece, sabia? - respondeu após ela terminar - Quando a gente fica intenso, nosso corpo reage antes da cabeça entender o que tá acontecendo, experiência própria. - respondeu piscando o olho descontraída -

Madison ainda enxugava os olhos quando Alex se sentou ao seu lado no jardim. A brisa leve balançava os cabelos das duas, e por um instante, o som abafado da música ao longe parecia distante demais para alcançar aquele cantinho escondido.

— E então, Maddy... - disse Alex com um sorriso gentil. - O que você gosta de fazer?

A pergunta pegou Madison de surpresa. Ela hesitou por alguns segundos antes de murmurar, com os dedos ainda entrelaçados nervosamente no colo

— Eu... eu gosto de música também. Tô aprendendo a tocar bateria.

— Sério?! - os olhos de Alex brilharam, erguendo as sobrancelhas. - Isso é incrível! Olha, se quiser, pode até apresentar o BeatCrash um dia desses no lugar da Beat. - 

— N-não! — Madison levou as mãos à boca, rindo em choque. - Eu... eu não consigo! Eu só tô aprendendo!

— Calma, era brincadeira! - Alex deu uma risada leve. - Mas sério, é bem legal saber disso.

Madison sorriu, já um pouco mais à vontade.

— Eu... também gosto de cantar, sabe? - disse ela em um tom baixo. Não pra muita gente. Só... só pra mim mesma, às vezes. Mas quando penso em cantar pra outras pessoas, eu travo. Me dá um nervoso, um pânico. Aí eu... eu desisto, mesmo querendo tanto.

 Alex ficou em silêncio por alguns segundos, observando a sinceridade nos olhos da garota. Depois se aproximou um pouco mais, ainda sentada ao seu lado.

— Sabe, isso que você sente... é mais comum do que parece. Mas se você sente vontade de fazer, se isso te faz feliz, então não pode se esconder pra sempre.

— Eu... não sei se consigo - murmurou Madison, desviando o olhar. -

— Mas é claro que consegue, aliás, você vai conseguir, tenho certeza disso, não há dúvidas! 

Alex estendeu uma das mãos, com um sorriso confiante.

— Agora fale comigo! "eu vou ser melhor"

— Eu vou...ser melhor? - gaguejou Madison -

— Com convicção! Eu vou ser melhor! Fale para todos! Grite comigo!

Ela inspirou fundo, inflando os pulmões, e soltou:

— EU VOU SER MELHOR!

Madison arregalou os olhos, mas depois sorriu de leve, respirando fundo também. Ainda tímida, mas corajosa, ela gritou:

— E-eu vou ser melhor!

— ISSO! - Alex bateu palmas. - Tá vendo? Às vezes o mundo só precisa escutar a nossa voz. Mesmo que seja só um sussurro, já é um começo.

Madison riu, agora visivelmente mais tranquila, e Alex estendeu a mão para ajudá-la a levantar.

— Vamos? Aquela moça que te acompanhara era  sua irmã não é? Ela deve estar achando que eu te sequestrei mesmo.

— Tá bom...

Alex conduziu Madison até sua irmã, que aguardava em uma parte mais discreta, visivelmente aliviada ao vê-la.

— Aqui está sua estrela. - disse Alex com um sorriso leve, soltando gentilmente a mão de Madison -

— Valeu por isso, qual é, você quase me assustou! Não fuja dessa maneira! - advertiu a irmã aliviada ao vê-la -

— Desculpe... - disse Madison arrependida -

— Obrigada por isso...Little Starlight não é? Não ouço muito suas músicas, mas minha irmãzinha aqui é sua fã, desculpe por tudo isso.

— Não foi nada — respondeu Alex, ajeitando uma mecha do cabelo atrás da orelha. — Mas... ainda falta uma coisinha, não acha?

Madison piscou, confusa, até Alex tirar o celular do bolso e acenar com ele.

— Aquela foto.

A garota abriu um sorriso tímido. Ambas se aproximaram e Alex passou o braço pelos ombros de Maddy antes de tirar a selfie. No clique, Madison sorria como se ainda não acreditasse no que estava vivendo.

Aproveitando o momento, sua irmã tirou uma foto discretamente de ambas, capturando um pequeno momento de felicidade de sua irmã.

— Vou postar isso com certeza. - falou em tom descontraído vasculhando o bolso da jaqueta. - E claro, sobre o autógrafo, acho que vou ficar te devendo não tenho uma caneta aqui...Mas acho que isso pode valer bem mais.

Ela então  tirou uma palheta roxa com o logotipo da Aurora Drive, ligeiramente desgastada pelas cordas.

— Sua palheta? Eu não posso--

Antes que pudesse negar, Alex a cortou.

— Usei essa no show de hoje. Espero que te traga sorte. E quem sabe, num futuro não tão distante, eu esteja assistindo você tocar... ou talvez até dividindo um palco com você.

Madison segurou o pequeno objeto como se fosse um tesouro, sem conseguir conter o brilho nos olhos.

— Eu... vou guardar pra sempre.

— Só não esquece o mais importante: sua voz merece ser ouvida.

As duas se despediram com um abraço sincero, e Alex se virou para voltar, apenas para ser surpreendida por uma voz familiar.

— Awn, olha só... nossa heroína mostrando o coração mole de novo.

Alex virou-se e viu Synthwave, recostada em uma pilastra com um sorriso provocativo nos lábios e os braços cruzados.

— Eu só fiz o que achei necessário - respondeu Alex, revirando os olhos.

— Não é a primeira vez que faz algo desse tipo não é? 

— Mas é claro, porque não? É bom ter amigos em todos os lugares, não é? 

— Uhum. Nada surpreendente vindo da nossa Little Starlight - retrucou a amiga, se aproximando e cutucando seu ombro. - Sabe que você devia usar uma capa?

— Se continuar me provocando assim vou te jogar da janela do ônibus...

— Você não teria coragem de fazer isso com sua querida amiga.

Alex a empurrou levemente como resposta.

Rindo, Synth se inclinou levemente em seus ombros.

— Falando sério agora... os outros tão te procurando feito loucos. O Mike quase teve um treco. Talvez seja melhor você não sair do meu campo de visão por um tempo, mocinha.

Ela então se agarrou ao braço de Alex, de forma cômica mas carinhosa.

— Então não me largue dessa vez.

Alex bufou, mas acabou rindo também.

— Tá bom, heroína. Vamos voltar antes de tomarmos mais uma bronca.

E juntas, as duas desapareceram pelos corredores iluminados do backstage, enquanto o som distante da música de encerramento ainda ecoava do palco principal.