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Sanbiki No Saru

Chapter 5: Aizawa merece um aumento

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Após a sua aula, Nemuri correu para a sala dos professores, com uma empolgação que fazia parecer que esperava o resultado das olimpíadas. 

Encontrou Hizashi na porta, com a mesma expressão de deleite e expectativa. 

Os dois trocaram um olhar breve antes de invadir o local.

“Shotaaaa. Quem foi expulso?”

A sala estava escura, exceto pela luz da tarde na janela aberta, que era onde ele estava. Não em seu saco de dormir, não deitado no sofá, mas olhando pensativo para fora.

Eles dois não sabiam se isso era um bom ou mau sinal.

Eles ouviram um suspiro exasperado.

“Ninguém.”

Nemuri quase caiu em um tropeço no meio do caminho, surpresa. Depois de toda a reclamação dele antes mesmo de começar o ano letivo, sobre o perfil dos alunos que encontrou, ninguém era expulso?

“Eles devem ser bons mesmos.” Hizashi assobiou, impressionado.

Aizawa bufou, ainda sem parar de olhar pela janela. Os dois olharam por cima de seu ombro e viram que ele observava um grupo de alunos conversando animadamente a caminho do portão.

“Bakugo tem problemas sérios com raiva, e ele nem é o pior deles. Ele quase explode Yoarashi quando ele fez uma pergunta sobre Endeavor para Todoroki. Yoarashi é um caos social, ele não sabe falar com as pessoas sem pisar no calo de ninguém, mas Todoroki chega a ser pior, ele abre a boca e ofende alguém. Midoriya sabe desarmar conflitos que os outros dois criam, mas ele parece não saber seus limites e sua quirk é descontrolada. Sem falar que a ansiedade social dele é a pior que já vi, o que junta a sua quirk... Os três são preocupantemente co-dependentes! E eu nem cheguei nos outros.”

“Oh.” Os dois se olharam sem saber o que dizer depois do discurso inflamado.

“Mas eles não tem potencial zero.” Admitiu, passando os dedos na testa para aliviar a dor de cabeça.

Hizashi riu.

“Isso é quase uma declaração de amor vinda de você.”

"Vou precisar de um intérprete de sinais em tempo integral. E talvez um suporte emocional animal em sala de aula. Adaptações visuais para alarmes também."

Houve um silêncio do outro lado da linha.

"Você ainda nem terminou o primeiro dia e já está planejando mudanças de infraestrutura?" Hizashi brincou.

"Sim," Aizawa respondeu secamente.

Nemuri riu, mas foi mais gentil.

 "Vai dar certo, Shouta. Você vai ver."

Aizawa soltou um suspiro longo, recostando-se mais ainda no sofá gasto. O barulho da sala — o leve rangido das cortinas, o zumbido distante do ventilador — pareceu se dissolver, enquanto lembrava dos acontecimentos de mais cedo.

Sol da tarde esparramado no concreto do pátio. Passos ecoando contra o piso áspero.

O céu estava claro, o chão recém-varrido, e o som dos tênis riscando o concreto preenchia o ar enquanto eles tomavam suas posições. A energia misturada de nervosismo e empolgação era quase palpável.

 Primeiro dia de aula.
Primeira chance de cortar os despreparados.

A primeira impressão que teve ao observar seus alunos, ainda na classe, era que eram barulhentos e caóticos demais. A maioria estupidamente inocente sobre como o mundo funciona e dos riscos que iriam correr seguindo aquele caminho.

Com algumas claras exceções. 

Midoriya, Todoroki e Bakugou já estavam chamando atenção antes mesmo de fazer qualquer coisa. Eles se moviam em bloco, naturalmente sincronizados. Todoroki sempre no meio dos outros dois, seu rosto de vez em quando se movendo aos sons que eram imperceptíveis aos demais. Bakugou ia na frente, como se esperasse um ataque a todo momento, distribuindo xingamentos e com expressão de poucos amigos que deveria afastar qualquer um, mas parecia que seus colegas de classe não eram facilmente afastados.

Midoriya andava na retaguarda, segurando a mão de Todoroki como se sua vida dependesse disso, se escondendo contra a lateral do outro garoto com tanta força que só conseguia ver um dos seus olhos, fitando ao redor com curiosidade e nervosismo quando alguém olhava em sua direção.  

Se não bastasse, havia o cão-guia de Todoroki — um majestoso Pastor Branco Suíço — sentado calmamente na linha de sombra, observando. Uma adaptação que Hisashi Midoriya havia sido veemente em ser aceita na semana anterior, e que reforçou ao vir deixar o trio essa manhã, mesmo que ninguém tenha resistido a isso. 

Aizawa cruzou os braços, analisando.

Quando explicou como funcionaria o teste e ameaçou a turma, todos pareciam nervosos ou indignados, exceto os três. Midoriya apenas trocou um gesto rápido com Bakugou — parecia uma pergunta.
Bakugou assentiu uma vez, curto.
Todoroki tocou de leve a mão de Midoriya, e o cachorro se levantou também, atento.

Comunicação eficiente. Códigos próprios. Ótimo para o campo de batalha, péssimo para integração social.

Ao longo das tarefas e percurso, eles continuavam mais isolados, um ou outro aluno tentando se aproximar com variáveis graus de sucesso. Todoroki parecia ser rude acidentalmente com todos que perguntavam alguma coisa a ele (algo que provavelmente herdou da convivência com Touya), enquanto Bakugou parecia ser rude intencionalmente. Midoriya se agarrava mais em Todoroki sempre que alguém se aproximava, se escondendo atrás dos dois, o que ele conseguia bem pelo tamanho.

O único momento que ele tomava a frente, ao que percebia, era quando um dos outros se sentia desconfortável.

Inasa Yoarashi que parecia uma tempestade ambulante, se aproximou do grupo como quem não vê red flag nenhuma. Ele mal abriu a boca e Aizawa sabia que teria que intervir, principalmente quando o ouviu citar algo sobre Endeavor para Todoroki, que imediatamente enrijeceu. Bakugou se pôs na frente do outro, preparado para atacar, mas antes que a situação escalasse, Midoriya ergueu a mão, sinalizando um "pare" muito sutil, os olhos verdes firmes nos de Inasa.

Seja o que for que viu ali, o garoto pareceu entender — ou pelo menos sentir que havia pisado em terreno errado, e se afastou.

Midoriya é o que desarma os conflitos. 

Pelo menos quando ele não estava querendo ficar invisível. 

O problema maior aconteceu ao final.

"Use sua quirk, Midoriya," Aizawa ordenou. 

Durante todo o teste, ele não havia a utilizado. Ele tinha bom condicionamento físico, melhor do que a maioria, e havia se destacado bem sem a usar, mas isso não era um bom sinal, ainda mais depois de vê-la durante o exame de entrada.

O garoto fechou os olhos. Respirou fundo.
Quando abriu, chamas verdes saíram de sua boca. Se viu surpreso por isso, no exame de entrada elas não eram dessa cor. 

Antes que pudesse se recuperar da surpresa, Midoriya chutou a bola no ar e a impulsionou com uma explosão de chamas, a fazendo desaparecer em um clarão. 

Porém, o fogo não apagou. As chamas cresceram, saindo de controle, se espalhando pelo gramado enquanto alguns alunos gritavam se afastando.

Todoroki agarrou seu braço. Bakugou encostou seu ombro no dele, firme. 

E aos poucos, Midoriya recolheu o fogo até apagá-lo.

Aizawa estava a meio segundo de usar sua quirk. Relaxou — ligeiramente.

Nota mental: crise de ativação sob estresse. Controle ainda instável. Intervenção urgente. Talvez ele tenha atingido um ponto de evolução depois do exame de entrada.

A turma ainda vibrava com o resultado do teste, uns rindo, outros trocando piadas baixas sobre quem teria sido expulso se aquilo fosse sério.

Enquanto a maioria dos alunos suava e ria nervosamente, os três estavam juntos como sempre:  Shoto de pé, mão no pelo macio do seu cão; Bakugou sentado ao seu lado, atento a cada movimento; Midoriya olhando para o ponto onde as chamas haviam tocado a grama e tudo estava carbonizado. Naturalmente isolados como três pedras em meio a um rio turbulento.

Eles eram diferentes.

E ele teria que ser diferente também.

Aizawa soltou um suspiro longo.

O trio continuava um pouco afastado, Aizawa deixou.
Queria ver como o resto da classe reagiria sem intervenção.

Não demorou.

"Oi!" Uraraka Ochako se aproximou primeiro, sorrindo abertamente para Midoriya, ignorando o jeito como ele se encolheu ligeiramente. "Você foi incrível! Sua quirk é tão bonita!"

Midoriya piscou, surpreso, antes de sorrir de volta, tímido. Tocou o peito com a mão e fez um gesto simples de agradecimento.

Ela piscou, confusa por um segundo, então riu.
"Eu preciso aprender o que isso significa, né?"

Todoroki, silenciosamente, fez o mesmo gesto para ela — devagar, para que ela entendesse. Ela imitou, desajeitada, e Izuku riu sem som, os olhos brilhando.

Bom. Aceitação espontânea.
A comunicação pode ser construída.

Iida Tenya também se aproximou, ajustando os óculos.
"Se precisar de ajuda para se locomover entre as salas, Todoroki, estou à disposição!" declarou, formal demais.

Todoroki apenas inclinou a cabeça, educado. O cão-guia — a essa altura já famoso entre os alunos — soltou um bocejo enorme.

Foi Kōji Kōda, no entanto, quem verdadeiramente se destacou, talvez por ser menos barulhento que os demais. Ele aproximou-se devagar, se agachou e sorriu timidamente para o cachorro, fazendo um som suave — e o animal respondeu abanando o rabo. Midoriya olhou, surpreso, e o sorriso que deu em retorno foi pequeno, mas genuíno. 

Todoroki também pareceu curioso, tocando o braço de Midoriya para perguntar silenciosamente quem era.
Midoriya sinalizou: Kōji. Fala com animais.

Bakugou, do lado, bufou, mas ficou onde estava.

Aizawa percebeu que foi a primeira vez que os músculos tensos deles pareciam diminuir um pouco.

Talvez haja jeito, pensou Aizawa.

Ele reuniu todos os alunos e olhou para eles como quem olhava para um monte de problemas ambulantes.

"Muito bem," começou. "Hoje foi só uma introdução. Vocês terão muitos testes assim. E terão que trabalhar juntos."

Seus olhos caíram, inevitavelmente, sobre o trio no fundo.

"Entendam uma coisa: comunicação é tão essencial quanto força."

Midoriya olhou para ele, atento. Todoroki também. Bakugou cruzou os braços, parecendo contrariado, mas ouvindo.

"Se não souberem como se apoiar nos colegas, como confiar nos outros, então fracassarão."

Ele foi intencionalmente duro. Sabia que as palavras eram necessárias.

Viu o desconforto nos ombros de Midoriya, o jeito como Todoroki puxou discretamente o cachorro para mais perto.

Mas também viu como os três se alinharam ainda mais entre si, como uma muralha silenciosa.

Confiança. Eles tinham isso. Só não era no mundo. Era entre eles.

Seria o trabalho dele mudar isso.

A lembrança se dissipou como fumaça.

Aizawa piscou devagar, sentindo a rigidez no pescoço depois de tanto tempo imóvel. Do outro lado da sala, Nemuri observava com atenção, a sobrancelha arqueada em expectativa.

Aizawa olhou novamente pela janela, onde Midoriya, Todoroki e Bakugou caminhavam juntos para o portão. Midoriya sinalizava algo pequeno para os outros dois — provavelmente uma piada — porque Bakugou bufou. Todoroki se inclinou mais no espaço dele para falar alguma coisa, o cão fiel ao seu lado. 

Houve um breve momento de tensão quando Inasa os interceptou, mas ele apenas falou alguma coisa breve com sua voz barulhenta, que pareceu um pedido de desculpas pela referência que fez em seguida. Novamente, Midoriya foi o porta-voz do conflito e, seja o que tenha dito, fez todos relaxarem e Inasa sair correndo, acenando de forma animada.

Aizawa sentiu sorriu discretamente.

Eles não precisavam ser salvos. Só precisavam de espaço para florescer.

E ele, apesar de tudo, seria o jardineiro.

Mesmo que isso custasse toda a sua sanidade.

“É, errado já deu.”